Tenho consciência que ao lerem o título muitos de vocês terão ponderado não ler mais um artigo sobre os prós e contras do trabalho remoto, eu próprio equacionei bastante escrever sobre o tema, mas vou tentar uma abordagem diferente, opinativa e sobretudo pessoal.

Importa enquadrar o tema porque é impreterível considerar que existem indústrias, mercados e funções que requerem presença física efetiva, e sobre essas pouco ou nada há a fazer. Importa refletir sobre as outras, aquelas em que o trabalho remoto é possível e em muitas situações desejável, porque traz qualidade de vida aos seus executantes e eficiência empresarial.

E é muito importante, também, ter a consciência que mesmo nas pessoas em que a função o permite, nem todas possuem condições para efetuar o seu trabalho remotamente, seja por motivos de espaço físico, de conforto ou de tecnologia, e, por isso mesmo, as empresas deverão enquadrar nos seus planos de transformação para trabalho remoto a discussão sobre a questão de “privilégio”.

Mas também as pessoas precisam de ponderar os benefícios de trabalharem remotamente, seja pela otimização de tempo, por questões financeiras ou outras. Ao longo deste último ano e meio, sensivelmente, muitas foram as pessoas que partilharam comigo muitas das coisas boas de poder trabalhar remotamente, quando outras optaram por se queixar apenas do que estava mal – é normal, somos humanos, cada um vê o copo meio de água como preferir, meio cheio ou meio vazio.

Efetuo trabalho remoto, fruto da função profissional que desempenho há mais de 20 anos, e reconheço que a pandemia fez mais por este tema no último ano em Portugal, que as centenas de livros, palestras e gurus mundiais fizeram nos restantes 20.

Não que tenha trazido nada de muito novo à forma como se faz trabalho remoto, tirando o aparecimento, ou aperfeiçoamento, de várias ferramentas que o suportam, mas ao trazer o tema para discussão, que é já prática comum em muitos países e indústrias por esse mundo fora, faz com que as empresas o analisem, entendam e apliquem, ou não, numa tomada de decisão consciente e informada.

Não vamos, ainda assim, confundir trabalho remoto com confinamento. Costumo partilhar que nestes anos todos de trabalho remoto provavelmente uns dos “escritórios” de onde mais trabalhei foram as lojas de uma marca de café muito conhecida e muitos “lobbies” de hotel, ou seja, trabalho remoto não tem que estar relacionado com trabalhar de casa ou das 9 às 5. Na verdade trabalho remoto acontece sempre que duas ou mais pessoas, ou até máquinas, interagem sem estarem presentes no mesmo espaço físico.

Abordando o tema do ponto de vista prático, é fácil de entender que muitas empresas, mesmo deixando as que referi inicialmente de fora da equação, não possuem outra forma de trabalhar que não seja remota quando nas suas operações possuem equipas distribuídas por outros países, ou regiões, a existência de equipas locais obriga, ainda assim, que as várias equipas trabalhem remotamente umas com as outras, a globalização e a criação dos conceitos de “offshore” e “nearshore” de serviços deram um contributo muito importante para a eficiência de negócios de clientes, e a escassez de recursos locais, nomeadamente em áreas de especialização tecnológicas também obrigaram as empresas a procurar os melhores recursos independentemente de onde se encontram fisicamente.

Neste capítulo, e da minha experiência, os únicos pontos complexos de gerir quando trabalhamos com equipas deslocalizadas, e intrinsecamente remotas, são os fusos horários, as barreiras linguísticas e a adequação cultural. Todos os outros são normalmente desculpas para uma má e ineficiente gestão de recursos, sejam eles projetos ou pessoas.

Ou seja, o grande entrave, para mim, a uma maior generalização do trabalho remoto é a gestão ineficiente e não planeada de recursos, e aqui sim, ainda temos um caminho longo a percorrer. A cultura do chefe com a sua equipa na mesma sala, em que emite pedidos avulso de trabalho a efetuar não é compatível com eficiência nem competitividade. Por outro lado, as novas gerações, e ainda bem, necessitam de espaço criativo para pensar e executar, não se contratam mais “braços” e sim “cabeças”, cabendo às lideranças a função de guiar essa “massa criativa”, aprendendo com eles novas maneiras de pensar e de fazer, focando no “QUE” se pretende e não no “COMO” se pretende.

Imaginemos então uma empresa onde as pessoas conhecem a Visão, Missão e os objetivos da empresa, e sabem o que é preciso entregar, quando e, sobretudo, porquê. Onde lhes é dado espaço para fazerem perguntas e questionarem o status-quo, onde existe uma cultura de responsabilização individual e de grupo. Não podem essas pessoas desenvolver o seu trabalho remotamente porquê? Felizmente existem já várias empresas em Portugal onde o que vos pedi para imaginarem existe, é pratica corrente e têm muito sucesso, sim, não é ficção.

Mas muitas outras ficaram paradas no tempo, não interessam agora as razões concretas, mas nessas, muitas destas reflexões só serão possíveis com uma transformação profunda dos modelos de gestão, não precisamos de mais “chefes”, precisamos de líderes, mais capazes, mais éticos, mais inteligentes e sobretudo mais humanos.

Acredito que a pandemia ao “obrigar” as empresas a repensar muitas das suas formas de trabalhar, de chegar aos seus clientes, aos seus parceiros e às suas pessoas, obrigará a uma reflexão sobre os perfis da liderança que possuem e a reinventarem-se se quiserem sobreviver, que seja rápido, já que indolor não será certamente.

Mas é também preciso que nós, as pessoas que fazem as empresas, sejamos operadores dessa mudança. Que não tenhamos medo de tentar novas formas de trabalhar e de interagir com os demais, que possamos contribuir de forma mais ativa, e sobretudo que possamos falar abertamente sobre os temas sabendo de antemão que nem sempre vão concordar connosco ou aceitar a nossa opinião.

Hoje deixo-vos um livro não relacionado com trabalho remoto, mas que contém uma reflexão muito interessante sobre o porquê de trabalharmos, infelizmente desconheço se existe uma versão em português, “The Why of Work” by Dave and Wendy Ulrich.

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Sobre o autor

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Alberto Jorge Ferreira é um gestor executivo de renome internacional, que já liderou a transformação e renovação de empresas em 14 países e nos quatro continentes, sendo especialista na restruturação e transformação digital de organizações com as mais diferentes culturas... Ler Mais