Dia 8 foi o Dia da Mulher. O Dia da Mulher é um dia que me deixa contente porque é um dia em que se festejam muitas conquistas difíceis: o direito ao voto, o direito ao trabalho e o direito à propriedade (o site “School of Feminism” tem uma série de posters com uma lista de grandes e pequenas conquistas).

Mas o Dia da Mulher também é um dia que me deixa triste. É um dia que me deixa triste porque ainda estamos muito longe da igualdade. Os dados mostram uma imagem muito desanimadora. Na Europa, a diferença média de salários entre homens e mulheres é de 16,2%, mas se compararmos a diferença entre rendimentos médios das mulheres e dos homens (que tem em conta as mulheres que não têm emprego), a diferença sobre para  um número completamente escandaloso e inaceitável: 39,6%.

Olhando para casos particulares. Ainda é mais difícil ser optimista. Um relatório do Banco Mundial mostra que a França é um dos seis países em que há maior igualdade entre homens e mulheres. No entanto há dados que mostram que as mulheres são sistematicamente assediadas no ensino e no trabalho. Em 2015, 1 em cada 72 mulheres foi vítima de violência sexual no ensino superior, e 1 em cada 55 mulheres foi vítima de violência sexual no trabalho.

Pior, a eleição de líderes políticos abertamente misóginos, as reações negativas a iniciativas e apelos à luta pelos mais básicos direitos humanos (como no recente anúncio da Gilette) e a avalanche de denúncias no Twitter com a hashtag #metoo, mostram que parte do atraso nos direitos das mulheres é por falta de vontade. E depois há as coisas mais pequenas, mas que fazem mal na mesma, tal como o workshop sobre maquilhagem que a Associação Sindical de Juízes decidiu organizar no Dia Mundial da Mulher.

O Dia da Mulher também é um dia que me deixa triste porque é festejado com artefactos culturais que historicamente simbolizam o papel doméstico da mulher, como os raminhos de flores e em que o Facebook aparece cheio de mensagens a valorizar a mulher como esposa e mãe e não como uma participante ativa na vida política e na vida económica.

Se queremos mesmo festejar os sucessos das mulheres que conseguiram a pouca igualdade que temos hoje, então temos que participar ativamente nesta luta. A minha sugestão é usar o dia 8 de março para fazer resoluções como as que se fazem no ano novo. Mas estas são mesmo para cumprir. Tenho três sugestões.

A primeira sugestão é aderir aos princípios de um movimento que na França se chama ‘Nunca sem elas’ (‘Jamais sans elles’). Esta iniciativa consiste em nunca aceitar convites para seminários, conferências ou reuniões em que não participem mulheres. Eu quando recuso convites para participar em conferências ou reuniões porque não há nenhuma mulher no painel, recomendo sempre três ou quatro mulheres que poderiam dar um contributo tão bom ou melhor que o meu.

A segunda sugestão é agir para que as mulheres que participam nas reuniões em que você esteja presente sejam de facto ouvidas. A investigação mostra que as mulheres tem muitas dificuldades em participar nas reuniões em que estão presentes. São interrompidas pelos homens e as suas ideias são frequentemente apropriadas pelos homens. Já para não falar das vezes em que lhes pedem para ir buscar cafés para toda a gente, mesmo que sejam a ‘Chief Financial Officer’ das empresas.

A terceira sugestão é a tolerância zero contra comentários e comportamentos sexistas. Comentários à aparência física das mulheres no trabalho, anedotas sexistas, e pior, o assédio sexual, são demasiado comuns no local de trabalho. Isto é inaceitável porque diminui as mulheres enquanto pessoas.

Estas três resoluções tratam dos sintomas, não tratam do problema. Mas são um primeiro passo para que as mulheres possam beneficiar dos mais básicos direitos humanos. Enquanto não dermos pelo menos este primeiro passo, oferecer flores não é só hipocrisia. É insulto.

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João Vieira da Cunha é escritor. Utiliza uma variedade de meios para partilhar as suas ideias, desde as mais prestigiadas revistas científicas na área da gestão até uma conta rebelde no Twitter. É doutorado em Gestão, pela Sloan School of... Ler Mais