Opinião

Indústrias de Defesa e… de Inovação!

Carlos Sezões, presidente da Plataforma Portugal Agora

A volátil geopolítica atual trouxe de novo para a linha da frente a importância do investimento em defesa. E, olhando a montante, para as indústrias que a suportam. A Europa, e Portugal, em particular, estarão cientes que, nas economias modernas, as indústrias de defesa desempenham um papel fundamental não só para garantir a segurança nacional, mas também para reforçar o crescimento – através das exportações.

Desde a inovação tecnológica à criação de emprego, o sector da defesa influencia um amplo espectro de dimensões económicas que vão muito para além das aplicações militares.
Como é comprovado e sabido, a investigação e o desenvolvimento (I&D) da defesa são, desde há muito, catalisadores de avanços tecnológicos que, frequentemente, alavancam outros mercados e indústrias. O caso historicamente mais relevante é talvez a Internet (com um ancestral chamado ARPANET – Advanced Research Projects Agency Network), a primeira rede de computadores do mundo, criada em 1969 pelo Departamento de Defesa dos EUA. Outro será o sistema de posicionamento global (GPS). Começando como navegação militar, a tecnologia GPS suporta hoje inúmeras aplicações civis. Transformou o transporte, a logística e os serviços de emergência, permitindo a navegação precisa em veículos até serviços baseados na localização em smartphones. As ciências mais avançadas dos materiais ou os avanços em semicondutores e microelectrónica são outros casos exemplares.

Uma das contribuições mais diretas da indústria de defesa é a criação de emprego. Desde engenheiros e investigadores altamente qualificados a operários fabris, o sector conta com uma força de trabalho diversificada. O efeito multiplicador destes empregos é significativo: cada posição no sector da defesa pode estimular mais oportunidades de trabalho nas indústrias de suporte ao “ecossistema”, como a logística, a transformação e os serviços.

Ligada a esta dimensão, a indústria de defesa apoia uma vasta rede de fornecedores, e prestadores de serviços. E, aspecto pouco mencionado, o comércio internacional destes produtos fortalece, geralmente, os laços diplomáticos entre as nações, criando uma saudável rede de interdependência.

Olhando para um futuro cada vez mais presente, a indústria de defesa enfrenta vários desafios. As mudanças políticas globais, as ameaças à cibersegurança e a evolução das táticas de combate exigem uma adaptação e investimento contínuos em tecnologias de última geração – no terrestre, naval, aéreo e já, também, aeroespacial. À medida que se processa a transição para modelos de defesa mais digitais e em rede, o sector começou já a integrar a inteligência artificial e a robótica. Estas mudanças prometem interligar ainda mais as capacidades de defesa com tendências tecnológicas mais amplas.

Portugal tem um ecossistema robusto nesta área. Segundo dados de 2021, teremos mais de 350 empresas e cerca de 60 entidades dedicadas à I&D. Com um volume de negócios de 4,75 mil milhões de euros (2020) e cerca de 40 mil trabalhadores, o seu potencial de crescimento é enorme. Possuímos engenharia de excelência nas áreas das comunicações, da blindagem e proteção individual e no cada vez mais relevante cluster dos drones. Falta-nos, naturalmente, escala, o que nos deve levar a formar parcerias e consórcios.

Em suma, podemos ser um povo pacífico, mas não devemos ser pacifistas ingénuos. Estes novos tempos trarão (legítimos) investimentos em defesa, muito baseados na inovação. O plano ReArm Europe e o seu horizonte temporal de 2030 é uma oportunidade única de colocar a marca Portugal na linha da frente da inovação tecnológica da Europa.

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Carlos Sezões

Carlos Sezões

Carlos Sezões é atualmente Managing Partner da Darefy – Leadership & Change Builders, startup focada na transformação organizacional/ cultural e no desenvolvimento do capital de liderança das empresas. Foi durante 10 anos Partner em Portugal da Stanton Chase, uma das 10 maiores multinacionais de Executive Search. Começou a sua carreira no Banco BPI em 1999. Assumiu depois, em 2001, funções de Account Manager do portal de e-recruitment e gestão de carreiras www.expressoemprego.pt (Grupo Impresa). Entrou em 2004 na área da... Ler Mais..

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