Em Portugal, a maioria das pessoas confunde o protocolo com a etiqueta e as boas maneiras. É uma confusão natural apesar de as “boas maneiras” terem mais a ver com a cortesia, do que com o protocolo. Mas não nos podemos esquecer que a cortesia, considerada como o código de comportamento do cortesão, do homem de corte, foi, na sua origem, um protocolo de Estado.

A corte era, por excelência, a morada do poder. É aliás por isso que Castiglione, autor de “O Cortesão”, é muitas vezes estudado em confronto com Maquiavel, autor de “O Príncipe”, duas obras que tratam da mesma coisa – o poder – embora evidentemente o façam de forma muito diversa, contrastando o realismo de um com o idealismo do outro.

Ao longo da história do protocolo em Portugal, o protocolo de Estado ora foi cortesia, ora foi etiqueta, ora foi cerimonial. Só com o advento da república estes vocábulos, pela sua conotação à monarquia, à nobreza e à igreja, foram banidos. Até voltarem a aparecer, muitos anos depois, definitivamente associados aos serviços do protocolo do Estado a quem compete “definir as regras que devem presidir ao cerimonial, etiqueta e pragmática de acordo com a prática internacional e as tradições do Estado Português”.

A expressão protocolo aplica-se ao ordenamento e organização dos atos das instituições oficiais, ou seja, do cerimonial público. Esse protocolo implica normas, legislação e regras, que só existem no âmbito oficial. O protocolo estabelece relações de civilidade entre autoridades constituídas em todas as instâncias de poderes, quer político, quer diplomático, quer eclesiástico, quer militar, quer académico, buscando uma harmonia que evite conflitos e atritos. Existem outros protocolos para além do de Estado porque o protocolo surgiu no momento em que foi necessário ordenar documentos ou pessoas. Refinou-se com o andar dos tempos e a crescente complexificação da vida e da organização das sociedades.

Por outro lado, sempre houve uma profunda ligação entre as boas maneiras e a etiqueta. Ambas se regem por códigos de comportamento transmitidos de geração para geração, que facilita o relacionamento entre pessoas, variando dentro de cada comunidade ou sociedade. O protocolo distingue-se por ser um código de comportamento, baseado em normas legais, que se aplicam a todos os cidadãos e que, unido à aplicação de certas técnicas de ordenamento, contribui para uma afirmação de poder da instituição e dos seus dirigentes. Não há protocolo sem boas maneiras, mas pode haver boas maneiras sem protocolo.

O livro de etiqueta mais antigo está na Biblioteca Nacional, em Paris, e foi escrito por volta de 2.400 AC, pelo faraó Ptahhotep, em folhas de papiro. Mas o termo etiqueta aplicado às boas maneiras nasceu em França, na Corte de Luís XIV, onde as pessoas, ao chegarem ao pátio (cour) de Versalhes, recebiam pequenas folhas (etiquettes) onde estavam inscritas algumas instruções quanto à posição, ao vestuário e ao comportamento que deveriam assumir nas cerimónias reais para que eram convidadas.

Hoje etiqueta é sinónimo de boa educação, de elegância e de outras virtudes semelhantes, que são muito apreciadas nas camadas superiores de qualquer sociedade civilizada. Pressupõe um conjunto de normas, usos e costumes que regulamentam a vida social tratando, por exemplo, de estabelecer normas para casamentos, banquetes, trajes, etc. Nenhum destes códigos se fundamenta em legislação e varia de sociedade para sociedade. Um organizador de eventos deve saber que estas regras variam e que não será o mesmo organizar o casamento de um jogador de futebol ou de um membro da aristocracia

Quem trabalha em protocolo sabe que as boas maneiras são fundamentais para gerir situações que podem surgir no desenrolar de um evento protocolar. Nunca se pode perder o sorriso nem a boa educação. Mesmo que um convidado se tenha sentado num lugar a que não tem direito, há sempre maneira de lhe perguntar educadamente se ele é a pessoa a quem aquele lugar se destina. Ele responderá que não. Devemos perguntar-lhe o nome e o cargo e depois pedir-lhe que nos acompanhe para o levar ao lugar que lhe corresponde “segundo o protocolo”.

A meu ver, ter boas maneiras é tratar todos da mesma maneira. Protocolo é tratar cada um conforme as funções que desempenha. Ou seja, cumprimenta-se o porteiro e o presidente da empresa da mesma maneira dizendo “Bom dia”. Mas ao presidente acrescenta-se “Senhor Presidente”. Se coincidirem num evento da empresa vão ocupar lugares distintos. O protocolo, qualquer protocolo, “baseia-se em três Bês: boa educação, bom senso e bom gosto”.[i]

[i] Imagem e Sucesso-guia de protocolo para pessoas e empresas, Casa das Letras.pg 26

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Sobre o autor

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Isabel Amaral é Presidente da Associação Portuguesa de Estudos de Protocolo desde 2005 e Investigadora do Instituto do Oriente (ISCSP-Universidade de Lisboa), desde 2013. É oradora internacional, empresária, coach executiva, docente em universidades portuguesas e estrangeiras, palestrante e conferencista, em... Ler Mais