Não são precisos muitos estudos académicos. Ou mais relatórios do Fórum Económico Mundial ou de grandes consultoras internacionais. O óbvio está perante nós: os conhecimentos e competências adquiridas de base, nos sistemas educativos tradicionais, não são suficientes para os desafios dos mercados de trabalho do presente e do futuro.

De facto, a imprevisibilidade e volatilidade correspondentes à velocidade de mudanças tecnológicas, sociais e culturais (que não controlamos) trazem um impacto enorme: as tecnologias de informação cruzadas com outras áreas de conhecimento estão a transformar a vida como a conhecemos. Como aprendemos, trabalhamos, convivemos ou viajamos. Ou, no mundo das empresas, como desenhamos novos modelos de negócio, mudando processos de trabalho, de conceção de produtos ou serviços e de interação com clientes, parceiros ou fornecedores. Num prazo de 3 a 5 anos, a mudança, acelerada pela pandemia, será exponencial e disruptiva.

A necessidade de aumentar (upskiling) ou reconverter (reskilling) o atual leque de competências de um profissional não aparece hoje, vindo do nada. A era da internet, que já vivemos há mais de duas décadas, tem trazido e concretizado este imperativo de modo gradual. Foi assim que, em Portugal, reconvertemos setores inteiros (ex. banca, seguros, clusters industriais), com a introdução de competências digitais, na ótica do utilizador, a gerações que tinham aprendido apenas a trabalhar numa lógica física/ analógica.

Mas direi que, neste novo tempo, a fasquia terá o dobro da altura. Já não se trata apenas de ensinar algumas hard-skills e levá-las a bons níveis de proficiência, com o hábito, de modo “mecânico”. O desafio é dotar profissionais de capacidades (pessoais e sociais) que lhe permitam uma saudável inserção na sociedade e aprendizagens e competências para enfrentarem os desafios da empregabilidade deste século XXI. Em suma, trata-se de mudar o talento estrutural do país em áreas como o digital, as novas soft-skills e os modelos flexíveis e colaborativos de trabalho.

Se o imperativo merecerá a concordância de todos, o “como fazer” ainda carece de estruturação, visibilidade pública, consenso nacional e… ação! Em Portugal, a mudança dos sistemas educativos e de formação profissional (em conteúdos e metodologias) é essencial. Mais que debitar conteúdos técnicos que rapidamente se tornam obsoletos, há que promover competências como o pensamento crítico, a resolução de problemas, a comunicação, a inteligência social, a colaboração e a aprendizagem em rede, a criatividade e a inovação. Metodologias experienciais, que estimulem interpretação, indução e dedução, que promovam a autonomia e percursos personalizados de aprendizagem serão essenciais.

Os “atores” principais deste tema também terão papéis e missões diferenciadas. Que ninguém espere que um plano desenhado e centralizado pelo Estado seja a solução. É essencial, em primeiro lugar, a auto-consciência de cada “cidadão”, simultaneamente “estudante” e “profissional”, sobre os seus níveis de conhecimento e necessidades específicas (tal noção pode ser trabalhada desde cedo, na educação de base).
O Estado deve regular e garantir recursos (e incentivos) para este paradigma de aprendizagem para toda a vida (iniciativas como o Portugal INCoDe.2030, na área digital, podem ser um começo, mas não bastam).
Depois, universidades, escolas profissionais, empresas, associações empresariais, fundações e outros deverão trabalhar de modo colaborativo e desenhar soluções que sirvam os patamares de aprendizagem, em constante evolução.

Na era do conhecimento à distância de um clique, com soluções de micro-learning gratuitas, em plataformas digitais de universidades ou vídeos educativos no YouTube, não se pode gerir os processos de desenvolvimento de competências como há 10 ou 20 anos. No final, serão a curiosidade, a capacidade de “aprender a aprender” e os “incentivos sociais” proporcionados para uma atualização constante a marcar a diferença. Sim, precisamos de upskilling e reskilling, com escala, para acelerar Portugal!

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Carlos Sezões foi durante 10 anos Partner em Portugal da Stanton Chase, uma das 10 maiores multinacionais de Executive Search – também dedicada às áreas de Talent Management e Executive Coaching. Começou a sua carreira no Banco BPI em 1999.... Ler Mais