Opinião
“Trabalhar para viver ou viver para trabalhar: como alcançar o equilíbrio à luz do mercado de trabalho atual?”
É amplamente aceite que o mercado de trabalho deve acompanhar as necessidades e a realidade dos seus trabalhadores, procurando, simultaneamente, assegurar um equilíbrio saudável entre a vida profissional e a vida pessoal. Contudo, esse equilíbrio revela-se, na prática, difícil de alcançar, seja de forma contínua ou, pelo menos, na maior parte do tempo.
Por um lado, encontram-se os trabalhadores com filhos, que acabam por abdicar de momentos de qualidade em família, em troca de horas adicionais no escritório. Por outro, aqueles que, não tendo responsabilidades parentais, enfrentam cargas laborais tão desproporcionais que se veem obrigados a sacrificar o tão desejado equilíbrio para cumprir prazos, valores e expectativas.
Esta falta de equilíbrio não decorre somente da maior ou menor intensidade da carga de trabalho, mas também daquilo que está subjacente à necessidade de trabalhar: a subsistência económica do trabalhador e do seu agregado familiar.
Apesar do aumento do salário mínimo nacional para 920 euros, em vigor desde o dia 1 de janeiro de 2026, seria ilusório acreditar que tal acréscimo permitirá satisfazer plenamente as necessidades básicas dos trabalhadores, muito menos alcançar um equilíbrio saudável entre vida profissional e pessoal sem recorrer, por exemplo, a múltiplas fontes de rendimento. Ainda que este seja um passo na direção certa é inegável que o salário mínimo atual e futuro não garante, na sua totalidade, condições para que a maioria dos trabalhadores usufruam do equilíbrio que tanto se apregoa.
A verdade é que dificilmente se concebe uma solução ideal, pois, para além dos casos dos trabalhadores que se veem obrigados a sacrificar a sua vida e tempo pessoal para garantir a própria subsistência, existem também aqueles que, apesar de não enfrentarem essa exigência económica, acabam por abdicar da sua esfera pessoal por estarem profundamente submersos na vida profissional. Em ambos os casos, a consequência é semelhante: a ausência de espaço para a vida pessoal, comprimida pelas exigências, pelo ritmo e pela intensidade do trabalho.
Garantias laborais como o limite máximo do período normal de trabalho, os intervalos de descanso, o descanso diário e semanal, bem como o direito a férias, existem precisamente para assegurar uma separação saudável entre a vida profissional e a vida pessoal, proporcionando ao trabalhador o necessário período de recuperação após a prestação de trabalho. Contudo, é inegável que estas garantias nem sempre se verificam plenamente. Tal pode ocorrer porque, em determinados períodos, a empresa enfrenta um volume de trabalho excecional que exige ao trabalhador ultrapassar as oito horas diárias, ou porque, ao aproveitar o seu intervalo de descanso, este se vê perante a possibilidade de não concluir uma tarefa dentro do prazo definido e por isso terá de compensar o tempo em que não estava efetivamente a trabalhar.
Neste contexto, o equilíbrio entre a vida profissional e a vida pessoal acaba, inevitavelmente, relegado para segundo, ou mesmo último, plano.
Os números relativos ao burnout têm aumentado de forma expressiva, impulsionados por fatores como excesso de trabalho, prazos apertados, sobrecarga de horas, bem como por expetativas desproporcionais e, muitas vezes, irrealistas impostas aos trabalhadores. Acreditamos que, por detrás deste fenómeno, está não apenas a pressão exercida pelas entidades empregadoras, mas também a que os próprios trabalhadores exercem sobre si, muitas vezes para alcançarem resultados e objetivos profissionais desejados.
Sobretudo nas fases iniciais da carreira, observa-se uma forte tendência para relegar a vida pessoal para segundo plano, ainda que temporariamente, com o objetivo de garantir que a vida profissional não estagna e progride a um ritmo mais acelerado. Tal comportamento decorre muitas vezes da perceção de que, pela idade ou pela ausência de responsabilidades familiares mais estruturadas, esse sacrifício é aceitável ou até esperado. No entanto, ainda que na maioria dos casos não exista uma família já constituída no sentido tradicional, designadamente filhos, não deixamos, por isso, de ter um agregado familiar, relações pessoais a preservar ou, simplesmente, a necessidade de usufruir de tempo de qualidade fora do contexto laboral.
Assim, a satisfação decorrente da conclusão de uma tarefa, ainda que implique trabalhar até de madrugada ou para além do horário contratualmente (ou socialmente) previsto, deve ser equilibrada com a satisfação de dedicar momentos a amigos, familiares ou, inclusive, a si próprio. Qualquer atividade que permita um afastamento saudável do ambiente de trabalho é essencial para garantir bem-estar e preservar a saúde mental, possibilitando ao trabalhador “respirar” e recuperar.
Ainda que tal equilíbrio não seja possível para todos, seja por necessidade de acumulação de múltiplos empregos para assegurar a subsistência económica, seja porque a própria natureza das funções desempenhadas exige horários mais extensos, deixamos um apelo àqueles que efetivamente o podem fazer: procurar, progressivamente, uma maior harmonização entre a vida pessoal e a vida profissional.
Somos, sem dúvida, essenciais nos nossos locais de trabalho, seja para garantir a nossa subsistência económica, seja para prosseguir objetivos pessoais e profissionais, tanto a curto como a longo prazo. Contudo, somos igualmente essenciais na dinâmica dos nossos círculos pessoais, na roda de amigos, à mesa com a família, ou simplesmente no espaço reservado ao nosso próprio bem-estar. E, se o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional não nos é incutido ou facilitado pela entidade empregadora, cabe-nos a nós estabelecer limites, dentro do possível e aceitável, que impeçam a entrada num ciclo vicioso de metas e ambições exclusivamente profissionais, sem qualquer espaço para o descanso.








