Entrevista/ “Portugal precisa urgentemente de recuperar a capacidade de pensar o futuro”
“Os problemas do país não podem ser vistos de forma isolada. Há questões em que a economia se cruza com a saúde, com a justiça, com a administração pública e com muitos outros domínios”. A análise é de António Mendonça, Bastonário da Ordem dos Economistas, em entrevista exclusiva ao Link to Leaders a três dias do 11.º Congresso Nacional dos Economistas.
Num momento em que a economia global atravessa transformações profundas, o bastonário da Ordem dos Economistas defende a necessidade de recuperar uma visão estratégica de longo prazo e reforçar o papel dos economistas na resposta aos grandes desafios do país.
Num contexto marcado por rápidas transformações económicas, geopolíticas e tecnológicas, a reflexão estratégica volta a ganhar centralidade. É sob o tema “Transformações em curso na economia global” que a Ordem dos Economistas promove nos próximos dias 17 e 18 de abril, na Culturgest, em Lisboa, o seu congresso anual, reunindo especialistas e decisores para debater os desafios que se colocam à Europa e a Portugal.
Em entrevista ao Link to Leaders, o Bastonário António Mendonça analisa o novo contexto internacional, o papel dos economistas e as prioridades para o futuro. E lembra que “não nos devemos esquecer que a economia global no seu sentido ainda atual deve muito aos portugueses”.
O que motivou a escolha do tema “Transformações em curso na economia global” para o Congresso?
Este tema foi pensado já no ano passado. O congresso estava inicialmente previsto para o final de 2024, mas como tivemos de antecipar o processo eleitoral em resultado das alterações estatuárias e acabámos por adiar o evento para 17 e 18 de abril deste ano.
Procurámos escolher um tema que levasse os economistas a refletir sobre o que está a acontecer no mundo. Hoje, o exercício da profissão de economista é muito mais amplo do que antigamente. Vai da macroeconomia à política económica e à administração pública, mas também tem a componente empresarial, de gestão de vários domínios desde a parte financeira, à parte dos recursos humanos.
O próprio conceito de economista evoluiu e tornou-se mais abrangente e aproximou-se da origem. Hoje não é apenas o gestor da casa ou da família, como era na origem, mas é o gestor das condições económicas do país e mesmo das condições económicas internacionais e globais. Hoje os economistas são chamados a intervir – por exemplo, no nosso caso mais imediatamente – nas relações com a Europa e também não podemos ficar indiferentes às transformações em curso na economia global.
Já depois de termos definido o tema do congresso, a realidade é que as coisas mudaram mais profundamente e mais aceleradamente do que estávamos a prever. Estes últimos meses foram avassaladores do ponto de vista das transformações. Já tínhamos a guerra na Ucrânia e os seus impactos económicos, e da adaptação da Europa à nova situação de mudar a dependência energética que tinha, ou seja, tudo já estava em movimento. Mas, entretanto, os acontecimentos dos últimos meses aceleraram ainda mais essas mudanças.
Até aqui tínhamos uma hegemonia clara dos Estados Unidos e funcionava, mas vamos ver como vai ser daqui para a frente. Se é a dois, se é a um, vamos ver o que vai acontecer e qual vai ser o papel da Europa no meio disto tudo. Por isso, estamos perante transformações profundas e rápidas, que levantam novas questões sobre o papel dos Estados Unidos, da China, da Europa e também de Portugal neste novo contexto internacional.
Não nos devemos esquecer que a economia global no seu sentido ainda atual deve muito aos portugueses. A nossa matriz cultural identitária tem muito a ver com o relacionamento que tivemos com os outros povos. Portanto, nós temos uma capacidade de relacionamento que não devemos desperdiçar. Talvez mais do que a maioria dos países da Europa. Podemos ser um fator ativo de construção de identidade europeia. Não devemos ter complexos e temos de reivindicar isso. Por outro lado, estamos no Atlântico e esta nossa posição é muito importante hoje em dia até quando as tendências são para concentrar as atividades económicas na zona do Indo-Pacífico, mas nós também podemos puxar para a parte Atlântica. Temos um capital histórico que pode ser muito útil.
Quais são as principais mudanças que serão discutidas durante o Congresso?
No primeiro dia, vamos ter uma intervenção mais focada no que está a acontecer a nível global e nos impactos que isso poderá ter na arquitetura da economia mundial, nas relações económicas internacionais e no setor financeiro. Esta intervenção estará a cargo do professor Vítor Constâncio.
Quero sublinhar a importância do professor Vítor Constâncio, que é uma das pessoas que melhor conhece a economia, não apenas do ponto de vista teórico, mas também do ponto de vista do seu funcionamento concreto. Tem uma experiência notável e uma reflexão própria muito relevante. Aliás, eu digo, mas também muita gente considera que teve um papel importante na alteração do posicionamento do Banco Central Europeu com a chegada de Mario Draghi, nomeadamente com a introdução da política monetária não convencional, que foi fundamental.
Houve, de facto, uma rutura a nível europeu, que permitiu resistir melhor aos efeitos da crise internacional de 2008 e 2009. Essa mudança contrastou claramente com a visão mais ortodoxa anterior, associada a Jean-Claude Trichet, baseada em cortar a fundo e provocar recessão.
O que se fez depois foi precisamente o contrário: avançou-se para uma política de sustentação dos rendimentos e da procura. Vítor Constâncio tem continuado a produzir reflexões muito interessantes sobre tudo o que se está a passar, incluindo sobre política monetária, o comportamento da Europa e os desafios do contexto atual. Tem publicado textos relevantes, nomeadamente no blogue Substack, onde grandes nomes da economia escrevem, e é precisamente sobre essas questões que irá falar no congresso.
E que outros nomes podemos encontrar?
Depois teremos painéis que procuram responder, de forma mais segmentada, a vários aspetos desta transformação global. Contaremos, por exemplo, com o embaixador e economista Mário Godinho de Matos, uma pessoa com grande experiência, com missões diplomáticas em países e contextos muito relevantes. Teremos também o professor António Rebelo de Sousa e o economista Ricardo Cabral, professor do ISEG (que tem um livro muito interessante sobre a economia portuguesa), que acompanham de perto estas questões da economia internacional. À tarde, entraremos em sessões paralelas, centradas em temas mais específicos, como a transformação digital, a nova economia europeia da segurança e defesa, a globalização e a fragmentação, bem como os jovens e o mercado de trabalho.
O segundo dia do congresso é mais voltado para os temas do investimento e financiamento das empresas, bem como da crise geopolítica e geoeconómica no momento atual, mas também a pensar no futuro. Por exemplo, na sessão sobre Investimento e Financiamento das Empresas vamos contar com a intervenção de Gonçalo Regalado, presidente do Banco de Fomento. Teremos também a participação de empresas de referência, casos de sucesso que vamos apresentar. Teremos no final a honra de ter a intervenção do Ministro da Economia e da Coesão Territorial, Manuel Castro Almeida, que é o ministro da nossa tutela.
“(…) os jovens serão dos grupos mais afetados por estas transformações (…). Por isso, queremos refletir sobre os desafios e também sobre as oportunidades”.
A questão dos jovens será como disse também uma das áreas em destaque?
Sem dúvida. Provavelmente, os jovens serão dos grupos mais afetados por estas transformações, tanto para o bem como para o mal. Por isso, queremos refletir sobre os desafios e também sobre as oportunidades. Vamos abordar o mercado de trabalho, a questão salarial, a habitação e também a família. Este último ponto é muito importante, porque falamos muito de uma sociedade envelhecida, mas depois não criamos condições para que os jovens se autonomizem, constituam família e tenham filhos.
Quem tem filhos conhece bem estas dificuldades. Mesmo quando os jovens têm bons empregos, muitas vezes continuam a ter enormes obstáculos para sair de casa dos pais, organizar a sua vida e construir um projeto familiar. Tudo isso acontece cada vez mais tarde, e isso tem consequências profundas, não apenas para os próprios jovens, mas para toda a sociedade.
Temos de criar condições para que os jovens se afirmem, deem o seu contributo e assegurem também a reprodução da sociedade. Não podemos encarar com naturalidade as atuais taxas de natalidade. Evidentemente que ninguém pode obrigar ninguém a ter filhos, mas é possível criar contextos mais favoráveis à parentalidade, à estabilidade e à construção de projetos de vida. Há exemplos de outros países europeus, como a Suécia e a França, que devem ser considerados.
Por isso, este é um tema central para nós. Aliás, na Ordem dos Economistas criámos uma nova categoria de entrada, a dos estudantes. Não pagam quota, mas passam a ter ligação à Ordem logo numa fase inicial. A ideia é aproximar os estudantes dos profissionais, ajudá-los a compreender melhor as regras de entrada no mercado de trabalho, facilitar formação complementar e criar redes de contacto. Mais tarde, poderão transitar para a categoria de estagiários e seguir o seu percurso normal na Ordem. Estamos, portanto, a dar uma atenção muito particular aos jovens e queremos mobilizá-los.
A Ordem conta com iniciativas específicas para jovens economistas ou para a integração de novas competências no mercado de trabalho?
Sim. Estamos a trabalhar em várias frentes. Uma delas é a organização das Olimpíadas da Economia, em articulação com a Associação Une Dois Mundos. As Olimpíadas da Economia para o ensino secundário já existem há vários anos, têm vindo a crescer e hoje envolvem milhares de estudantes.
Entretanto, avançámos também para as Olimpíadas Universitárias de Economia. Esta não é a primeira vez, porque a primeira edição foi realizada no ano passado, mas ainda estamos numa fase inicial, de consolidação. Recentemente realizou-se a segunda edição. O nosso objetivo é que as Olimpíadas universitárias ganhem a mesma dimensão que as do ensino secundário. São uma forma de mobilizar os jovens, introduzir as grandes questões económicas e aproximá-los do Congresso, dos debates e dos problemas concretos da economia.
Além disso, temos vindo a estabelecer protocolos com instituições de ensino e queremos reforçar apoios em áreas como pós-graduações, cursos específicos, preparação para a entrada no mercado de trabalho, entrevistas e elaboração de currículos. São instrumentos importantes para ajudar os jovens a integrarem-se com mais segurança e mais competências.
É verdade que os nossos recursos não são ilimitados, mas há uma aposta clara nos jovens. Até porque houve um período em que a média etária da Ordem subiu muito, em parte devido à perda de dinâmica que se seguiu à crise de 2008, 2009 e 2010. Essa crise teve efeitos negativos evidentes: reduziu a atenção da sociedade para as instituições e teve impacto também na nossa Ordem. Hoje estamos a recuperar essa dinâmica. Voltámos a ter crescimento positivo, ou seja, as entradas são superiores às saídas e isso é um sinal importante.
O programa do Congresso inclui também homenagens e distinções. Que significado têm?
Têm um significado importante. Procuramos reconhecer economistas e personalidades que tenham dado contributos relevantes ao país, à economia e ao serviço público. Neste Congresso, vamos atribuir logo no primeiro dia o título de Economista Emérito a Carlos Costa, antigo governador do Banco de Portugal e vice-presidente do Banco Português do Investimento. É uma personalidade com um percurso muito relevante, não apenas pelo papel que desempenhou no Banco de Portugal, mas também pela sua ligação ao processo de integração de Portugal na União Europeia. É alguém que conhece profundamente a problemática europeia e que tem produzido trabalhos muito interessantes sobre os desafios da Europa e o papel de Portugal.
A intervenção que fará insere-se precisamente nesse quadro: os desafios da Europa e o papel de Portugal neste contexto. Depois haverá também um painel de debate com várias personalidades, entre elas José Eduardo Carvalho, presidente da Associação Industrial Portuguesa, Margarida Mano, ex-Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e vice-reitora da Universidade Católica, Óscar Afonso, diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, e Luís Cachudo Nunes, presidente do Colégio de Especialidade de Insolvências e Recuperação de Empresas. A moderação estará a cargo de Guilherme d’Oliveira Martins, membro da Assembleia Representativa da Ordem dos Economistas.
No segundo dia, o Congresso estará mais centrado no setor empresarial, no financiamento da economia e nas empresas. Esse dia é organizado pelo Colégio de Especialidade de Economia e Gestão de Empresas e contará com vários intervenientes ligados ao tecido empresarial e ao investimento.
Também iremos atribuir o título de membro honorário a António Costa Silva, ex-Ministro da Economia e do Mar, pelo seu percurso e pela relevância da sua reflexão em áreas como a energia, a geopolítica e a geoeconomia. Apesar de ser engenheiro de formação, tem um conhecimento muito profundo das questões energéticas e económicas.
Quero sublinhar que, nestas escolhas, não há qualquer preocupação ideológica ou partidária. O que valorizamos é o interesse pelo serviço público, a competência profissional e a capacidade de refletir sobre os grandes problemas do país. A Ordem não se rege por princípios ideológicos ou por princípios de natureza político-partidários. Procuramos uma abordagem isenta, objetiva e orientada para a racionalidade.
“(…) os problemas do país não podem ser vistos de forma isolada. Há questões em que a economia se cruza com a saúde, com a justiça, com a administração pública e com muitos outros domínios”.
Qual é o papel da Ordem dos Economistas no contexto económico português atual?
A Ordem tem um desafio muito grande pela frente. Em primeiro lugar, tem uma missão essencial de autorregulação do exercício da profissão, garantindo competência, responsabilidade e ética. Trata-se de uma função de serviço público, porque a Ordem tem competências delegadas pelo Estado para exercer esse papel.
A inscrição na Ordem não é obrigatória, mas é recomendável. Ainda assim, para além dessa função reguladora, a Ordem tem também a obrigação de refletir, tomar posição e dinamizar a discussão sobre os grandes problemas da sociedade portuguesa. Temos procurado fazê-lo em áreas como o Orçamento do Estado, a saúde, a justiça e, de forma mais ampla, a economia. A Ordem está também integrada no Conselho Nacional das Ordens Profissionais, que reúne cerca de vinte ordens e representa, no fundo, os setores profissionais mais qualificados do país. Tenho, aliás, a honra de presidir a esse Conselho.
Isso é importante porque mostra que os problemas do país não podem ser vistos de forma isolada. Há questões em que a economia se cruza com a saúde, com a justiça, com a administração pública e com muitos outros domínios. A nossa responsabilidade é contribuir com propostas autónomas, isentas e desprovidas de preconceitos ideológicos.
E quais são os principais desafios que a Ordem enfrenta na promoção da profissão de economista em Portugal?
Uma das nossas grandes prioridades é voltar a colocar no centro do debate uma visão estratégica de médio e longo prazo para o país. Isso perdeu-se muito nos últimos anos por várias razões. Tivemos uma sucessão de crises e de urgências que nos empurraram para respostas imediatas, mas fomos abandonando a reflexão estrutural. Portugal precisa urgentemente de recuperar a capacidade de pensar o futuro. Não basta ir resolvendo problemas pontuais. É preciso discutir questões de fundo, de natureza estrutural, e voltar a ter ambição em matéria de crescimento económico.
Não podemos resignar-nos a crescer 1% ou pouco mais do que isso, nem ficar satisfeitos por crescer um pouco acima da média da zona euro, quando essa média é, em si mesma, fraca. Se olharmos para as últimas duas décadas, vemos uma taxa média de crescimento muito medíocre. Isso não chega para resolver os problemas do país nem para construir as bases do futuro.
O que fazer então?
Temos de voltar a apostar em taxas de crescimento superiores, na ordem dos 3% ou 4%, como já aconteceu no passado. Para isso, precisamos de pensamento estratégico, investimento, infraestruturas e uma transformação mais profunda da estrutura económica.
Outro ponto essencial é precisamente o investimento em infraestruturas. Houve, entre nós, uma atitude muito negativa em relação às infraestruturas, e isso é profundamente prejudicial. Basta olhar para a Alemanha: um dos fatores da atual crise alemã é precisamente a falta de investimento, em especial investimento público. Isso teve consequências dramáticas.
Portugal tem de voltar a discutir estas matérias sem preconceitos. Não podemos continuar excessivamente dependentes de fatores externos voláteis, como o turismo. O turismo é importante, evidentemente, mas não pode ser a base de tudo. Precisamos de criar alternativas, reforçar a base industrial, reindustrializar em áreas estratégicas e aproveitar melhor as competências que ainda temos.
Também precisamos de refletir seriamente sobre a nossa relação com Espanha. Espanha representa cerca de um terço das nossas relações económicas externas, o que torna essa relação central. Não devemos encará-la de forma passiva, mas antes perceber como podemos potenciar essa ligação em benefício próprio. Por exemplo, é muito interessante irmos ao Rossio e termos um quarteirão inteiro da Zara, mas, não sendo chauvinista, também gostava de ter um representante da indústria portuguesa, particularmente do setor têxtil onde temos cartas a dar. Esta é uma marca, um símbolo da diferença que existe entre nós e Espanha e da sua capacidade de se afirmar e desenvolver industrialmente em relação a nós.
“Não vejo razão para ter medo da inteligência artificial. Devemos utilizá-la com os devidos cuidados, claro, tal como fazemos com qualquer outra tecnologia”.
Preocupam-no as novas tecnologias e a inteligência artificial no contexto económico?
A minha posição é de abertura. Devemos dominar, desenvolver e aproveitar essas ferramentas, tanto para contribuir para a sua evolução como para as aplicar em diferentes níveis da economia e da sociedade. Não vejo razão para ter medo da inteligência artificial. Devemos utilizá-la com os devidos cuidados, claro, tal como fazemos com qualquer outra tecnologia. Mas recusar a inteligência artificial seria o equivalente, há décadas, a recusar a calculadora ou o computador. Na academia, por exemplo, é fundamental que professores, estudantes e investigadores usem estas ferramentas. Não podemos ignorá-las. O importante é compreender as suas limitações, saber fazer as perguntas certas e aprender a utilizá-las bem.
Naturalmente, vai ter impacto no mercado de trabalho. Há estudos que o mostram com clareza. Mas os países mais desenvolvidos também são os que, em princípio, terão maior capacidade de complementar essa tecnologia com inovação, qualificação e adaptação.
Portugal, por ter um nível de desenvolvimento mais baixo, pode até sofrer menos impacto em certos setores, mas isso também significa menor capacidade para tirar partido dessa transformação. Por isso, a solução não é recusar; é usar com consciência, rigor e bom senso.
No fundo, a inteligência artificial é uma ferramenta. Como qualquer ferramenta, pode ser bem ou mal utilizada. O essencial é garantir responsabilidade, controlo e capacidade crítica. Mas quanto mais as pessoas a utilizarem, mais perceberão também as suas limitações e potencialidades.
Alertou recentemente para o que chamou de “terceiro choque petrolífero” e para a forte dependência energética da Europa. Que lições Portugal e os economistas podem tirar deste cenário para preparar o país e o setor económico para choques externos similares?
Os três choques petrolíferos ocorreram, em grande medida, por razões semelhantes, ligadas a conflitos geopolíticos e a tensões no sistema internacional. O primeiro choque petrolífero ocorreu com a guerra do Yom Kippur entre 6 e 25 de outubro de 1973 que opôs Israel a uma coligação árabe, liderada pelo Egito e pela Síria. O impacto económico deste conflito foi enorme. O preço do petróleo quadruplicou no curto espaço de quatro meses, fazendo detonar a primeira recessão global do pós-Segunda Guerra Mundial, acompanhada de uma aceleração da inflação, evidenciando um novo fenómeno batizado de estagflação. Curiosamente, embora não tenha participado na guerra, o Irão esteve ao lado dos Estados Unidos e continuou a fornecer petróleo a Israel.
Mas os efeitos deste choque foram assimétricos. Os Estados Unidos viram a sua posição de produtor de petróleo reforçada, o dólar, que estava em crise profunda desde a a derrocada do sistema de Bretton Woods em 1971, recuperou a hegemonia, enquanto a Europa, fortemente dependente de importação de energia, viu-se confrontada com custos de produção acrescidos e perda de competitividade, de que nunca chegou verdadeiramente a recompor-se. Mas também é verdade que esta crise energética mais, propriamente, de regime económico global, impulsionou a Europa a aprofundar o seu projeto de integração, com a criação do novo Sistema Monetário Europeu, em março de 1979.
O segundo choque petrolífero deu-se na viragem dos anos 1979-80, com a revolução islâmica no Irão, em 1979, e a guerra Irão/Iraque entre 1980 e 1988. O preço duplicou, a partir de níveis mais elevados, a disrupção foi mais prolongada e o mercado tornou-se estruturalmente mais instável. Para além disso, atingiu as economias mais fragilidades, desde 1973, e com elevadas inflações.
E, uma vez mais, atingiu assimetricamente a Europa e os Estados Unidos. Com estes a recuperarem a sua hegemonia, afetada desde 1973, no quadro de uma nova arquitetura global em que a China ganha uma preponderância progressiva. Apesar de tudo, a Europa deu mais um salto em frente na sua autonomia económica com a decisão de avançar para União Económica e Monetária, na sequência do Relatório Delors de 1989, e que culminaria com a criação da zona euro em 1 de janeiro de 1999.
O terceiro choque petrolífero pode estar em curso. Com os mesmos protagonistas e uma nova assimetria de impactos. A Europa, já afetada profundamente nos preços da energia pelos impactos da guerra na Ucrânia, vê-se agora confrontada com um novo choque de consequências que poderão ser dramáticas.
A grande mudança de qualidade deste terceiro choque é que ele ocorre num contexto em que a relação de forças na economia global é profundamente diferente da que existia nos dois choques anteriores, com a emergência da China e de outros atores globais a dificultarem a recuperação da hegemonia global americana, tal como se afirmava desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ou seja, este terceiro momento volta a acentuar a importância de encontrar alternativas, investir em investigação e reforçar a autonomia energética. Temos de gerir melhor as nossas dependências. Não podemos sair de uma dependência para entrar noutra. A diversificação é essencial.
“Portugal pode ser uma fonte alternativa de segurança energética, tanto para si próprio como para a Europa”.
E Portugal no meio disto…
Portugal tem aqui margem para desempenhar um papel importante. Já tem experiência significativa no desenvolvimento das energias renováveis, tem projetos interessantes em áreas como o hidrogénio e pode reforçar a sua aposta na investigação e inovação nestes domínios.
Além disso, o país pode afirmar-se como uma alternativa relevante no abastecimento energético à Europa. O Porto de Sines, por exemplo, pode ter um papel muito importante. As capacidades de armazenamento, as ligações a outros mercados e a posição geográfica de Portugal dão-nos condições para pensar estrategicamente neste domínio.
Mas isso implica também aprofundar a articulação com Espanha e melhorar a ligação da Península Ibérica ao resto da Europa. Portugal pode ser uma fonte alternativa de segurança energética, tanto para si próprio como para a Europa.
Olhando para os próximos anos, quais são as prioridades estratégicas da Ordem dos Economistas?
A primeira prioridade é reforçar o papel da Ordem como fator de atração dos economistas. É importante que os economistas se identifiquem profissionalmente, que construam uma identidade própria e que reforcem a sua posição perante a sociedade. Os economistas têm uma importância muito grande na procura de soluções para os problemas do país, e não apenas em áreas tradicionais como a contabilidade ou a gestão. A economia pode intervir na saúde, na justiça, na administração pública, na energia, nas empresas e em muitos outros setores.
A nossa missão é também introduzir mais visão económica nas diferentes vidas da sociedade e regressar às origens (era a administração da família, depois passou-se à administração do país e depois à administração do internacional). É introduzir essa visão de gestão de recursos, numa perspetiva imediata, local, regional, setorial, empresarial, mas também global. Ou seja, hoje essa visão tem de existir a vários níveis: na empresa, no setor, no território, no país, na Europa e no mundo. É por isso que é tão importante que os economistas tenham uma cultura própria, identidade e capacidade de intervenção. A Ordem pode e deve ter esse papel. Vamos apostar no reforço da visibilidade da profissão, na valorização dos economistas e na afirmação desta perspetiva na sociedade portuguesa.








