Michelle Correia e Alexandre Neves partilham uma história com um denominador comum: trocaram o seu país de origem por Portugal. Mas não se arrependem. Ela está cá há mais de 10 anos e ele regressou depois de uma primeira experiência. Mais do que os desafios que enfrentam, garantem que há muito mais oportunidades por aqui.

São cada vez mais os brasileiros, de todas as classes e perfis, que procuram “ uma melhor qualidade de vida” em Portugal, segundo a Casa do Brasil.

Muitos destes estão “bem informados e já com uma imigração planeada”, outros atraídos por ‘contos’ nas redes sociais sobre um “el dourado” que não existe, conta a presidente da Casa do Brasil, Cíntia de Paulo, em entrevista à Lusa.

A presidente da Casa do Brasil explicou que, sobretudo no último ano, iniciou-se uma nova vaga de imigrantes brasileiros para Portugal, que se acentuou no final de 2018 e início deste ano. No ano passado, só a Casa do Brasil em Lisboa, atendeu 476 novas pessoas (estão apenas contabilizados os que procuram pela primeira vez a Associação). Já este ano, desde janeiro até agora, tinha atendido 278 novas pessoas, disse a responsável, que faz parte da Associação desde 2012 e é presidente desde 2017.

Na história da imigração brasileira para Portugal já houve momentos de muita afluência como o final dos anos 1990 e início dos anos 2000, recorda, reafirmando que neste momento “há uma chegada bastante expressiva”.

Em maio, o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, informou que foram concedidas 17 mil Autorizações de Residência (AR) em Portugal para brasileiros só nos primeiros quatro meses deste ano, e outras 28 mil em 2018.

Esta nova vaga é composta por diversos grupos, desde as pessoas com menos qualificação profissional, a um maior número de pessoas com mais qualificação, muitos estudantes universitários, que já estavam a chegar desde 2009, mas que continuam a crescer, explicou. Os mais representativos “são os profissionais mais qualificados, da faixa entre os 30 e os 40 anos”, acrescentou.

Dos que vão à Casa do Brasil, o motivo comum que os leva a deixar o país de origem é “a procura de uma melhor qualidade de vida”, assegurou Cíntia de Paulo.

Mas afinal o que mais atrai os jovens brasileiros?
Portugal sempre foi considerado um bom destino para os brasileiros. “Além de partilharem a mesma língua, os portugueses amam a nossa cultura. É fácil adaptarmo-nos e integrarmo-nos”, explica Michelle Correia, de 29 anos, que está em Portugal há mais de 10 anos e que atualmente é gestora de Projetos na BraveGeneration e coordenadora na associação de empreendedores Be Brave. A jovem aponta como uma das mais-valia “o custo de vida que não é super caro e sentirmo-nos seguros nas ruas – um desejo para todos os brasileiros”.

Já Alexandre Neves, de 31 anos, esteve a primeira vez em Portugal em 2016, no âmbito do programa de Erasmus para estudar durante um semestre na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, e acabou por regressar.

“Esta experiência foi tão boa que, em 2017, resolvi regressar para fazer o mestrado em Gestão de Marketing, desta vez em Lisboa. Primeiramente, escolhi Portugal pela história que carrega junto do Brasil. Fomos criados através de Portugal e por isso temos muitas heranças culturais das quais tenho orgulho, como a língua portuguesa. Quando cheguei a Portugal, sentia-me como se ainda estivesse no Brasil tanto por conseguir identificar com facilidade cada palavra/frase escrita nas placas, outdoors e publicidades, como pela boa recetividade, ótima gastronomia e pontos turísticos que me faziam lembrar o centro histórico do Rio de Janeiro”, conta o jovem que frequenta o Mestrado em Gestão de Marketing no Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM).

Mas afinal o que procuram os jovens brasileiros no nosso país? Facilidade no processo de criar um negócio. “A complexidade dos impostos torna o empreendedorismo mais difícil no Brasil; embora haja um mundo completamente novo de processos burocráticos para começar um negócio aqui é muito mais simples do que no Brasil”, frisa Michelle Correia, que é também cofundadora da Education Network, plataforma que foi criada com o objetivo de auxiliar todos os estudantes interessados em vir estudar para Portugal.

A língua é apontada como um mecanismo facilitador de todo o processo de inclusão na sociedade portuguesa. Alexandre Neves garante que “por serem considerados países irmãos, tanto os brasileiros como os portugueses possuem direitos estabelecidos por lei que aumentam as oportunidades de residência nos dois países. Logo, se assim desejarmos, podemos solicitar o Estatuto de Igualdade de Direitos e Deveres que nos garante a possibilidade de exercermos atividades económicas, acesso à função pública e capacidade eleitoral ativa e passiva”.

Além disso, para o jovem, “no que diz respeito aos estudos, muitas universidades portuguesas já aderiram ao exame nacional brasileiro (ENEM) como forma de ingresso no ensino superior e algumas dessas universidades ainda oferecem descontos nas propinas para os países lusófonos e a forma de pagamento mensal como é de costume no Brasil”.

É óbvio que existem sempre desafios para quem troca um país por outro em busca de melhores condições de vida. “Passei dificuldades comuns para um imigrante que deixa repentinamente o seu país para encontrar melhores oportunidades. Falo da saudade da família e amigos, dificuldade em conseguir um emprego nos primeiros meses e adaptação aos hábitos e costumes dos portugueses”, explica Alexandre Neves.

Dos vistos, passando pelo WebSummit à rede de contactos
Desde o ano de 2012, vigora em Portugal um regime específico de Autorização de Residência para Atividade de Investimento (ARI), também conhecido como “Visto Gold”, “Golden Visa” ou “Visto Dourado”. Até ao momento, o Golden Visa já foi concedido a mais de 6.962 investidores, sendo que os brasileiros estão no TOP 3 das nacionalidades que mais solicitaram este tipo de Autorização de Residência para Portugal.

Michelle Correia diz que há uma alternativa ao Golden Visa: “Há um visto especial para empresários chamado D2 e que se destina a todos os que pretendam iniciar um negócio. O procedimento não é complicado. É obrigatório um plano de negócios para demonstrar o quão viável e relevante é o seu negócio. Se tem uma família, todos podem adquirir uma autorização de residência, se tiver este visto”.

Em Portugal, o boom do empreendedorismo, aliado aos incentivos oferecidos aos imigrantes, está a ajudar a atrair os brasileiros. Para estes jovens, o WebSummit, por exemplo, ajudou também Portugal a ganhar lugar de destaque no mapa, atraindo por isso vários talentos a Lisboa.

“Lisboa está a ser transformada numa Startup City Hub devido ao impacto do Web Summit. A infraestrutura de Portugal para iniciar e desenvolver um novo negócio é bastante sólida. Isso também atrai mais investimentos vindos de fora e mais pessoas que procuram oportunidades de negócios aqui”, afirma Michelle Correia.

Apesar de Portugal abrir as portas ao exterior, o sucesso dos empreendedores com sotaque brasileiro depende ainda da rede de network que consegue criar.

Segundo Michelle Correia, “o sucesso de um empreendedor também depende dos relacionamentos que constrói ao longo do tempo e da confiança que conquista”. Por isso, aconselha: “tente relacionar-se com as pessoas através de alguém que já conhece. Além disso, tente conectar-se com o maior número possível de empreendedores. Há muitas atividades e fóruns de rede nos quais pode participar e muitos grupos online para começar a criar conexões antes mesmo de chegar”.

E, continua, “se está acostumado ao mercado brasileiro, deve colocar algumas perceções para trás; tem de agregar valor ao mercado português e responder às necessidades. Vai demorar um pouco para  se sentir confortável com a cultura e os processos, mas com o tempo, pesquisa e paciência pode facilmente superar essa barreira”.

Apesar das saudades da terra que os viu nascer continuarem enraizadas no seu dia a dia, a vontade de abraçar um futuro melhor é maior. Por isso, aqui permanecem sempre com os olhos postos no continente verde, amarelo e azul.

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