Opinião

Quando faltam líderes, sobram chinelos!

José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education

Quando uma empresa pede aos colaboradores para tirarem os sapatos à entrada, pondo chinelos, não está a inovar. Está a sinalizar uma outra realidade: a perda total de foco. E também a perder o juízo.

Sim porque há uma nova moda, extensão da sala ou de casa, que oferece conforto aos pés dos colaboradores e lhe fornece chinelos para o escritório. Isto pode parecer uma coisa engraçada, pode dar-se um riso à conta disto mas, no fundo, o que se passa é apenas mais uma daquelas estupidezes sem quartel.

O problema nunca foi a transposição de casa para o trabalho, ou do conforto de casa para o trabalho. O problema nunca foram os sapatos. O problema é a ilusão de que conforto cria cultura e de que informalidade substitui a liderança. Conforto não cria cultura e informalidade não substitui liderança nem cria necessariamente proximidade.

Um escritório não é uma sala de estar nem uma suite. É um espaço de responsabilidade, de decisão e de criação de valor. Quando se começa a confundir ambiente profissional com espaço doméstico, dilui-se a exigência, relativiza-se o compromisso e normaliza-se a ausência de rigor. Dir-se-á: bom, mas cultura é, também, feita de rituais. Claro que sim. Mas de rituais que tenham sentido. Promover os bons a heróis, comemorar resultados, elevar e/ou remunerar o cumprimento, enobrecer quem traz resultados, promover conversas sem agenda para criar alinhamento, entre muitos outros, podem ser rituais. Oferecer uns chinelos aos trabalhadores só pode mesmo gerar uma onda de riso, tal a parvoíce.

Sabemos, porém, que vivemos tempos em que muitos líderes preferem símbolos fáceis, rituais vazios, coisinhas fofas a, por contraste e por exemplo, conversas difíceis. Fala-se de bem-estar, mas evita-se falar de desempenho. Fala-se em liberdade, mas foge-se à responsabilidade, fala-se em segurança psicológica, mas esquece-se a necessidade de decisão, fala-se em proximidade, mas esquece-se a lucidez e a necessidade de conversas com real significado.

Trocar clareza por conforto é apenas mais um erro. E daqueles estúpidos.

Tenho defendido que liderar é fazer escolhas, definir limites e assumir o desconforto de exigir, de saber aceitar resultados, de se responsabilizar, de dar a cara no melhor no pior. Não, liderança não é tornar tudo mais leve porque sim. Não, não é andar à procura de uma putativa felicidade em frascos. É, pelo contrário, tornar tudo bem mais claro. E clareza, neste como noutros casos, não se mascara com pantufas.

Conforto pode ajudar a muita coisa, mas não a criar cultura. Aliás, não constrói cultura. Cultura constrói-se com propósito explícito, critérios objetivos, responsabilidade individual, presença, compromisso, decisão. O resto é encenação.

Quando a “política de sapatos” passa a ser notícia, é porque a liderança deixou de o ser.

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