Dos Açores para o mundo. Este podia ser o lema da Redcapig, uma start-up açoriana que criou um videojogo que vai chegar ao mercado este ano e que quer conquistar o mundo. Até lá, a start-up está a dar continuidade aos contactos que fez no Web Summit 2019 e vai abrir uma segunda ronda de investimento. Marco Bettencourt, fundador, explica como tudo começou.

Apesar de jovem a Redcatpig tem ambições internacionais e quer ver o seu KEO, o videojogo que tem estado a desenvolver nos últimos dois anos, nos circuitos europeus – pelo menos. O projeto está a desenvolver-se a bom ritmo, conseguiu captar a atenção dos investidores, já soma alguns prémios no currículo e espera estar pronto para o mercado no final deste ano, como explicou ao Link To Leaders o seu fundador e CEO, Marco Bettencourt.

Mas em que consiste afinal este videojogo que espera conquistar o mundo? Chama-se KEO e é um jogo que envolve carros de combate. Um videojogo dos 6 aos 66 anos, “sem nada de dramático, mas muito excitante e que tem conquistado quem já o testou pela qualidade do grafismo, pelas cores, assim como pela jogabilidade”.

“Tenho um carinho muito especial pelo Web Summit porque alguns investidores da nossa primeira ronda vieram do WS em 2018″.

Apesar de já estar em preparação há algum tempo, foi na edição de 2018 do Web Summit que deu o salto para a ribalta. “Tenho um carinho muito especial pelo Web Summit porque alguns investidores da nossa primeira ronda vieram do WS em 2018. Recebemos imensos contactos de investidores que se queriam encontrar comigo (da Turquia, Israel, Emirados Árabes Unidos, Bahrain)”, afirma Marco Bettencourt.

Voltaram a participar no ano passado e o interesse foi tão grande que pensaram: “estamos bem, mas se houver entrada de mais dinheiro se calhar colocamos o Keo numa condição ainda muito superior e ficamos com mais budget para marketing, por exemplo”, refere o fundador.

A caminhada que têm feito reflete a postura da start-up. “Antes da Recatpig ser um estúdio de videojogos, somos uma start-up a produzir um produto e precisamos de ser encarados como uma empresa. A malta dos videojogos tem alguma dificuldade em correr atrás de investidores. Nós mudamos essa mentalidade e conseguimos investimento privado. E os nossos investidores, nenhum deles tinha investido em gaming na vida”.

Lembra ainda que o gaming está na moda, principalmente o que está mais virado para os e-sports “e o nosso KEO, felizmente, tem perfil de e-sports, já o estamos a preparar para seguir a vertente profissional de desportos eletrónicos”.

Mas o que mudou deste 2018? Marco Bettencourt explica que além do produto ter avançado bastante a nível de produção, a Redcapig mudou-se da Startup Angra para Parque Tecnológico TERINOV e estão a trabalhar a 100% no projeto.

As dores do arranque!
Casado com uma norte-americana, pai de dois filhos, de sete e três anos, Marco Bettencourt, 41 anos, nasceu na ilha Terceira, Açores, mas emigrou para o Brasil nos anos 80 na sequência do sismo que abalou a ilha. Regressou ao arquipélago aos 16 anos.

“Curiosamente, os investidores atuais da start-up são pessoas que nada têm a ver com a atividade”

Recorda o início do projeto: “Começamos esta brincadeira com 35 mil euros de um Busines Angel que agora é um dos nossos sócios”. Curiosamente, os investidores atuais da start-up são pessoas que nada têm a ver com a atividade. O fundador da Redcatpig revela apenas que um deles é piloto, outro é solicitador, mas também muito dinâmico e com investimentos em áreas fora da atividade de solicitadoria, e que outro tem uma empresa de fabrico numa indústria bem diferenciada, mas muito ativa em investimentos diversificados. Junta-se a este grupo, acrescenta, o advogado “que sempre me ajudou neste processoe que é uma pessoa de interesses muito diversificados desde literatura até música clássica e divulgação científica e que também se entusiasmou com o projeto”.

Com os 35 mil euros iniciais do Business Angel fizeram a primeira demo do jogo. “Estava longe de estar boa, mas foi a única coisa que conseguimos fazer com aquele dinheiro”, explica, mas “foi muito positivo porque conseguimos com isso dar um arranque forte e muito promissor”.

Mas o dinheiro acabou e a continuidade do projeto ficou comprometida. “Falei com os dois elementos da equipa, meus amigos, porque todos temos família e compreendia se quisessem seguir outro rumo. Eu assumi que ia continuar no projeto a 100% e que quando conseguisse investimento voltaríamos”.

“Passei um ano sem ganhar rendimento, só com a minha mulher que sempre acreditou no projeto. Eu digo que ela, na realidade, é a maior investidora”.

E assim foi. “Passei um ano sem ganhar rendimento, só com a minha mulher que sempre acreditou no projeto. Eu digo que ela, na realidade, é a maior investidora. Se não fosse ela nada disto tinha sido feito. Estão a ver o que é uma mulher acreditar num homem sem ver nada de palpável durante um ano? Porque ainda por cima é um jogo, não estamos a falar de um protótipo físico, é um jogo. E ela acreditou durante um ano inteiro até o jogo aparecer”, recorda Marco Bettencourt.

E nesse ano, em 2018, a tarefa de Marco foi ir a “todos os eventos possíveis e imagináveis com aquela demo”.  Mas como se não havia dinheiro e a inscrição em eventos envolve custos? “Foi aí que conheci uma pessoa, que agora é sócio, que basicamente se virou para mim e disse-me “Marco o teu projeto é brutal, vocês vendem bem isso e confio em ti e na tua equipa. De quanto precisas este ano para ir aos eventos?  Eu fiz as contas, precisava de X e assim foi. Fizemos o acordo de essa pessoa ter prioridade na negociação da equity”, conta.

A verdade é que com a referida demo, a Redcatpig foi finalista em dois concursos para melhor jogo do ano. Ganharam o prémio de melhor jogo do ano pela Playstation Talents, e de melhor jogo de competição online.  “E os investidores começaram a olhar para nós”, explica Marco Bettencourt.

Paralelamente firmou uma parceria como a organização indiana Startup League. “Em 2018 pensei, já posso ir aos eventos, já tenho patrocinador, mas eu não queria estar apenas nos eventos, queria chamar a atenção, mas não tinha dinheiro. Nas minhas pesquisas descobri a StartupLeague que é dona das extensões e domínios “online”. A proposta deles foi passarmos a usar o “online” no nosso site, em vez do “ponto com”, e davam-nos 150 euros em merchandising e apoiavam-nos até 50% dos custos para entrar nos eventos. Claro que aceitei e assim ganhei merchandising e apoio para ir a todos os eventos”. O culminar foi no Web Summit de 2018 que “nos permitiu pôr o projeto  ao “rubro”. Temos fechado parcerias brutais, entre a quais com a Asus”.

Questionado sobe se pensa associar-se a alguma empresa que o ajude a chegar às pessoas, o responsável da Redcatpig frisou que no setor dos gaming é fundamental para poder distribuir os videojogos. “Como ganhámos o prémio da Playstation aí ela entra logo como parceira, e vai trabalhar como publish para a consola. Deram-nos um budget no mínimo de 50 mil euros de marketing digital, mais um prémio monetário e também funcionam como mentores, o que é muito bom. Para o mercado dos PC temos várias propostas de publishers em cima da mesa e estamos a estudar o que vai ser melhor para o projeto. Mas estas entidades é que fazem a venda do projeto”, explica.

No final deste ano o produto estará finalizado e pronto a lançar “dependendo da campanha de marketing que for estudada, porque lançar videojogos no fim do ano pode ser a melhor jogada possível ou a pior porque é uma altura em que há muito “ruído”, ruído que é feito por empresas que lançam jogos com budgets na ordem dos 10 milhões e 20 milhões. Logo, tentam conseguem abafar os outros”, frisou o fundador da Redcatpig.

“(…) mercado português “apesar de acarinhado por nós” é uma gota e que como tal quer ver o seu produto na China, Brasil, Estados Unidos e Japão (…)”

Onde gostaria de ver o seu videojogo? Marco refere que o mercado português “apesar de acarinhado por nós” é uma gota e que como tal quer ver o seu produto na China, Brasil, Estados Unidos e Japão, que são mercados muito apelativos. “As ambições são internacionais. Vão ver a Redcatpig, mais cedo ou mais tarde, vai dominar o mundo”, deseja Marco Bettencourt.

E depois deste jogo, mais algum na forja? “Já temos outro pensado, em pipeline. É algo completamente diferente, virado para uma temática um pouco mais séria, os oceanos, mas muito forte em jogabilidade. Nada como os jogos educativos que se veem nas escolas”. Além disso, daqui a dois anos espera ter uma equipa de 15 pessoas e que o Keo seja pelo menos um blockbuster europeu.

E sair do arquipélago e instalar-se no continente? “Nunca na vida”, assegura o CEO da start-up. “A qualidade de vida é fabulosa nos Açores e isso tudo dá sanidade e até nos estimula a criatividade”.

Equipa fundadora da Redcatpig

Equipa made in Açores
Quem está por detrás de um jogo todo em 3D, 100% original e feito com recursos locais? Uma equipa made in Açores de mais dois elementos, além do CEO: um designer e um programador, cada um deles com percursos e histórias de vida peculiares como Marco Bettencourt faz questão de sublinhar. “O João Toste que ajudava o pai na lavoura sempre que possível e sempre gostou das artes, com um talento incrível para o 3D. O nosso programador, o Bryan Freitas também é um autodidata extremamente talentoso e vem de uma família de pescadores. Fez um curso técnico profissional de programação, começou a fazer uns websites, mas queria mais do que aquilo e começou a virar-se para a programação de videojogos. Encontrei-os e juntamo-nos no projeto”.

A esta equipa inicial juntou-se recentemente, em modo remoto, mais um elemento chamado Tiago Lopes, ou Tee Lopes como é mais conhecido, um português que vive em New Jersey, Estados Unidos, desde 2003, e que se tornou um expert de música para videojogos. Marco Bettencourt explica que o novo membro da equipa trabalhou em jogos como o Sonic Mania e outros que saíram na Sega. “Ele conheceu o projeto, adorou e está a trabalhar connosco remotamente. Agora somos quatro, mas vamos aumentar ainda mais”, frisou Bettencourt.

A combinação de esforços desta equipa resultou e em 2018 foram finalistas do concurso regional de empreendedorismos e foram Alfa start-up, em 2018 e 2019, na Web Summit. A Cision considerou-os 47.ª start-up mais mediática em 2018 e 22.ª em 2019.

“Dei com a cabeça na parede, mas dei a volta por cima. Aprendi muito.Não sou de desistir e vou sempre à luta!”

Um percurso de avanços e recuos
O CEO da Redcatpig está na área dos videojogos há apenas quatro anos. “Não tenho curso universitário, mas sempre trabalhei em telecomunicações e informática com muita curiosidade e muita paixão”, esclarece. Durante alguns anos teve uma empresa de marketing digital e acabou por pedir insolvência. “Dei com a cabeça na parede, mas dei a volta por cima. Aprendi muito. Não sou de desistir e vou sempre à luta! Para mim os contratempos são desafios para serem vencidos. Acredito que a criação da Redcatpig é uma aposta ganha. Mesmo no ano em que estive a trabalhar sem receber sempre acreditei e valeu a pena”.

Daria esse conselho a alguém? “Sem dúvida. Mesmo com filhos porque senão você não valoriza, não dá valor aquilo que ganhou e não vai lutar da mesma maneira. Claro que que eu tinha condições especiais (risos…): uma mulher que acreditou em mim. Mas tinha dois filhos, colégios para pagar, etc, etc … foi um ano sempre na ponta da faca, sempre a contar. Mas alcançar isto tudo, estar na situação em que estamos agora, dá-me um sorriso na cara. Algumas vezes, confesso, deu-me vontade de chorar. Mas valeu a pena. Vale a pena! Vai valer a pena!”, conclui.

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