Quando se procura num qualquer dicionário de português facilmente se percebe que depende bastante do contexto em que a palavra é aplicada, por isso, deixo-vos a minha interpretação pessoal na expetativa de adicionar algum valor ao tempo investido na leitura deste artigo.

Num dos meus livros preferidos de Dan Ariely é explanada a teoria de valor social e valor económico, de forma muito sumária, e numa interpretação livre e pessoal, valor social é aquele que resulta de uma ação voluntária não remunerada, como ajudar um amigo numa mudança de casa ou quando respondemos a um inquérito, por exemplo; e por oposição, valor económico é a remuneração económica de uma ação.

Até aqui nada de novo, ambos são factos do nosso quotidiano, acontecem profusamente no nosso dia a dia, mas o que mais me fascina é a forma como interpretamos e nos comportamos em ambas as situações. Na verdade, sem sequer darmos conta. Reparem neste exemplo:

Um amigo convida-nos para jantar, de forma gentil, compramos uma garrafa de vinho, ou uma sobremesa se preferirem. Quando lhe entregamos, à chegada, ele fica verdadeiramente feliz (eu diria que a felicidade é diretamente proporcional à qualidade do vinho, mas não necessariamente, dependendo do grau de amizade). Agora imaginem que nada levam e no final do jantar entregam-lhe 20€ como agradecimento (vamos assumir que até será um valor económico superior ao vinho) como acham que ele reagiria?

Existe uma imensidão de exemplos nas nossas vidas diárias, será fácil pensarmos naquilo que fazemos sem nada cobrarmos e que não aceitaríamos fazer se fosse mal remunerado.

Logo que atribuímos um valor monetário a uma ação, a nossa mente inicia automaticamente uma avaliação de valor por comparação, seja ao esforço que nos exige, ou ao seu valor intrínseco quando comparado com ações idênticas também elas remuneradas, uma espécie de “vale ou não a pena fazer isto?”.

No entanto, nem tudo na vida possui valor económico, felizmente, de outra forma não existiria voluntariado, nem altruísmo. Reparem na história portuguesa recente, nas calamidades que nos assolaram, o nosso povo tem uma capacidade de mobilização e entreajuda que ultrapassa níveis de riqueza e status sociais e, na minha opinião, funcionamos ainda melhor quando não existe um valor monetário na ação que efetuamos, quando nos juntamos numa verdadeira ação de ajuda humanitária.

Acredito que isso só é possível porque existe uma compensação “superior”, impossível de quantificar monetariamente, usando o nosso adágio, quem “faz bem sem olhar a quem” é compensado sim, porque é um ser humano mais feliz e mais completo, e esse sentimento de humanidade e amor ao próximo não tem valor económico.

E como transpomos isto para as empresas? É bastante mais complexo, mas não impossível, porque só o facto de falarmos em empresas, que intrinsecamente possuem uma remuneração pelo trabalho que lá se efetua, já estamos a atribuir um valor monetário a tudo o que se segue.

Ainda assim em algumas empresas, onde tive o privilégio de trabalhar, encontrei um forte valor social, ou dito de outra forma mais concreta, um “valor solidário”, pessoas que ficam até mais tarde para ajudarem outras que precisam, ou que estendem a sua esfera de atuação para suprir a falta de alguém que fica ausente por um qualquer motivo inesperado, e na grande maioria das vezes de forma natural e sem pedir nada em troca. É por isso necessário que as lideranças estejam atentas e que evitem que isso se torne normal e seja usado abusivamente, e, sobretudo, que compensem, sempre, mesmo que não monetariamente, essas ações, o elogio é gratuito, e nós usamos pouco.

Uma coisa que aprendi, e que vi resultar, é que no caminho de sucesso de empresas com pessoas mais solidárias, e consequentemente mais felizes, está sempre presente uma compensação digna e equitativa pelo trabalho efetuado, embora sendo uma equação difícil, complexa e, para alguns até, paradoxal, até porque essas mesmas empresas também são aquelas com processos mais eficazes de recrutamento e despedimento, mais atentas a desperdícios de recursos e com recursos mais qualificados.

Mas é dessa forma que as empresas conseguem gerar mais valor nos mercados onde atuam, gerando mais valor para todo o ecossistema, sendo mais eficientes e canalizando o resultado dessa eficiência para a inovação da sua oferta e remuneração das suas pessoas, criando um efeito de bola de neve, onde atraem recursos mais qualificados e clientes mais exigentes, que inevitavelmente elevará a empresa, e as suas pessoas, para níveis superiores na cadeia de VALOR.

Deixo-vos o livro que referi e que muito me ajudou a entender estas dinâmicas: “Previsivelmente Irracional” by Richard Dan Ariely.

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Sobre o autor

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Alberto Jorge Ferreira é um gestor executivo de renome internacional, que já liderou a transformação e renovação de empresas em 14 países e nos quatro continentes, sendo especialista na restruturação e transformação digital de organizações com as mais diferentes culturas... Ler Mais