Um estudo recente junto de consumidores que tomaram contacto virtual com a experimentação de um produto revela que 40% dos mesmos compraram o item online e 29% fizeram-no em loja. São registos demasiado importantes para serem ocultados no que diz respeito à importância do contacto virtual com a realidade aumentada na interação com clientes.

Muitas das marcas nossas conhecidas começam a dar cartas nesta matéria, como, por exemplo, a Nike na experimentação de ténis, a Sephora na aplicação de maquilhagem ou a IKEA na simulação da disposição do mobiliário dentro da nossa casa.

Todavia, o caminho é árduo. Para se chegar a uma plataforma de interação que seja amigável e preferida junto do consumidor é necessário que as marcas consigam ultrapassar algumas dificuldades, das quais se destacam as seguintes: custo do desenvolvimento do hardware e software, plataformas pouco ágeis, contínua aprendizagem dos programadores e a falta de interesse junto do mercado.

Quando, em 2016, foi lançado o Pokémon Go, que gerou uma adesão enorme com mais de mil milhões de downloads, a par de comportamentos inusitados em que as pessoas circulavam sozinhas e buscavam em sítios inóspitos o tão desejado prémio, estávamos na presença do início de uma nova era, no que respeita a capacidade da interação dos consumidores com uma experiência virtual assente na realidade aumentada. Esta inovação, concebida através da realidade aumentada rudimentar baseada em desenho animado gerou um investimento superior a 4.2 mil milhões de dólares, desde que foi lançada.

Passados seis anos estamos a assistir a um crescimento exponencial de soluções assentes na realidade aumentada, prevendo-se que 2023 gere o dobro das receitas do ano atual e que, dentro de três anos, o mercado quadruplique. Para tal, os grandes players do mercado não vão perder tempo e já começam a investir em soluções robustas. É o caso do Snapchat que criou óculos de realidade aumentada para um grupo específico de criadores, da Meta que se propõe lançar em 2024, em parceria com a Rayban, um portefólio de soluções deste género, do mesmo modo que a Apple não se deixará ficar para trás nesta matéria.

Este novo cenário vai permitir que as marcas vendam os seus produtos diretamente através das plataformas de social media, fazendo com que a compra gere um sentimento de comunidade, envolvimento e entretenimento em toda a componente da experiência de compra do cliente. É com base nesta possível recetividade que se prevê que a dimensão do e-commerce possa triplicar nos próximos anos.

Será a experiência de compra que determinará o seu sucesso, pelo menos a dois níveis: o do conteúdo da informação criada pelas marcas, parceiros e consumidores através da descoberta e geração de apelo à compra, a par das economias de escala geradas por uma rede cada vez mais alargada, permitindo descontos a consumidores e mais comissões aos fornecedores e intermediários.

Serão os nativos digitais (Geração Z), os principais responsáveis por esse impulso uma vez que 93% acreditam que a experiência da realidade aumentada é preferível e desejável, ora porque lhes torna o dia a dia mais fácil (60%), ora porque prestam mais atenção a anúncios que os envolvam virtualmente (51%).

A aplicação prática desta experiência será total. Imagine-se um turista que circula numa determinada cidade e que procura as melhores condições oferecidas por um determinado hotel. Atualmente, para colher mais informações, este turista faz uma pesquisa online. Com a realidade aumentada pode fotografar o hotel desde a rua, obtendo todas as informações necessárias ao processo de escolha e compra. Ora, sendo válido para a oferta hoteleira, é evidente que este cenário pode ser aplicável em qualquer experiência cultural (ex. museu) ou de compra (ex. loja).

Numa lógica mais sofisticada, o passo seguinte vai além da recolha de informação acerca do produto. Será possível, através deste mecanismo, interagir diretamente com vendedores ou consultores que nos ajudam ao processo de decisão.

A evoluir na mesma direção está a inteligência artificial, que vai compreendendo quem somos, o que queremos e preterimos, a que impactos somos mais sensíveis e qual a melhor forma de nos envolver, melhorando a cada dia a qualidade da informação providenciada.

Quando tudo circular neste registo, é altura de abrirmos um grande desafio à nossa reflexão e que passa por (re)aprender a ser humano na era dos algoritmos.

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Doutorado em Gestão pela Universidade Complutense de Madrid. Diplomado pelo INSEAD, London Business School, Wharton School, University of Virginia, MIT Management Sloan Management School, Harvard Business School, Imperial College of London, Kellogg School of Management de Chicago e IESE Business... Ler Mais