Se as estrelas só viessem uma vez em cada 1000 anos, imaginem a alegria que sentiríamos por sermos tocados pela sua beleza. Mas como chegam todas as noites, olhamos para elas com desdém.

Também nas empresas, sinto que há cada vez mais pessoas que não valorizam o que recebem todos os dias. Nos últimos anos, nunca se investiu tanto no EVP (quer na perspetiva da empresa como da pessoa), nos benefícios (quer numa lógica mais tradicional do “tamanho único” quer nos chamados benefícios flexíveis), na comunicação interna, no propósito e cultura, na atração e retenção do talento… E, apesar disso, os estudos de clima organizacional continuam a mostrar níveis de descontentamento ou, pelo menos, de elevada frustração face às expectativas.

Vale, pois, a pena questionarmo-nos se o problema está do lado da “oferta” ou da “procura”; isto é, se as empresas continuam a não investir o suficiente nas pessoas ou se somos nós que estamos cada vez mais exigentes.

Como referi, parece-me indesmentível que vivemos uma época em que nunca se investiu tanto nas pessoas. Há certamente setores, nomeadamente na indústria, em que podemos fazer mais, mas nos serviços (principal setor da Economia portuguesa) é impressionante o que as empresas estão a investir para garantir elevados níveis de satisfação das suas pessoas. Tenho consciência que, muitas vezes, não o fazem de forma altruísta mas sim como mecanismo para fazer face à atual conjuntura de forte escassez de mão-de-obra qualificada e pressão inflacionista em termos salariais. Temo que possamos estar a cair numa “armadilha” em que as empresas darão cada vez mais e as pessoas pedirão cada vez mais.

Julgo que está na altura de pararmos para pensar onde queremos ir e como conseguiremos prosperar no futuro. Julgo que chegou a altura de colocarmos em perspetiva o que as nossas empresas nos oferecem face à realidade que se vive no resto do Mundo. Julgo que chegou a altura de valorizarmos mais tudo aquilo que temos e olharmos menos para o “quintal do vizinho”. Julgo que chegou a altura de reaprendermos a sermos mais simples para conseguirmos viver bem com aquilo que temos hoje.

Se o conseguirmos fazer, vamos voltar a encantarmo-nos e a contemplar as estrelas que surgem no céu em cada entardecer e, desta forma, seremos provavelmente mais felizes e viveremos mais tranquilos.

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Diogo Alarcão é Chairman da Marsh & McLennan Companies Portugal e CEO da Mercer Portugal. Como Chairman tem a responsabilidade de liderar um Comité de Gestão do Grupo MMC em Portugal; promover as soluções do Grupo MMC em Portugal; promover... Ler Mais