Há uns meses falava com um americano sobre o panorama político mundial e este afirmava que o problema do mundo atual é a falta de liderança e líderes fortes.

Nos últimos anos tenho vindo a alertar para o que se passa no norte de Moçambique em Cabo Delgado. Desde recados dados a comentadores políticos, mensagens enviadas aos mesmos pelas redes sociais tentando fazer pressão, mas as respostas eram sempre evasivas e de fugida. A questão era simples. O assunto não vendia. O assunto não era suficientemente mediático e por isso não merecia ser falado pelos pedantes comentadores e falsos intelectuais.

Tenho a sorte e privilégio de conhecer aquele território e aquelas gentes que vivem pacificamente, anonimamente e desconhecidamente do Mundo. São homens, mulheres e crianças do mato e do mar a quem a hipocrisia mundial virou costas há muito.

O Governo moçambicano, a ONU, todos os ativistas que se dizem humanistas esperaram anos para colocar este assunto nas suas agendas. Foi preciso atacarem brancos e colocar empresas em causa para que os pseudo líderes que nos governam falarem do assunto.

Provavelmente os decisores nunca colocaram um pé naquele território. Nunca sentiram aquele calor, nunca levantaram aquele pó, nunca se molharam naquele mar, nunca sentiram o cheiro daquelas queimadas e daqueles corpos, nunca sentiram a força da natureza onde só os que lá nasceram lhe resistem às suas magníficas forças.

São populações que vivem isoladas do mundo, indefesas porque nunca sequer pensaram que teriam que se defender de algo. E porque haviam? Se a vida para eles corre ao ritmo do sol e da lua, ao ritmo da machamba e da pesca no azul do Indico…

A snob comunidade intelectual nacional e internacional a quem não falta conforto nem sequer imagina o quão vulnerável são os homens que abandonou e deixou morrer com cabeças cortadas à catanada, pernas, braços e barrigas esquartejadas num jogo de violência certamente acompanhado por muita droga.

São pretos que não interessam. São seres humanos que não tiveram a sorte de ter um jornalista a filmar a forma como lhes entraram pelas palhotas e lhes cortaram as cabeças.

São, eram, moçambicanos felizes. Felizes na sua simplicidade de vida que testemunhei por várias vezes e de sorriso irresistível. Mas para os comentadores de peneiras e pedantes, políticos de interesses puramente eleitorais, Nações Unidas de palavras, mas sem ações, não importavam porque eram homens do mato e do mar, muitos cuja sua existência nem terá passado por registos de identidade porque no mato se nasce sem se fazer parte de estatísticas e por isso se morre sem diminuir as mesmas.

Só um mundo que não se liga e que tem políticos no lugar de líderes é capaz de afirmar em Times Square que Black Lives Matter e ao mesmo tempo deixar cortar cabeças a Black Lives que caem no pó de uma qualquer picada (estrada de terra moçambicana) de Cabo Delgado fazendo lama com sangue derramado.

Coitado do mundo que olha para os seus conforme os holofotes e Sound Bites comunicacionais desprezando por completo aqueles que nem sabem o que isso é.

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Sobre o autor

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Luís Ahrens Teixeira é Sócio-Gerente Herdade da Cortesia Hotel e Presidente da Federação Portuguesa de Remo. Licenciado em economia pela UNL, foi atleta de Alta Competição de Remo entre 1993 e 2004, onde venceu a medalha de bronze nos Mundiais de... Ler Mais