Opinião

És um peão?

Henrique Jorge, fundador e CEO da ETER9

Quando nascemos, não chegamos ao mundo como folhas totalmente em branco, mas também não chegamos como autores de uma história inédita. Entramos num palco já montado, com cenários definidos, regras implícitas e narrativas que nos antecedem.

A linguagem que falamos, os símbolos que usamos, as instituições que nos organizam e até as perguntas que aprendemos a fazer foram moldadas por gerações anteriores. Ajustamos, portanto, a nossa realidade ao que já existe; ao que já foi pensado, explicado, discutido e criado.

Esta constatação pode parecer banal, mas tem implicações profundas. Significa que tudo aquilo que entendemos como “nosso” — o conhecimento, os hábitos culturais, as estruturas sociais — é, em larga medida, herdado. Não começamos do zero. Herdamos uma biblioteca gigantesca de experiências humanas, acumuladas ao longo de milénios.

Mas essa herança levanta uma questão filosófica interessante:
– Se aquilo que sabemos e usamos não foi criado por nós, até que ponto podemos afirmar que nos pertence? Ou, talvez mais relevante, até que ponto nos pertencemos a nós próprios?

Esta reflexão levanta exactamente essa provocação. Sugere que sem o colectivo (conhecimento adquirido) não passamos do básico, apenas com o que nos foi impresso à nascença para podermos funcionar.

E esta afirmação, apesar de simples, coloca-nos perante uma verdade desconfortável:
– O indivíduo isolado é uma ficção romântica.

A cultura contemporânea, sobretudo a ocidental, gosta de celebrar o indivíduo. Celebramos o génio solitário, o empreendedor visionário, o artista incompreendido que muda o mundo. Mas, na prática, nenhum destes exemplos existe sem uma rede invisível de contribuições colectivas. A ilusão do indivíduo totalmente autónomo, essa sim, é pura ficção!

Tomemos como exemplo a tecnologia, talvez o símbolo máximo do progresso humano. Quando alguém cria uma aplicação revolucionária ou uma plataforma digital inovadora, raramente começamos por perguntar quantas décadas de investigação tecnológica e científica tornaram essa inovação possível.

O smartphone, por exemplo, é frequentemente visto como um produto de empresas específicas ou de figuras icónicas da indústria tecnológica. Contudo, o dispositivo que temos no bolso é o resultado acumulado de avanços em física, engenharia, matemática, ciência dos materiais, telecomunicações e informática. Cada componente, do ecrã táctil ao GPS, tem raízes em projectos de investigação espalhados por universidades, laboratórios militares e empresas de todo o mundo.

Ou seja, aquilo que parece ser a criação de um indivíduo ou de uma organização é, na verdade, uma manifestação tardia de um esforço colectivo.

O conhecimento constrói-se como uma gigantesca rede interligada. Cada descoberta liga-se a outra anterior, como se fosse um nó numa teia infinita. Ninguém começa do nada. Todos continuamos algo que alguém começou antes.

A civilização humana evoluiu precisamente porque aprendemos a acumular conhecimento. Ao contrário de muitas espécies, não dependemos apenas da transmissão genética para sobreviver. Dependemos da transmissão cultural. O motor da civilização é a inteligência colectiva!

O fogo não teve de ser redescoberto em cada geração. A agricultura não precisou de ser reinventada a cada século. A escrita permitiu que ideias atravessassem o tempo e o espaço.

Hoje, essa capacidade de acumulação atingiu um nível sem precedentes. A Internet tornou-se, em muitos aspectos, a maior biblioteca da história da humanidade. Em poucos segundos, qualquer pessoa com acesso à rede pode consultar conhecimentos que outrora estavam confinados a universidades ou centros de investigação.

Mas esta democratização da informação traz consigo uma ambiguidade. Por um lado, nunca tivemos tanto acesso ao saber colectivo. Por outro, nunca estivemos tão expostos a uma avalanche de ruído informacional.

A inteligência colectiva, que deveria elevar o nível do debate público, muitas vezes dissolve-se em fragmentos de opiniões rápidas, polarizadas e superficiais.

E aqui surge uma tensão interessante:
– Será que estamos a usar o potencial colectivo da tecnologia para crescer enquanto sociedade, ou estamos apenas a amplificar as nossas tendências mais primitivas?

Defendo que ser egoísta, individualista ou egocêntrico só prejudica o seu emissor.

As redes sociais transformaram radicalmente a forma como nos apresentamos ao mundo. Cada perfil é uma espécie de vitrina pessoal, cuidadosamente curada (ou não!). Fotografias, opiniões, conquistas profissionais e momentos de felicidade são apresentados como se estivéssemos constantemente a competir por e pela atenção.

Este fenómeno criou aquilo que alguns sociólogos chamam de “economia da visibilidade”. A atenção tornou-se um recurso escasso e extremamente valioso. Consequentemente, muitos comportamentos online passaram a ser moldados por algoritmos que recompensam aquilo que gera mais interacção, e não necessariamente aquilo que gera mais reflexão.

Neste ambiente, o individualismo pode facilmente transformar-se em narcisismo digital. Cada pessoa tenta destacar-se, amplificar a própria voz, aumentar seguidores e validação social.

Contudo, esta lógica tem um paradoxo:
– Quanto mais cada um tenta ser o centro do Universo, mais se dilui o sentido de comunidade.

Se o mundo fosse um tabuleiro de xadrez — e cada vez mais parece ser —, talvez já não fossem apenas mãos humanas a mover as peças.

Hoje, grande parte das interacções sociais passa por plataformas digitais governadas por algoritmos. Esses sistemas determinam que conteúdos vemos, que notícias nos chegam e até que produtos nos são recomendados.

Em certo sentido, os algoritmos tornaram-se uma espécie de árbitros invisíveis do tabuleiro social.

Eles não são neutros. São programados com objectivos específicos:
– Maximizar tempo de utilização, aumentar cliques, gerar dados valiosos para publicidade. Assim, acabam por moldar subtilmente a forma como pensamos e interagimos.

A metáfora do peão no xadrez torna-se, portanto, particularmente relevante. Um peão tem um papel definido no jogo. Move-se segundo regras rígidas e serve principalmente para proteger peças mais importantes. Sacrificando-se por elas.

Mas é no contexto digital contemporâneo que estas perguntas se impõem com toda a sua brutalidade:
– Quantos de nós estamos a mover-nos segundo padrões definidos por algoritmos que nem sequer compreendemos? Quando seguimos tendências virais, partilhamos indignações colectivas ou reproduzimos discursos dominantes, estaremos a agir como indivíduos conscientes ou como peças previsíveis de um sistema maior?

Cada indivíduo tem potencial para deixar de ser apenas um executante de movimentos previsíveis (um peão) e tornar-se um agente activo na construção do conhecimento colectivo.

Num mundo dominado por notificações, actualizações constantes e ciclos rápidos de informação, pensar tornou-se uma actividade quase subversiva.

As plataformas digitais incentivam reacções imediatas: gostar, comentar, partilhar. O tempo entre receber uma informação e reagir a ela diminuiu drasticamente.

Contudo, o conhecimento verdadeiro raramente surge da rapidez. Surge da reflexão, da dúvida, da comparação entre perspectivas.

Se aceitarmos passivamente aquilo que nos é apresentado, seja por algoritmos, líderes de opinião ou correntes dominantes, arriscamo-nos a tornar-nos em peças (peões) num jogo que não compreendemos.

Pensar por conta própria não significa rejeitar o conhecimento colectivo. Pelo contrário. Significa utilizá-lo de forma consciente.

O conhecimento colectivo é um superpoder humano.

Cada contribuição para esse conhecimento é apenas uma parte de algo maior. Sem o colectivo, ficamos limitados ao básico.

A inovação moderna surge frequentemente da intersecção entre múltiplas perspectivas. Quando engenheiros, designers, cientistas e artistas colaboram, surgem soluções que nenhum deles conseguiria imaginar isoladamente.

Nos últimos anos, outra força começou a entrar no tabuleiro:
– A Inteligência Artificial.

Sistemas capazes de processar quantidades gigantescas de dados estão a transformar áreas como medicina, educação, investigação científica e criação artística.

Alguns temem que estas tecnologias substituam o ser humano. Outros acreditam que irão amplificar as nossas capacidades (eu acredito mais nesta parte).

Talvez a pergunta mais interessante não seja se as máquinas irão substituir-nos, mas como iremos integrar esta nova forma de inteligência no nosso ecossistema colectivo de conhecimento.

A Inteligência Artificial aprende a partir de dados produzidos por humanos. Ou seja, mesmo as tecnologias mais avançadas são, em última análise, um reflexo do conhecimento colectivo acumulado.

De certa forma, estas ferramentas são a continuação lógica daquilo que a humanidade sempre fez:
– Criar instrumentos que expandem as nossas capacidades cognitivas.

Mas se herdamos tanto do passado e dependemos tanto do colectivo, onde fica a nossa individualidade?

A resposta talvez esteja numa distinção subtil.

O conhecimento que utilizamos pode não ser originalmente nosso, mas a forma como o combinamos, interpretamos e aplicamos pode ser profundamente pessoal. Tal como uma ideia de negócio que alguém teve, mas que outro alguém a executou na perfeição.

Cada pessoa é um ponto de intersecção único de experiências, influências culturais, leituras e vivências. Mesmo quando usamos ideias herdadas, podemos reorganizá-las de maneiras inesperadas.

A criatividade humana nasce precisamente dessa recombinação.

O conhecimento colectivo atingiu uma escala sem precedentes. Ao mesmo tempo, enfrentamos desafios igualmente vastos:
– Desinformação, polarização, dependência tecnológica e concentração de poder digital.

Neste cenário, a pergunta “És um peão?” ganha novos contornos.

Talvez não possamos evitar completamente ser peças num jogo maior. Afinal, todos fazemos parte de sistemas sociais, económicos e tecnológicos que nos ultrapassam.

Mas podemos escolher jogar de forma consciente.

Podemos questionar, aprender, colaborar e contribuir para o conhecimento colectivo em vez de apenas consumi-lo passivamente.

E talvez seja essa a verdadeira transformação do peão:
– Não deixar de fazer parte do jogo, mas compreender finalmente o tabuleiro em que se move.

Nota: Este artigo não obedece, propositadamente, ao Novo Acordo Ortográfico.


Empreendedor, Programador e Analista de Sistemas, Henrique Jorge é o fundador e CEO da ETER9 Corporation, uma rede social que conta com a Inteligência Artificial como elemento central, e que atualmente está em fase BETA.

Desde sempre ligado ao mundo da tecnologia, esteve presente no início da revolução da Internet e ficou conhecido pela introdução da Internet e das tecnologias que lhe estão associadas em Portugal, sendo um dos pioneiros nessa área.

Passando por vários episódios de desconstrução e exploração das linguagens dos computadores, chegou à criação da rede social ETER9, um projeto que tem conhecido projeção internacional, e que ambiciona ser muito mais que uma simples rede social. Através de Inteligência Artificial (IA) pretende construir a ponte entre o digital e o orgânico, permitindo a todos deixar um legado digital ativo no ciberespaço, inclusive pela eternidade. Fora do espaço virtual, é casado, pai de duas filhas, e “devora” livros.

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