No âmbito do Dia Mundial do Ambiente, que se assinala hoje, o Link to Leaders entrevistou Gustavo Pita Soares, CEO da Geratriz, uma empresa fundada em Portugal que criou um produto que permite aos seus utilizadores pouparem até 50% dos recursos energéticos.

A Geratriz é uma start-up portuguesa que opera nos setores da água, do gás e da eletricidade. O produto-chave da empresa é um aparelho denominado WeMeter, que junta os dados do consumo da água, do gás e da eletricidade, tendo em vista um racionamento mais inteligente e eficaz dos mesmos.

O Link to Leaders falou com o CEO da empresa portuguesa – parceiro tecnológico da Microsoft – que promete revolucionar o consumo de energia em grandes superfícies.

Como e quando é que surgiu a Geratriz?
A Geratriz surgiu em 2009, aliando vários anos de experiência acumulada nos setores da água e da energia, com o intuito de prestar serviços técnicos de engenharia nas referidas áreas, apresentando soluções inovadoras ao mercado.

O vosso sistema WeMeter monitoriza o gasto da água, eletricidade e gás, e dá a possibilidade aos utilizadores de consultarem os dados através de um computador ou de um tablet/smartphone. Têm concorrentes diretos no mercado?
Com o WeMeter não inventámos a roda, e sim temos concorrência, nomeadamente produtos que fazem apenas eficiência energética e outros que operam no setor da gestão da água, embora poucos atuem ao nível da gestão integrada de eletricidade, água e gás. O que nos diferencia? Desde o primeiro minuto que trabalhamos no sentido de criar e desenvolver um produto simples, de fácil utilização e navegação, intuitivo e que, embora atue na complexidade do big data, assimilasse a informação e a apresentasse de forma simples e totalmente direcionada para a gestão de um grande edifício ou indústria. Adicionalmente, focámo-nos em machine learning, de forma a incluir a ciência na análise dos dados, com vista à identificação automática dos pontos fora do padrão e envio de alertas para a gestão. Esta fusão entre simplicidade e ciência faz do WeMeter um produto singular. Neste momento estamos a concluir a componente analítica, alicerçada na fortíssima ferramenta que é o Power BI da Microsoft, o nosso parceiro tecnológico, e onde iremos apresentar análises complexas e inter-relacionais de forma simples e extremamente útil.

Apesar do produto estar muito desenvolvido para a área do retail, acabámos de ganhar mais um prémio internacional num programa promovido pelo Eurostars, relativo a um upgrade que estamos a realizar para o setor da indústria. Iremos adicionar, entre outras variáveis, medições mecânicas, caudal, humidade, massa e outros sensores, o que nos permitirá identificar antecipadamente e com precisão o ponto de avaria num equipamento eletromecânico – motor ou grupo eletrobomba, por exemplo.

Quanto é que um cliente vosso pode poupar, em média, ao utilizar o vosso produto?
Da nossa experiência, os ganhos de curto-médio prazo situam-se entre os 3% e os 10%. Estudos realizados em instalações que não dispunham de sistemas como o nosso, mas que os instalaram concluem que, dependendo do nível de eficiência da instalação, a margem de progressão ao nível da poupança pode chegar aos 20% apenas com alterações comportamentais e até os 50% com alterações tecnológicas, investindo em equipamentos mais eficientes.

As nossas equipas estão vocacionadas para apoiar os nossos clientes no que diz respeito à identificação e mapeamento de potenciais melhorias nos seus sistemas, fazendo aconselhamento para mudanças comportamentais que gerem mais eficiência, mas também no aconselhamento tecnológico para substituição de equipamentos por outros que tragam retornos mais interessantes e cujo investimento seja recuperado num espaço de tempo atraente. É este o aconselhamento que os nossos clientes podem esperar da nossa equipa.

Estando no setor da energia e da água, acha que existe um consumo responsável deste tipo de recursos por parte dos portugueses?
É sempre possível melhorar e ainda há muito trabalho a fazer. Julgamos que temos uma consciência cada vez maior da importância do consumo responsável destes dois recursos. Desde o início da democracia que as sucessivas gerações foram tendo uma perceção e valorização cada vez maior da preservação da água e da energia, o que, com o passar dos anos, resulta num conhecimento cada vez mais consolidado.

Diria que a iliteracia ambiental é algo de preocupante na sociedade portuguesa?
Recordo-me bem do Ano Europeu do Ambiente. Estávamos em 1987 e senti, apesar de ser bastante novo, que essa palavra entrava pela primeira vez no nosso léxico. Desde então e até aos dias de hoje, houve um enorme trabalho, quer ao nível do Estado quer das organizações ambientais e das empresas, que nos permite estar muito perto da linha da frente em diversos campos, o que nos deve encher a todos de orgulho. De facto, hoje em dia já temos uma rede de abastecimento de água e de saneamento que cobre quase a totalidade do país. Também a produção de energia a partir de fontes renováveis é já bastante significativa e a indústria, na sua maioria, respeitadora do ambiente. Evidentemente que, quando a envolvente é de consciencialização e existe trabalho em prol das questões ambientais, a iliteracia ambiental tem tendência a diminuir. Seguramente que estamos bem menos iletrados que nos idos anos de 1987, em que, por exemplo, rios como o Alviela já nasciam poluídos.

Trabalhando neste setor, diria que há uma preocupação crescente das empresas em relação aos gastos excessivos com a água, a eletricidade e o gás? O que mudou nos últimos anos?
Em termos empresariais ainda há bastante margem de progressão. De facto, pela nossa experiência, e no que respeita aos grandes consumidores de utilities, ainda há um grande desconhecimento sobre de onde advêm os gastos em cada um destes recursos. Entendemos que gerir é estar informado, mas não se pode estar informado quando se paga uma fatura de milhares de euros por mês sem saber ao certo quanto é consumido em cada parcela do edifício. Produtos como o WeMeter ajudam a compreender os consumos, apoiam na gestão diária e nos investimentos tecnológicos a realizar no tempo, acrescentam ganhos com poupanças e valorizam os ativos. Acreditamos que uma instalação que não disponha de um sistema de gestão de utilities num futuro próximo é como ter um hotel no centro de Lisboa e estar fora das plataformas de venda online da hotelaria.

Como empresa, qual foi o vosso maior desafio?
O desenvolvimento do WeMeter. Pensá-lo, desenvolvê-lo, construí-lo, mantendo o nosso princípio da simplicidade na apresentação dos dados, alicerçados em ciência computacional.

O investimento que realizaram até agora foi todo vosso ou tiveram apoio de terceiros?
Todo o investimento que realizámos até à data foi nosso. Sempre soubemos que estávamos a desenvolver um produto excelente, mas também sabemos que na história da humanidade houve milhares de produtos de sucesso que ficaram pelo caminho. Levou-nos um pouco mais de tempo a chegar até aqui do que caso tivéssemos tido financiamento, mas também sabemos que estamos a dar passos seguros e não maiores do que a perna.

Quais são os vossos principais clientes?
Estamos muito ligados ao retail e grande parte do desenvolvimento que fizemos do nosso produto foi neste setor. Como referência, estamos em alguns centros comerciais, em espaços com mais de 50 mil m2 e com mais de 100 pontos de monitorização a enviar dados diretamente para a nossa cloud.

O que é que a Geratriz tem reservado para o futuro?
O futuro da Geratriz passa muito pela busca constante de soluções inovadoras e diferenciadoras para os nossos clientes. Acreditamos que o WeMeter vai potencializar a nossa internacionalização e que nos próximos 2 a 3 anos podemos vir a estar nos principais países europeus. Será certamente um grande projeto que trará muito esforço, mas estamos certos que trará igualmente muitas alegrias a toda a equipa, que certamente irá crescer através da incorporação de cada vez mais talento humano.

Efetivamente, um dos nossos objetivos para os próximos anos é a internacionalização da empresa através da comercialização deste produto. A estratégia passa por encontrarmos parceiros locais que nos ajudem a comercializar o WeMeter.  Pelo que temos visto, este é um produto mais valorizado nos países desenvolvidos, pelo que iremos iniciar o processo com a entrada no mercado europeu por uma questão de proximidade.

Respostas rápidas:

O maior risco: Permanecermos na linha da frente em termos tecnológicos.
O maior erro:  Continuamos a aprender. O importante é olhar o futuro com perseverança!
A melhor ideia: O WeMeter.
A maior lição: O slogan do WeMeter, Share It. Estabelecer verdadeiras e sinceras parcerias, partilhando ideias para o nosso produto com fornecedores e clientes.
A maior conquista: O presente, a empresa e as pessoas que a integram.

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