Entrevista/ “Liberdade financeira não é ser milionário. É ter um negócio que gera lucro previsível e recorrente”
“A crise financeira de 2008 foi o período mais complicado da minha vida profissional. De um momento para o outro fiquei sem negócio. Na altura o grande motor da minha faturação era a intermediação de crédito habitação, que simplesmente parou”, revela o empresário Énio Mota, que fala dos erros que marcaram os primeiros anos da sua carreira e de como esses obstáculos o levaram a descobrir a liberdade financeira.
Depois de estudar Finanças no ISCTE e de passar por duas grandes empresas, Énio Mota decidiu, em 2004, seguir o seu próprio caminho e criar a sua empresa de consultoria financeira e de gestão. Em 2006, investiu num franchising na área da consultoria financeira, mas a crise de 2008 acabaria por ditar a falência do negócio.
No entanto, não desistiu. Diversificou atividades, estabeleceu parcerias e começou a concentrar-se naquilo que o mercado mais precisava. Os vários negócios foram evoluindo, mas o trabalho aumentava e a liberdade de tempo diminuía. O esforço era enorme e os resultados não correspondiam a esse esforço, conta.
Foi, então, que descobriu o coaching. Um dos primeiros passos foi perceber o que realmente queria a longo prazo e traçar um plano para lá chegar. Em 2018 tornou-se coach financeiro. Hoje, dedica grande parte do seu tempo a ajudar empresários a aumentar a rentabilidade das suas empresas e a alcançar a liberdade financeira.
Em 2004 decidiu criar a sua própria consultora. Que motivações o levaram a dar esse passo?
Sempre tive o desejo de ter o meu próprio negócio, talvez influenciado pelo exemplo dos meus pais. Como até então não tinha encontrado a sintonia e o alinhamento que me motivassem nas empresas por onde passei, decidi que era o momento de avançar.
Voltar a estudar numa pós-graduação em Finanças e Controlo Empresarial no INDEG/ISCTE trouxe algum diferencial na forma como geria o negócio?
Esta pós-graduação trouxe-me estrutura. Muitas vezes o empreendedorismo “apaixonado” faz-nos esquecer do rigor. Deu-me as ferramentas para não apenas “fazer”, mas para medir, controlar e prever. Proporcionou-me também troca de experiências com outros colegas de diferentes setores e com muitos mais anos de experiência do que eu. Foi sem dúvida muito enriquecedor!
“Os maiores desafios que enfrentei foram na sustentação e crescimento do negócio. O ter avançado sozinho, com pouca experiência e sem um plano claro, tornou o caminho imprevisível (…)”.
Na sua opinião, quais foram os maiores desafios que enfrentou nos primeiros anos de empreendedorismo?
Os maiores desafios que enfrentei foram na sustentação e crescimento do negócio. O ter avançado sozinho, com pouca experiência e sem um plano claro, tornou o caminho imprevisível. Além disso, nem sempre tomei as decisões mais acertadas.
Em 2006 investiu num franchising na área de consultoria financeira, mas nem tudo correu como planeado. Que erros cometeu nessa fase que muitos empresários também cometem?
Quero destacar dois erros muito comuns que poucos empresários têm consciência deles. Não ter um plano de contingência. Quando avancei para o negócio, estava convencido que iria correr super bem, tinha analisado profundamente o mercado, mas nunca coloquei a hipótese e se alguma coisa urgir e correr mal.
Depois, o excesso de confiança provocada pelo sucesso. O primeiro ano de negócio foi de um enorme sucesso. Sem fazer grande coisa, rapidamente superei o break-even, estava a amortizar a dívida a bom ritmo, a faturação crescia e acabei por não assumir o controlo do negócio. Foi uma lição cara, mas valiosa.
“Tentei aguentar um negócio que estava a perder dinheiro na esperança que em breve as coisas voltassem a mudar. O que foi um erro”.
A crise financeira de 2008 foi um momento crítico na sua carreira. Como lidou com a pressão pessoal e familiar, e que aprendizagens tirou dessa fase?
A crise financeira de 2008 foi o período mais complicado da minha vida profissional. De um momento para o outro fiquei sem negócio. Na altura, o grande motor da minha faturação era a intermediação de crédito habitação, que simplesmente parou. Tentei aguentar um negócio que estava a perder dinheiro na esperança que, em breve, as coisas voltassem a mudar. O que foi um erro.
Duas grandes aprendizagens deste período. Ter linhas vermelhas definidas e respeitá-las. Devemos ter limites financeiros definidos. É preferível fechar a empresa do que criar um buraco financeiro. Não depender de uma única fonte de rendimento ou não estar exposto apenas a um produto ou serviço foi outra lição. Aprendi que há que ter diversas fontes de receita que não estejam interdependentes entre si.
Se pudesse voltar atrás, o que teria feito de diferente nos primeiros anos de negócio?
Teria procurado um parceiro de negócio, com caraterísticas e competências diferentes das minhas, para avançarmos juntos. Teria investido muito mais cedo em mentoria e autoconhecimento. Se tivesse tido a humildade de procurar quem já tinha feito o caminho, teria poupado anos de stress e milhares de euros em erros evitáveis.
Depois de anos de trabalho intenso, sem liberdade de tempo, como descobriu o coaching e o que o atraiu nesta área?
Foi precisamente a falta de liberdade de tempo, a sensação de estar a avançar muito lentamente e com grande esforço, que me levou a contratar um coach. Com ele passei a dedicar tempo para pensar o meu negócio e em mim. Nessa altura, também já tinha começado a trabalhar no meu desenvolvimento pessoal, a querer melhorar várias áreas da minha vida. Tudo isto fez com que, num determinado dia, eu parasse e pensasse no que realmente era importante para mim.
Esta grande reflexão deu-me a clareza estratégica que precisava. Levou-me a alterar muita coisa, começando por abandonar a área de negócio que mais me deprimia, apesar de ser a mais rentável no momento. Todo este meu processo de transformação, fez-me perceber que posso e consigo ser muito mais útil a trabalhar o empresário em vez de trabalhar a empresa. Testei, adorei e os clientes obtiveram bons resultados. Estava encontrado o meu caminho.
Que passos concretos deste processo de autodescoberta e planeamento pessoal considera mais importantes para qualquer empresário?
O primeiro passo é sem dúvida tomar consciência que nós somos responsáveis pelo que nos acontece e devemos ser a nossa prioridade.
Depois ter clareza sobre o que pretendemos para a nossa vida. Daqui é que vai partir a criação de um plano estratégico para a empresa, de modo que seja coerente com os desejos pessoais. Caso contrário, viramos escravos do próprio negócio e nem nos apercebemos.
De seguida e de forma contínua, é importante investirmos no nosso maior ativo, nós próprios. Desenvolver competências, colocar conhecimento em prática, ser mais seletivo nas pessoas que temos à nossa volta, estarmos nos ecossistemas que nos fazem crescer, entre outros exemplos que poderia dar.
“O tempo é um recurso não renovável. Para isso, tenho sempre presente a seguinte questão: isto leva-me para mais próximo do que quero?”.
Como aplica hoje essas aprendizagens na sua própria vida e nos negócios que apoia?
Não perder tempo é a principal máxima. O tempo é um recurso não renovável. Para isso, tenho sempre presente a seguinte questão: isto leva-me para mais próximo do que quero? Se a resposta for negativa, não perco mais tempo. Grandes conquistas fazem-se com pequenos passos. É nesses pequenos passos que me concentro e que me foco na ajuda ao meus clientes e garantir que estão alinhado com o plano estratégico.
O que significa, na prática, “liberdade financeira” e como um empresário pode alcançá-la?
Liberdade financeira não é ser milionário. É ter um negócio que gera lucro previsível e recorrente, permitindo-te escolher como usas o teu tempo. Os empresários conseguem alcançá-la através da rentabilidade sustentável, com margens corretas, custos controlados, com um negócio que não dependa da presença física do dono para faturar e, acima de tudo, que crie riqueza.
A grande preocupação do empresário tem de ser fazer crescer o valor da empresa com foco na geração crescente de fluxos de caixa e investimento constante no negócio.
Quais são os erros mais comuns que vê empresários cometerem na gestão financeira das suas empresas?
Misturar as contas pessoais com as da empresa é o erro número um nas micro e pequenas empresas. O segundo é não saber o custo real do seu produto ou serviço, vendendo sem margem. E o terceiro é achar que vender mais é a solução para todos os problemas.
Que estratégias práticas aconselha para gerar mais lucro sem sacrificar tempo e qualidade de vida?
Focar na retenção de clientes (é 5 a 7 vezes mais barato do que captar novos) e na otimização de processos. Automatizar o que é repetitivo e delegar tudo o que pode ser feito por outra pessoa. Além disso, aprender a dizer “não” e despedir clientes tóxicos que consomem tempo e não geram lucro.
“Embora garantisse alguma segurança, o crescimento trouxe novos desafios: foi necessário reforçar a equipa de apoio e investir nas instalações, o que acabou por pressionar as margens”.
Pode partilhar algum exemplo de sucesso de um empresário que acompanhou e que aplicou estas estratégias?
Vou partilhar o caso de uma empresa na área da saúde. Quando comecei a trabalhar com esta organização, encontrava-se em fase de crescimento, mas a gerente começava a enfrentar várias dúvidas na gestão do negócio — algo natural, já que ser técnico é muito diferente de ser gestor. O modelo de negócio assentava na contratação de profissionais de saúde externos, remunerados à comissão. Embora garantisse alguma segurança, o crescimento trouxe novos desafios: foi necessário reforçar a equipa de apoio e investir nas instalações, o que acabou por pressionar as margens. Ou seja, à medida que a faturação aumentava, o lucro diminuía.
Repensámos então o modelo de negócio e avançámos para uma estrutura mais sólida: de dois colaboradores internos, a empresa passou para seis em apenas um ano, permitindo que o crescimento do lucro acompanhasse — e superasse — o crescimento da faturação.
Olhando para todo o seu percurso, que conselho daria ao Énio do passado?
Diria-lhe: “Énio, não tenhas medo de pedir ajuda. Não precisas de carregar tudo nos teus ombros. Foca-te em saber o que queres para tua vida primeiro, e o rumo certo do teu negócio virá por acréscimo. E lembra-te, a faturação inflama o ego por um trabalho bem feito, mas a tua alegria de viver é o teu verdadeiro lucro.”.
Que hábitos ou mentalidades considera fundamentais para quem quer crescer nos negócios e, ao mesmo tempo, manter equilíbrio pessoal?
A mentalidade de aprendizagem constante e o hábito de uma rotina matinal. A forma como geres as tuas primeiras duas horas do dia define como vai correr o restante do teu dia. Além disso, é fundamental ter consciência clara dos objetivos pessoais a longo prazo, tê-los sempre presentes e revê-los anualmente.
Qual é o legado que quer deixar enquanto coach financeiro?
Quero que o meu legado seja uma geração de empresas lucrativas, geridas por pessoas realizadas, presentes nas suas famílias e capazes de gerar impacto positivo na sociedade.








