Profissionais passam cada vez mais tempo a gerir a IA e menos a executar tarefas
Um estudo da BCG revela que a IA está a transformar profundamente o trabalho. 47% dos profissionais já passam mais tempo a orientar a tecnologia do que a executar tarefas, enquanto 42% dizem poupar pelo menos um dia de trabalho por semana.
A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser apenas uma alavanca de produtividade individual para passar a redefinir a própria natureza do trabalho, da liderança e da experiência dos colaboradores. Esta é a principal conclusão do estudo “AI at Work: Strategy Matters More Than Tools”, da Boston Consulting Group (BCG), que se baseia num inquérito a 11.749 profissionais em 14 mercados e num amplo leque de indústrias.
“A primeira vaga da IA esteve muito centrada na produtividade individual. A próxima deverá estar focada na transformação do trabalho de forma mais estrutural. Mais do que substituir tarefas, o desafio está em redefinir com clareza onde reside o contributo humano de maior valor. É aí que a liderança se torna decisiva. O que este estudo mostra é que estamos perante uma mudança profunda na forma como as organizações pensam funções, equipas e execução num contexto cada vez mais marcado pela colaboração entre pessoas e tecnologia.”, afirma Eduardo Bicacro, Managing Director e Partner da BCG em Lisboa.
De acordo com o estudo, 72% dos inquiridos consideram que a IA já transformou consideravelmente as competências exigidas nas suas funções. Quase metade (47%) afirma dedicar hoje mais tempo a gerir e orientar esta tecnologia do que a realizar o trabalho em si. Em paralelo, 60% dos profissionais sentem que a fasquia do que é considerado “bom o suficiente” subiu, refletindo uma redefinição rápida das expectativas em relação à qualidade e complexidade do trabalho entregue.
Esta transformação está associada a uma experiência profissional aparentemente contraditória. Por um lado, 67% dos utilizadores regulares dizem sentir maior satisfação no trabalho. Por outro, 41% apontam para um agravamento da carga cognitiva – um fenómeno que o estudo designa como “paradoxo da satisfação”. A pesquisa acrescenta ainda uma nuance importante: nos primeiros meses de utilização, essa carga cognitiva é frequentemente vivida como estimulante e contribui para o entusiasmo dos colaboradores. Após um ano de utilização regular, deixa de ser um fator de energia. Neste ponto, o que sustenta a motivação passa a ser a clareza estratégica e a qualidade da liderança.
A adoção de IA por colaboradores operacionais (profissionais sem responsabilidades de gestão) acelerou significativamente, com 74% a assumirem-se agora como utilizadores regulares, um aumento de 23 pontos percentuais face a 2025. O estudo interpreta esta evolução como o fim do chamado “silicon ceiling” – a barreira que, até recentemente, limitava o acesso das camadas operacionais das organizações a esta tecnologia. Em termos geográficos, mercados como Índia, Médio Oriente, Austrália e Brasil lideram os níveis de adoção entre colaboradores operacionais, enquanto os Estados Unidos, França e Itália revelam ritmos mais moderados.
Uma adoção mais alargada não se traduz, por si só, em criação de valor para as organizações. 42% dos utilizadores operacionais afirmam poupar pelo menos um dia completo de trabalho por semana graças à IA. No entanto, 66% referem receber orientação limitada ou nenhuma sobre como utilizar esse tempo, e mais de metade não o redireciona para trabalho estratégico. Sem uma transformação organizacional adequada, o tempo poupado dilui-se dentro da organização e o ganho de eficiência não é capturado como valor para o negócio.
O estudo destaca ainda a aceleração da maturação dos agentes de IA. 30% dos inquiridos afirmam que estes já estão integrados nos fluxos de trabalho, mais do dobro do registado em 2025 (13%). Em paralelo, seis em cada dez respondentes (61%) acreditam que, nos próximos três anos, os agentes poderão executar pelo menos metade do seu trabalho. Contudo, a evolução tecnológica continua a ultrapassar a preparação organizacional: 52% dos profissionais mantêm um conhecimento limitado sobre o que são efetivamente estes agentes, e metade das organizações ainda não instituiu orientações claras sobre como gerir equipas híbridas de pessoas e IA.
A clareza estratégica afirma-se como o fator mais determinante para sustentar o impacto da IA ao longo do tempo. O estudo compara quatro cenários organizacionais e chega a uma conclusão inequívoca: as empresas com estratégia clara, mas acesso limitado a ferramentas apresentam mais 25 pontos percentuais de probabilidade de reportar impacto mensurável no negócio. Já as empresas com acesso alargado a ferramentas, mas sem estratégia definida ganham apenas cerca de 5 pontos percentuais. A implicação para os líderes é clara: comprar mais tecnologia sem uma visão clara do trabalho a redesenhar produz retornos marginais.
Segundo o estudo, as empresas que redesenham processos de ponta a ponta e criam novos modelos de negócio – atividades que quase duplicaram em relação a 2025 – apresentam mais 24 pontos percentuais de probabilidade de observar melhorias mensuráveis no negócio, mais 22 pontos percentuais de probabilidade de os colaboradores pouparem pelo menos um dia completo de trabalho por semana e mais 20 pontos percentuais de probabilidade de reportarem maior satisfação profissional. O estudo destaca ainda o papel do envolvimento direto do CEO: as transformações pessoalmente lideradas pelo topo superam consistentemente as restantes em todas as dimensões analisadas – valor capturado, satisfação dos colaboradores e confiança interna.
“A mensagem central do relatório é clara: o próximo ciclo da IA no trabalho vai depender menos das ferramentas disponíveis e mais da forma como as organizações escolhem redesenhar o trabalho, formar as suas pessoas e liderar a transformação. Numa fase em que a adoção generalizada da IA deixou de ser um diferencial competitivo, o que fará a diferença é a capacidade de a integrar num projeto coerente de reinvenção operacional”, conclui a BCG em comunicado.








