Opinião

Conversas difíceis não são um problema – evitá-las é!

Catarina Quintela, consultora e docente especializada em liderança, transformação cultural e desenvolvimento de pessoas*

Nas organizações, as conversas difíceis continuam a ser adiadas. Feedback corretivo, conflitos latentes, desalinhamentos de expetativas ou comportamentos inadequados são temas que muitos líderes preferem contornar. No entanto, o verdadeiro problema não está na conversa em si, mas sim na sua evasão.

Evitar uma conversa difícil tem um custo silencioso. O que não é dito, acumula-se. O que não é clarificado, gera interpretações. O que não é enfrentado, transforma-se em tensão. E essa tensão infiltra-se na cultura, no engagement e, inevitavelmente, nos resultados.

Muitas vezes, estas conversas exigem coragem. Implicam que o líder esteja disposto a assumir vulnerabilidade, inclusivamente admitir que a sua perspetiva sobre a situação pode estar incompleta ou até errada. Liderar não é ter sempre razão. Trata-se também de criar espaço para compreender melhor.

Em alguns casos, a dificuldade da conversa não está apenas no tema, mas no que ele representa. O líder pode questionar-se: “porque é que esta conversa é tão difícil para mim?”, “Estarei a sentir que tenho “telhados de vidro”?” ou “Haverá incoerências minhas que tornam mais desconfortável abordar o outro?”. Este exercício de autoconhecimento é fundamental para que a conversa seja conduzida com integridade.

Curiosamente, nem sempre o outro lado resiste. Muitas vezes, o líder é surpreendido: a pessoa aguardava aquela oportunidade para falar abertamente sobre um assunto que também não sabia como trazer à tona. O silêncio, afinal, era partilhado. Quando alguém dá o primeiro passo, abre-se espaço para confiança e maturidade.

Adiar um problema hoje significa, quase sempre, ampliá-lo amanhã. Pequenos desalinhamentos tornam-se conflitos. Falhas pontuais transformam-se em padrões. Ressentimentos silenciosos comprometem relações. O que poderia ter sido resolvido com uma conversa atempada passa a exigir intervenção corretiva mais exigente.

A liderança, que adota uma postura de desenvolvimento, entende que estas conversas não são momentos de confronto, mas oportunidades de crescimento para ambos. Crescimento na clareza, na responsabilidade, na consciência e na qualidade da relação. Exigem escuta ativa, perguntas genuínas e intenção de compreender antes de julgar.

Talvez a mudança comece nas perguntas que o líder decide fazer a si próprio: “O que estou a evitar ao adiar esta conversa?”, “Que impacto tem este silêncio na equipa?”, “O que posso aprender com a perspetiva do outro?”, “Estou a querer ter razão ou a querer resolver?” e “Que cultura estou a reforçar quando escolho falar — ou quando escolho calar?”

Conversas difíceis não fragilizam a liderança. O que o que faz é o silêncio prolongado. Quando conduzidas com coragem, clareza e respeito, tornam-se momentos decisivos de evolução, tanto para o líder como para a pessoa e para a organização.

*Coautora do livro “Líder Coach – Quer Transformar a Liderança na sua Organização?”

Comentários

Artigos Relacionados

Alexandre Meireles, presidente da ANJE
Adolfo Mesquita Nunes, partner da Gama Glória