Opinião

Quando a profissão obriga a viajar

Eugénio Viassa Monteiro, professor da AESE-Business School
Foto © Tiago Caramujo

Antes, há muitos anos, viajar era um prazer para mim. A pouco e pouco, começou a pesar e vou descobrindo também incomodidades provocadas pelo sistema, em geral dos transportes e pelos desmazelos dos utentes, quando não são corrigidos a tempo.

Tive que estar em Sevilha e Portugal, na semana passada, e as deslocações trouxeram-me algumas surpresas que não seria nada difícil de anular. Na viagem de regresso, na Emirates, pediram para estar no aeroporto com uma antecedência de três horas sobre a hora do voo. Pensei que seria para imitar a Índia, onde devido a uma enorme população, tal medida parece muito ajustada.

Mas chegar ao Aeroporto de Lisboa, numa tarde de domingo, com pouca gente a viajar, deixou-me bastante tempo livre para rever os meus textos e power-points, mandar uns emails ou responder aos WhatsApp. Cheguei cedo à sala de embarque n.º 46 e, com o que trabalhara antes, a bateria do meu computador estava quase descarregada. Procurei uma tomada eléctrica, sempre pensando que na sala n.º 46, para voos internacionais, com mais de 150 pessoas, haveria umas quantas. O facto é que só havia uma e estava ocupada. Apresentei os meus delicados protestos à responsável do turno que me disse que não havia mais. Depois, um cavalheiro disse-me que talvez houvesse na sala n.º 47. Lá fui ver e só havia uma, numa localização impossível de alcançar.

Pensei que talvez as Autoridades Aeroportuárias estivessem à espera no novo aeroporto, para então terem o número de tomadas suficiente que dessem para todos os possíveis utilizadores. Como tinha tempo, fui ao Google saber quando o novo Aeroporto de Lisboa estaria operacional e tive esta surpresa muito desconfortante:

“O novo Aeroporto de Lisboa está previsto entrar em funcionamento entre 2036 e 2037. A sua localização será no atual Campo de Tiro de Alcochete, localizado na margem sul do rio Tejo. Os principais detalhes do projeto asseguram oprazo estimado de abertura previsto para meados de 2037. O objetivo consiste em substituir gradualmente ou complementar o atual Aeroporto Humberto Delgado (na Portela), que serve atualmente a cidade de Lisboa. O desenvolvimento do projeto foi confirmado e formalizado em Resolução de Conselho de Ministros.”

Eu fiquei estupefacto. Estou a viver em Mumbai, na Índia, desde 2017 e, mentalmente, revi todo o panorama das infra-estruturas na Índia que tem uma população de 1.430 milhões de cidadãos (não de 10 milhões, como em Portugal), que foi colonizada pelos ingleses, que a exploraram até ao tutano, deixando na pobreza e miséria mais absolutas, aquando da sua saída.

Convém referir uns dados de dois autores britânicos e um americano, para que o leitor confirme até que ponto chegou a exploração da “jóia da coroa”:

Diz Angus Maddison[1] , que a Índia era o país mais rico até ao século XVII. Mais afirma: a Índia produzia 27% da riqueza mundial, em 1700 (a comparar com os 23% de toda a Europa), e apenas produzia 3%, em 1950!

Sobre o mesmo tema, William Dalrymple[2], também britânico, diz que, em 1600, a Índia seria a zona mais rica, com 22,5% da riqueza. Em 1870, depois da East India Company ter passado o poder à Coroa Britânica (em 1858), a Índia ficara reduzida à fome, pobreza e privação, enquanto o Reino Unido se enriquecia com as “jóias da coroa”:

Na altura da Independência (1947), a literacia na Índia era de 17% e a expetativa devida era de 32,5 anos! Diz Jeffrey Sachs[3], “A maior ilustração da irresponsabilidade imperial britânica foi a sua resposta às repetidas fomes e epidemias, durante a segunda metade do Sec. XIX e a primeira metade do Sec. XX”.

Segundo historiadores, nesse período, terão morrido de fome e de epidemias entre 14 a 29 milhões de indianos, sem que o colonizador tenha tomado qualquer medida para lhes fazer face!

Portugal não foi colonizado, mas colonizador, e fiquei pensativo porque é que o micro-aeroporto de Lisboa não fora substituído pelo de Alcochete há pelo menos 20 anos atrás, nem que fosse para fugir do perigo de algum avião ir de encontro aos prédios vizinhos, mantando centenas de pessoas. Provavelmente, seria a falta de verbas da UE para ajudar a sua construção… pensei, para calar as minhas elucubrações.

Dentro da sua pobreza, a Índia independente desenvolveu um enorme plano de ligações aéreas internas, com 150 aeroportos, dois modernos em Delhi, outros dois em Mumbai, e noutras cidades, totalizando 24 aeroportos Internacionais. Destes, dois foram classificados entre os melhores do mundo.

E acrescentaria para a informação do leitor, mais estes dados sobre as infra-estruturas da Índia:

– As Estradas Nacionais totalizam 146.000 kms;
– As auto-estradas: 5.300 kms;
– Caminhos de Ferro: 68.000 kms (100% electrificados);
– Energia Elétrica: capacidade instalada: 538 GW, com pouco mais de 190 GW renováveis!

Note-se que a Índia fez um enorme esforço em aumentar a potência da energia solar, para ser globalmente o terceiro maior produtor. Em 2026, a capacidade solar instalada ultrapassava os 150 GW, representando pouco mais de 28% do total da capacidade de energia do pais. Até ao ano 2030, a Índia espera ter instalada uma capacidade de produção de energia solar de 292 GW.

Ao não encontrar nenhuma tomada elétrica disponível, no Aeroporto de Lisboa, pus-me a ler o meu livro editado e apresentado em Sevilha, no dia anterior. E lembrei-me que no aeroporto dessa cidade, ao precisar de carregar o meu telemóvel, uma pessoa indicou-me uns “pólos” na grande sala de embarque, que tinham uma mesa-redonda, cómoda, com uns 6 ou 8 carregadores e, alguma tomada de eletricidade.

Uma solução prática, que custa pouco e dá conforto a quem quer aproveitar o Tempo, enquanto espera a hora do embarque. Se o aeroporto de Alcochete só entra em funcionamento em 2037, ainda há 12 anos para fazer poupar muito tempo a muitos viajantes. À boa moda portuguesa, a solução pode ser: deixar estar…

As autoridades deviam encarregar algum Engenheiro ou Arquitecto da Tap para ver em Sevilha ou na Índia como se resolvem tais assuntos, para comodidade dos passageiros.

Referências
[1] Angus Maddison, inglês, em The World Economy: A Millennial Perspective. (2006; pg. 638).
[2] Cfr. TIME, Aug. 13, 2007, William Dalrymple, in The Last Mugal.
[3]Jeffrey Sachs, em The end of Poverty, Penguin books, 2005, pg 174

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Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro, cofundador e professor da AESE, é Visiting Professor da IESE-Universidad de Navarra, Espanha, do Instituto Internacional San Telmo, Seville, Espanha, e do Instituto Internacional Bravo Murillo, Ilhas Canárias, Espanha. É autor do livro “O Despertar da India”, publicado em português, espanhol e inglês. Foi diretor-geral e vice-presidente da AESE (1980 – 1997), onde teve diversas responsabilidades. Foi presidente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-India e faz parte da atual administração. É editor do ‘Newsletter’ sobre temas da Índia,... Ler Mais..

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