A Fundação José Neves, instituição criada pelo fundador da Farfetch, apresentou recentemente o relatório “Estado da Nação: Educação, Emprego e Competências em Portugal”. Trata-se de um trabalho produzido por investigadores das universidades do Minho e de Aveiro, que revela dados preocupantes sobre a situação profissional dos jovens.

Segundo o relatório, 19,4% dos jovens com ensino superior não se encontram empregados ou estão a trabalhar em ocupações que não exigem este nível de ensino (15%). Mais: o salário médio real dos licenciados caiu cerca de 17% entre 2010 e 2018, ainda que estes ganhem mais 750 euros do que os trabalhadores só com o secundário.

A explicação para esta desvalorização das competências adquiridas no ensino superior radica na evolução do mercado de trabalho, que, como refere o relatório, cria empregos sobretudo nos setores com elevada incorporação de tecnologia. Portugal já está, portanto, a sentir os efeitos da transformação laboral motivada pela digitalização das atividades económicas e pela consequente hiperespecialização tecnológica do capital humano.

De resto, a pandemia veio acelerar a transição digital do tecido económico português e, em razão disso, acentuou os fenómenos de exclusão do mercado de trabalho. Isto porque não só a literacia digital no nosso país é muito baixa como faltam recursos humanos com competências tecnológicas especializadas, designadamente nas áreas da inteligência artificial, do big data ou da automação. Temos, por isso, uma economia a duas velocidades: uma parte das empresas avançou para a transição digital, enquanto a outra permanece enquistada em modelos de negócio pouco competitivos e com fraca capacidade de criar emprego qualificado.

A escassez de recursos humanos qualificados é um problema estrutural que, com a emergência da economia do conhecimento, se tornou ainda mais agudo. Mas não podemos reagir como os ludistas ingleses do século XIX, que se revoltaram contra a mecanização do trabalho durante a revolução industrial. Convém, isso sim, preparar o país para a economia do conhecimento e subsequentes transformações do mercado de trabalho.

Portugal deve investir fortemente no seu potencial humano. Importa desde logo massificar o acesso dos jovens às universidades e politécnicos, mas também tornar as competências tecnológicas transversais a todos os cursos superiores, promover a interdisciplinaridade curricular e científica dos programas de estudos, reforçar a oferta de pós-graduações em parceria com empresas e incentivar a formação ao longo da vida.

Paralelamente, é fundamental apostar na reconversão profissional de jovens adultos, quer diplomados, quer com qualificações intermédias. Desta forma será possível desenvolver competências adequadas à indústria 4.0 em importantes faixas da população, principalmente nos desempregados. Este esforço de capacitação deve comprometer empresas e associações empresariais, a quem compete ministrar formações que favoreçam realmente a produtividade, a inovação e a competitividade.

Tudo isto merece constar de uma política nacional de promoção da integração profissional dos jovens, alavancada pela nova geração de fundos europeus. Os novos apoios comunitários são uma oportunidade ímpar para criar potencial humano direcionado para a economia do conhecimento e assim responder às transformações laborais em curso, sem perda de empregos ou rendimentos.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais