O baseball é um jogo norte-americano peculiar, maioritariamente desconhecido noutras partes do mundo, incluindo Portugal. Tendo as suas origens no início dos anos 1800 através de um pau feito em casa ou um “bat” e uma bola feita de panos, este jogo é conhecido como o “Jogo da América” há quase 200 anos.

A linguagem do baseball é amplamente usada no mundo dos negócios norte-americanos e causa, por vezes, confusão aos que não estão familiarizados com as suas palavras e frases. Entre estas estão incluídas as frases “acertar um home run” (que significa ter muito sucesso), uma “ballpark figure” (uma estimativa), e “playing hardball” (métodos extremos usados para maximizar as oportunidades de sucesso). Os negócios norte-americanos são frequentemente abordados através de uma visão desportiva, diferente da linguagem tipicamente usada por comerciantes nobres ou agentes governamentais.

Este tema dá vida à questão, especialmente dada a reviravolta económica de Portugal nos últimos anos: será que Portugal está pronto para “entrar no jogo das ligas principais” dos Estados Unidos? Por outras palavras, pode Portugal competir nos níveis mais altos do mercado global?

Apesar de haver barreiras estruturais inerentes que inibem a capacidade de exportação internacional portuguesa (como uma moeda partilhada com os parceiros mais altos mundiais e a falta de uma indústria nacional devidamente definida), esta análise tem que ter em conta a necessidade de uma melhoria gradual nas exportações, sustida durante um longo período de tempo. Por isso, há sempre uma fórmula efetiva que pode dar início à conversa.

Marcus Lemonis, bilionário do CNBC, criador e apresentador do programa “The Profit,” usa, com frequência, uma simples fórmula com três passos – que pode ser usada independentemente do tamanho do negócio, da sua condição ou do seu setor – para diagnosticar um negócio no qual ele considera investir e levar à liderança.

O primeiro passo consiste em analisar as pessoas ou como Jim Collins escreveu em Good to Great “Eles começam por colocar as pessoas certas no autocarro, retirar as pessoas erradas do autocarro, e colocar as pessoas certas nos lugares certos.” Lemonis continua com uma análise mais profunda ao examinar a cultura e a natureza do ambiente de trabalho. Será que o ambiente transmite um sentido de propósito comum, o qual é necessário para alta performance, ou será que o ambiente é tóxico e negativo?

O segundo passo da análise de Lemonis é a consideração dos produtos da empresa. Ele examina, com cuidado, o que está a ser vendido e as métricas chaves, incluíndo os preços, as embalagens, os tamanhos e a segmentação. Estas informações providenciam a Lemonis discernimento.

Além disso, a sua experiência e abordagem muitas vezes levam à descoberta de que a empresa não tem feito o seu devido trabalho numa destas métricas, e que, na maioria das vezes, o fundador da empresa não teve a capacidade ou a vontade de implementar as mudanças necessárias no que diz respeito às estratégias de produto até ser demasiado tarde. Os fundadores de empresa, muitas vezes, não percebem o verdadeiro valor do seu produto no mercado.

No terceiro e último passo, Lemonis aborda a questão dos processos da empresa e leva em conta a eficiência das diferentes áreas e operações internas. Não só analisa o desenvolvimento e a aplicação da produção e as métricas operacionais, mas também a administração de dinheiro, a orçamentação e a disciplina fiscal. Lemonis considera, devido aos seus muitos anos de experiência, que esta é uma análise chave para solidificar a eficiência, a performance e as oportunidades das empresas.

Pessoas, Produtos, Processos
Como norte-americano e como alguém que nos últimos quinze anos tem viajado com frequência a Portugal, e tem visto, orientado e ensinado em várias áreas de negócio, de vários tamanhos, digo com toda a confiança que I would “go to bat” em favor dos portugueses e dos seus produtos (expressão do baseball relacionada com defesa ou lealdade) porque acredito que eles “hit it out of the park” (são pessoas e produtos excelentes).

O capital humano português, a sua flexibilidade e a sua capacidade linguística são de primeira linha. Adicionalmente, o país transborda de alta qualidade no que diz respeito aos seus produtos. Vez após vez, os portugueses provam que são confiáveis e ultrapassam em termos de qualidade muitas outras nações. Refiro-me não só aos produtos nacionais como o vinho, a cortiça e a cerâmica, mas também ao aeroespaço, gestão de dados, produtos de automóveis e até a arte e a música portuguesa.

Em relação aos processos portugueses, bem… os processos portugueses “throw me a curve ball” (surpreendem-me pela negativa) e tem tendência em fazer “strike out” (perder ou fazer perder). Os processos portugueses, vistos de fora, são frequentemente estranhos, indistinguíveis e difíceis de entender. São, por vezes, antiquados no que diz respeito ao mercado global e consequentemente inibem a criação e a sustentabilização de parcerias transatlânticas. Eu acredito que esta dificuldade tende em sabotar as potencialidades do negócio português no mercado global.

Deixo aqui alguns exemplos. Ao interagir com os portugueses em inúmeros instantes relacionados com o mercado imobiliário, o mercado bancário e outros negócios, noto que muitas coisas que noutros países seriam facilmente feitas, em Portugal são excessivamente difíceis de cumprir. Os advogados e auditores portugueses envolvem-se demasiado em questões rotineiras. Os exemplos incluem a assinatura de documentos, as provas de identificação e bens, o uso de assinaturas eletrónicas, objeções a variações mínimas no uso dos nomes pessoais, requerimentos das seguradoras e a capacidade de movimento livre de capital. Portugal precisa de resolver estes problemas e compreender que ao fazê-lo não está a trair nenhum legado nacional.

Da mesma forma, a falta de acesso a dados necessários para analisar potenciais negócios, os quais estão devidamente disponíveis e de forma gratuita em vários outros países, está em falta em Portugal. No “ballpark” (âmbito) do mercado global, a competição rapidamente estraga a empresa portuguesa que tenha processos inadequados. Os vestígios da lei civil francesa do “velho Portugal” vão ao encontro das necessidades do negócio moderno. O desafio está em saber se as estruturas políticas, empresariais e legais estão dispostas em desfazer-se de costumes comerciais antiquados para o benefício e o futuro da nação.

Em suma, eu acredito que estamos no “seventh inning” (perto do fim) da expansão económica global e se Portugal estiver disposto a “play hardball” (usar métodos extremos para maximizar as oportunidades de sucesso), existe uma real oportunidade para “hit one out of the park” (atingir a excelência e ganhar muitos pontos no jogo). Por outras palavras, mesmo que a expansão económica global esteja em sua última etapa, ainda existe tempo para Portugal tornar-se assertivo e implementar as mudanças necessárias que levarão a um sucesso sustentável no mundo empresarial global. Portugal, “vamos entrar no jogo!”

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Randy M. Ataíde é CEO da StealthGearUSA, LLC, uma empresa em crescimento acelerado, com sede em Utah. Antes de assumir a sua liderança, foi CFO e Conselheiro Sénior, durante a qual cresceu 400% ao ano desde a sua fundação em... Ler Mais