“Vivemos num contexto social em que parece ser norma que algo ou alguém tenha de ser melhor do que outro. Como se o seu sucesso dependesse disso. Mas sucesso nem sempre significa ser o melhor, o vencedor, o número um ou a face visível de uma equipa ou organização. Sucesso pode significar muito mais do que isso.”

Sempre me pareceu estéril o debate mantido ao longo da última década sobre quem seria o melhor jogador de futebol da atualidade: Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo, ambos considerados, de forma relativamente unânime, como estando num patamar (muito) superior a todos os outros praticantes do desporto-rei durante esse período.

Claro que gostos pessoais não se discutem e cada um terá a sua legítima preferência por um desses jogadores (ou outro), seja pelas suas características ou estilo de jogo, por mera empatia ou, porque não, pela sua nacionalidade ou clubes que representam.

O meu ponto não é, todavia, sobre as preferências pessoais de cada um, mas antes porque é que um deles tem necessariamente de ser melhor do que o outro, como se o seu sucesso dependesse disso?

Mais do que perder tempo a compará-los e a opinar sobre quem será o melhor, não deveríamos, isso sim, aproveitar esse mesmo tempo para valorizar a fantástica oportunidade de apreciar e desfrutar da magia, espetacularidade e contínua capacidade de nos impressionar de dois jogadores tão marcantes na história deste desporto?

Porquê então esta necessidade de um ter de ser melhor do que o outro, quando os dois são verdadeiramente fantásticos per si?

Vivemos num contexto social e cultural, com raízes históricas, em que parece ser norma que algo ou alguém tenha de ser melhor do que outro. O melhor, o número um. Uma sociedade feita de vencedores – uma pequeníssima minoria, não raramente idolatrados – e de vencidos – a larguíssima maioria, quase sempre gente desconhecida.

Com efeito, será que ser uma meia dúzia de centésimos de segundo mais rápido numa corrida de 100 metros (o que é, por si só, assinalável), justifica que praticamente apenas conheçamos o mui célebre Usain Bolt, em detrimento de tantos outros velocistas, igualmente fantásticos e com uma elevadíssima capacidade e nível de desempenho, apesar de não tão velozes como o primeiro?

Não quero com isto retirar o mérito aos vencedores, normalmente os melhores entre os melhores, culminando processos que envolvem um elevado esforço e dedicação, mas tão só questionar esta apologia do “melhor”, associada a uma visão fundamentalmente competitiva, circunscrita à necessidade de existência de um vencedor e de vencidos, ao invés de uma visão mais holística, em que possamos apreciar na sua plenitude a imensidão de talento que existe por esse mundo fora.

Esta reflexão resulta, curiosamente, de um recente evento futebolístico, com a vitória do Sevilha FC na última edição da Liga Europa, a sexta em outras tantas finais em que participou, coroando este clube como rei dessa mesma competição. Em contraponto a essa análise dos media, surgem vários outros clubes, entre os quais o (meu) SL Benfica, como o rei dos vencidos, ou crónicos perdedores, como injustamente os apelidam, menosprezando o grande feito de ter chegado a várias finais.

Será que os inúmeros velocistas que durante anos a fio se dedicam a aperfeiçoar a sua técnica e que nas provas oficiais ficam a meros centésimos de segundo de um inigualável colega de profissão não merecem também ser reconhecidos ou valorizados como casos de sucesso?

Será que os vários clubes ou seleções de futebol cujas equipas treinam arduamente e de forma competente, atingindo fases finais das competições em que participam, mas que, por um motivo ou por outro, as perdem, não são igualmente merecedores de um lugar na história e vistos como um caso de sucesso ao invés de insucesso?

Transpondo este tópico para a esfera das organizações empresariais, ainda que num ângulo um pouco diferente, mas relacionado parece-me, assistimos a um certo culto da liderança, em que organizações são reconhecidas mais pela figura dos seus líderes do que propriamente pelos serviços ou produtos que comercializam. Como se aqueles precisassem desse reconhecimento como forma de medir o seu próprio sucesso.

Naturalmente que existem organizações que se confundem com os seus próprios líderes, fundadores em muitos casos: Henry Ford e Ford Corporation, Jack Welch e General Electric, Steve Jobs e Apple ou Elon Musk e Tesla, apenas para mencionar alguns, mas em muitos outros casos a face do líder da organização parece sobrepor-se a tudo o resto.

Sucesso nem sempre significa ser o melhor, o vencedor, o número um ou a face visível de uma equipa ou organização. Sucesso pode e deve significar muito mais do que isso. Sucesso também pode passar por ser-se esforçado, honesto, cordial, solidário, feliz, divertido ou, porque não, simples, apenas simples na sua maneira de ser ou de estar na vida.

Não deixe, por isso, que a perigosa e doentia apologia do “melhor” contamine a sua própria métrica de sucesso, porque este depende, essencialmente, de si.

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Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções executivas e de gestão em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais