Opinião

Uma desigualdade “sistemática”: o sistema que perdura e insiste na diferença

Teresa Damásio, administradora do Grupo Ensinus

Entramos num novo ano com a mesma ilusão confortável: a de que o tempo, por si só, resolve injustiças. As desigualdades de género continuam entranhadas nos Sistemas, nas Instituições e nas escolhas Políticas, em Portugal e no mundo.

Escrevo sobre isto há anos. E, mesmo assim, cada novo Relatório consegue surpreender-me. Não pela novidade, mas pela persistência dos dados. Pela resistência quase obstinada de um modelo que continua a tratar-nos como “cidadãs de segunda classe”, como referi no meu último artigo de 2025.

O mais recente Gender Equality Index, divulgado no final de 2025, volta a deixar sinais de alerta que não podemos ignorar. Carlien Scheele, Diretora do European Institute for Gender Equality, diz aquilo que muitas de nós sabemos por experiência própria: há mais mulheres no mercado de trabalho, mas continuam longe dos salários mais altos, dos centros de decisão e do poder real. A igualdade salarial permanece uma promessa adiada. E, talvez mais grave, persistem sistemas que bloqueiam o crescimento das mulheres, que lhes retiram espaço, tempo e energia para se desenvolverem de forma igualitária com os seus pares, homens.

Enquanto líder empresarial na área da Educação, não consigo aceitar esta lentidão como inevitável. O potencial das mulheres existe. O talento está demonstrado e comprovado. Os dados revelam que temos mulheres mais educadas e formadas, a base para uma Sociedade mais desenvolvida. O que falta é transformar o potencial em poder, com medidas claras, com Políticas exigentes, com uma gestão que faça da igualdade um critério estrutural e realístico.

O Relatório revela ainda um domínio particularmente sensível para Portugal, o da saúde. Um dos piores desempenhos do País, quando comparado com os resultados da União Europeia, no que concerne à autoperceção deste domínio e nos anos de vida saudável após os 65 anos de idade. Apenas metade das mulheres portuguesas classificam a sua saúde como “boa” ou “muito boa”. Entre os homens, essa classificação é bastante superior. Isto deve fazer-nos refletir sobre como as mulheres vivem antes de envelhecerem. Revela-nos um desgaste acumulado, como resultado da sobrecarga física e emocional, sobre um modelo social que exige das mulheres um todo: o trabalho, o cuidado, a presença, mas que nos dá pouco bem-estar e qualidade de vida.

Mesmo vivendo, em média, de forma mais saudável do que os homens, são as mulheres que envelhecem com mais limitações físicas, pior saúde mental e menor qualidade de vida. Não por acaso. Como resultado direto dos papéis que lhes são impostos nas Sociedades, um problema endócrino um pouco por toda a Europa.

Quando olhamos para os cuidados informais de longa duração, os números tornam-se robustos e concretos. Um terço das mulheres portuguesas entre os 45 e os 64 anos de idade dedica mais de 20 horas semanais a cuidar de outras pessoas. É trabalho invisível. Não é remunerado. Pouco conhecido e reconhecido, além de profundamente penalizador para as suas carreiras, rendimentos e saúde. Volta a outro artigo meu: “Quo vadis?”, talvez seja interessante questionar-nos uma vez mais, ou as vezes que forem necessárias.

No domínio dos rendimentos brutos e líquidos, as desigualdades também se mantêm. As mulheres continuam a ganhar menos. Continuam a ser a maioria entre os salários baixos. Em contexto de casal, o rendimento feminino representa, em média, apenas 80% do rendimento do parceiro. Estes números não são abstrações estatísticas. São escolhas adiadas, autonomia limitada, dependência económica disfarçada de normalidade. Regresso a abril, escrevia eu: “Mulheres e o mercado de trabalho: entre o progresso e a persistência da desigualdade”.

Na Educação, o domínio no qual trabalho diariamente, o retrato é ambivalente. As mulheres estudam mais. Ultrapassaram os homens em escolaridade há já mais de uma década. As jovens adultas são o grupo que mais progrediu nos últimos anos. No entanto, ainda assim, a segregação persiste. Continuamos a empurrar as mulheres para áreas tradicionalmente femininas, enquanto as STEM permanecem marcadamente masculinas, com a participação feminina a diminuir em vários Países Europeus. Isto não é um acaso vocacional. É o reflexo das expectativas sociais, de modelos de referência escassos, de Sistemas Educativos que ainda reproduzem estereótipos de neutralidade perante os dados.

Também o tempo continua a ser um território desigual. As mulheres dedicam mais horas às tarefas domésticas, aos cuidados, à gestão da vida quotidiana, um retrato que se multiplica um pouco por toda a Europa. Em Portugal, a disparidade é menor do que noutros Países, mas continua a ser algo a ultrapassar e que não podemos continuar a adiar.

Sim, houve progressos nos cargos de decisão desde 2020, sim estamos melhores do que há 20 anos. Mas, ainda não chega! Também aqui, neste parâmetro, o avanço é frágil. A representação feminina caiu em alguns espaços Políticos. Cresceu ligeiramente noutros. Nada que nos permita falar de mudança estrutural. Os dados ainda são parcos e pouco representativos.

As desigualdades persistem porque os estereótipos também permanecem. As Sociedades, que se dizem informadas, ainda aceitam que os homens ganhem mais. Que cuidem menos. Que o trabalho do sexo masculino seja visto como mais exigente e o das mulheres como uma extensão natural da sua “competência doméstica”.

As quotas e a legislação Europeia ajudaram. É inegável. Portugal tem subido no Índice Europeu. Mas não confundamos crescimento com o ponto culminante. Ainda estamos longe. Estamos no caminho.

É importante, ainda, entender que a Igualdade de Género não é um problema exclusivo de Portugal. É um desafio mundial.

É preciso acelerar. É preciso decidir. É preciso coragem Política. É preciso que mais mulheres e homens se recusem a tratar estas desigualdades como naturais ou inevitáveis. Enquanto CEO, enquanto feminista assumida, enquanto cidadã, não aceito que o futuro das mulheres continue a ser negociado em passos tão curtos. Temos de correr.

Para terminar, volto a outro artigo meu, penso que possa concluir esta minha reflexão de forma subliminar: “navigare necesse, vivere non est necesse”.

Bibliografia:

Negrão, L. (2025, dezembro, 02). Portugal lidera desigualdade na saúde na UE. mulheres vivem muito menos anos saudáveis do que os homens. Diário de Notícias.

European Institute for Gender Equality. (2025). Gender Equality Index 2025: Sharper data for a changing world.

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Teresa Damásio

Teresa Damásio

Teresa Damásio é Administradora do Grupo Ensinus desde julho de 2016, que faz parte do Grupo Lusófona, o maior grupo de ensino de língua portuguesa no mundo. É também Administradora do Real Colégio de Portugal e do Grupo ISLA. Presidente do Conselho de Administração da Universidade Lusófona da Guiné-Bissau e Membro do Conselho de Administração do ISUPE Ekuikui II, em Angola. Presentemente, integra a Direcção da AEEP. Foi fundadora da Internacionalização do Grupo Lusófona, passou pela Assembleia da República como... Ler Mais..

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