Opinião

Sem recurso a inteligência artificial

Anabela Possidónio, fundadora da Shape Your Future

Hoje, enquanto me preparava para escrever este artigo, o meu cérebro parecia não colaborar e deparei-me com o dilema da folha em branco. Ainda me ocorreu que “com a prompt certa poderia pedir ajuda ao ChatGPT e deixar que a magia acontecesse”.

Mas este artigo é exatamente o contrário disso. Surge porque me tenho debatido muitas vezes relativamente à originalidade daquilo que leio, quer sejam artigos, quer sejam posts em redes sociais, como o Linkedin, em que muitas vezes fico a pensar quem terá sido o verdadeiro autor daquele post.

Suspeito não estar sozinha e existirem outras pessoas que, tal como eu, começam a pôr em causa onde acaba a realidade e começa a ficção. Onde é que cada um de nós é intelectualmente honesto, na forma como usa a tecnologia, e como mantém a sua própria identidade e originalidade.

Quando, em 2021, comecei a trabalhar com jovens no âmbito da Shape Your Future, o ChatGPT ainda não tinha visto a luz do dia. Na realidade foi lançado a 30 de novembro de 2022. Ainda sem a aceleração dos últimos 3 anos, já em 2021 falávamos de competências interpessoais, de sentido crítico e de criatividade.

Já nessa altura frisamos a importância de se verificarem as fontes, de lerem uma notícia em mais do que um sítio e de questionarem a veracidade daquilo que lhes era apresentado. ‘A escravatura do algoritmo’ e o facto de só lhes mostrarem aquilo que queriam ver também era mencionado. Aos poucos, o mundo foi evoluindo e aquilo que nos torna humanos é ainda mais importante. Saber apresentar uma ideia, saber argumentar, ter capacidade de trabalhar em equipa, abraçar o tédio. É esse o convite que devemos fazer aos nossos jovens.

A tecnologia é ótima e, se bem usada, pode ser um excelente acelerador de produtividade. Coisas que demoravam horas passam agora a ser feitas em minutos, ou mesmo segundos. Ter competências tecnológicas é inquestionável, independentemente da idade. Para os mais jovens essa realidade é ainda mais evidente e não pode ser ignorada.

Como mãe de duas filhas de 13 e 18 anos vi duas realidades completamente distintas no que diz respeito ao uso da tecnologia e da educação. A bem da verdade, quando a mais velha tinha 13 anos, estávamos todos confinados. Até é curioso pensar que, na altura, a utilização de Zoom ou do Teams era um verdadeiro desafio para muitos dos professores. Cinco anos volvidos, a minha filha mais nova já faz pesquisas usando o ChatGPT. Já lhe pede ideias, que a ajudem nos trabalhos de casa ou na preparação para os testes. Já a vi cometer erros, quando até sabia que nem tudo o que o ChatGPT elabora está correto. Faz parte do processo de aprendizagem, assim como saber criar melhores prompts para obter melhores resultados.

Quando olho para ela, e para a abordagem do ensino tradicional, percebo que pode ser aborrecido. Ela é mais autodidata, segue as notícias do mundo, consegue ter uma conversa sobre assuntos distintos e contra-argumentar de forma estruturada. Gosta de entender as antigas civilizações, mas não tem paciência para decorar datas ou dinastias. Apesar de não ser fã de Físico-Química, diverte-se nas aulas de laboratório. Gosta do desafio da matemática, mas embrulha-se com a gramática.

Em 5 anos o mundo mudou muito, mas a escola está igual. Os jovens têm outras preocupações e não conseguem encontrar respostas. Muitos estão assustados porque imaginam um mundo em que as máquinas tomam conta de tudo e nada sobra para eles. E, apesar de todos nós termos muitas incertezas, abrir as portas para o debate, e deixar que os jovens façam parte dele é fundamental.

Se não o fizermos, corremos o risco de a informação que lhes chega ser aquilo que a mim me inquieta. Será que aquilo que estou a ler é propriedade intelectual de alguém ou trata-se apenas de mais um texto gerado por inteligência artificial?

Nota: este artigo foi escrito sem recurso a inteligência artificial e não segue qualquer acordo ortográfico.

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Anabela Possidónio

Anabela Possidónio

Anabela Possidónio é fundadora e diretora-geral da Shape Your Future, que tem como missão ajudar jovens e adultos a tomarem as melhores decisões académicas e profissionais. Assume também o cargo de diretora-geral da Operação Nariz Vermelho. Tem uma vasta carreira corporativa de mais de 25 anos, onde assumiu posições de liderança em diversos setores (Saúde - CUF; Educação - The Lisbon MBA; Retalho - Jerónimo Martins e Energia - BP), em diferentes países (Inglaterra, México, Espanha e Portugal) e empresas... Ler Mais..

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