Opinião
IA e emprego: menos ruído, mais realidade
Nos últimos dois anos criou-se uma narrativa inevitável de que a Inteligência Artificial (IA) vai substituir empregos em massa. É uma ideia que se repete, gera cliques e que, honestamente, assusta as pessoas. Mas quando olhamos para os dados reais — não as “previsões” — a história é bem menos dramática.
Um estudo recente da Anthropic — Labor Market Impacts of AI: A New Measure and Early Evidence — decidiu olhar para o tema de uma forma mais concreta. Em vez de discutir apenas o que a IA poderá vir a fazer, analisou aquilo que já está a acontecer no trabalho hoje. E a primeira conclusão é clara: existe ainda uma distância entre o potencial da IA e a sua utilização real nas organizações (imaginemos em Portugal). Muitas tarefas que poderiam ser automatizadas continuam, na prática, a ser feitas como sempre foram.
O que me parece mais importante é que não há evidência de aumento de desemprego nas profissões mais expostas à IA desde 2022. A tecnologia está a entrar, sim, mas não está, para já a substituir pessoas à escala que muitos antecipavam. O que está a acontecer é mais simples: a IA está a acelerar partes do trabalho e a tornar algumas tarefas mais rápidas, mais eficientes e menos repetitivas. Isto muda naturalmente muitas funções, mas não elimina necessariamente o seu valor!
Há, no entanto, um sinal forte que merece a nossa atenção. O estudo sugere que a entrada de profissionais mais jovens em algumas destas áreas pode estar a abrandar. Não porque existam menos empregos, mas porque parte do trabalho mais básico, aquele que tradicionalmente servia de porta de entrada, está a ser transformado.
É aqui que a nossa conversa deve evoluir pois ao longo da história, sempre que a tecnologia avançou, algumas funções desapareceram. Quando vieram os computadores, desapareceram as máquinas de escrever, chegaram os ATMs e disseram que os bancos iam deixar de precisar das pessoas, veio a internet e previu-se o fim de imensas profissões; o trabalho na verdade não desapareceu, transformou-se. Novas funções pedem novas competências e novas formas de criar valor. Agora a diferença pode estar apenas na velocidade, a IA irá eliminar tarefas, mudar profissões e obrigar a uma adaptação mais rápida. E sim, substituir as pessoas que não a usem! Não se trata de uma rutura com o passado — é a continuação do mesmo padrão, mas agora acelerado por uma curva exponencial.
Menos alarmismo, mais leitura dos dados. E para quem quiser ir além das opiniões, vale mesmo a pena olhar para o estudo da Anthropic.








