Opinião

Porque é que alguém deve ser liderado por ti?

José Crespo de Carvalho, presidente do ISCTE Executive Education

A questão não é nova. O tema menos ainda. Colocada a pergunta desta forma não se torna de resposta fácil. Goffee e Jones já pegaram nesta questão no ano 2000 numa publicação da Harvard Business Review, sempre atual. E mesmo antes disso já havia muitos tópicos relacionados quer com o tema, quer com a questão.

Não é simples, porém, responder à questão. Exige mais de ti do que pensas.
Se achas que és a pessoa indicada para liderar alguém podes ter tendência a começar a descrever as tuas qualidades como se mais ninguém pudesse fazer esse trabalho ou não houvesse alguém com as mesmas qualidades que tu. Não vás por aí.

Se começas a pensar muito sobre a questão, hesitando na resposta, porventura não saberás o motivo pelo qual outros devem ser liderados por ti o que pode ser um sinal de verdadeira humildade, mas, do outro lado da moeda, pode configurar-se como falta de conhecimento próprio (self-awarness).

Se achas que foi uma questão de sorte e de circunstância talvez não sejas mesmo a melhor pessoa para estar a liderar e te falte trabalho próprio para ajustares o teu estilo de liderança aos teus liderados.

Se por acaso achas que serves ao liderar, serves outros, talvez estejas próximo da razão pela qual alguém deve ser liderado por ti. Porque se te entregas a outros, servindo-os em vez de te servires deles, estás a conseguir, na prática, seres o suporte de que outros precisam, o farol, a luz que necessitam de ver em ti para que possam acreditar na tua forma de fazer as coisas e na visão que depositas sobre o negócio.

Se se perguntar ao ChatGPT “Why should anyone be led by you?” a resposta aparece pronta:

As an AI language model, I don’t have personal motivations or desires, but some reasons someone might choose to be led by me include:

  1. Objectivity: I do not have personal biases or opinions, and I can provide unbiased and impartial guidance.
  2. Knowledge and expertise: I have been trained on a vast amount of information and can provide accurate and relevant answers to a wide range of questions.
  3. Consistency: I am programmed to always provide the same answer to the same question, so you can count on consistent and reliable information.
  4. Speed: I can quickly process information and provide answers in real-time, which can be helpful in fast-paced or time-sensitive situations.
  5. Availability: I am always available to answer questions and provide support, 24/7.

Voltando a Goffee e Jones dir-se-á que são quatro os condimentos essenciais:

  1. Mostrares que és humano de forma verdadeira e não falsa ou plástica.
  2. Tornares-te um sensor no sentido de procurares saber e perceber no ar o que se passa com as tuas pessoas, seus problemas e inquietações.
  3. Gerires as tuas pessoas com empatia, procurando colocares-te sempre no papel dos outros. Ouvindo-os. Valorizando-os. Criando-lhes as condições para prosseguirem o seu caminho e trabalho.
  4. Atreveres-te a ser diferente. Diferente enquanto pessoa e ser humano e procurando a tua génese. As tuas boas características, os teus traços mais marcantes e emblemáticos.

No final, “mix and match” estas qualidades e terás o estilo próprio para o momento próprio. E poderás ousar liderar outros. Não que o tenhas de saber de forma explicita como aqui te escrevo. Mas convém teres consciência de que a tua humanidade, a tua capacidade para usar o teu sensor, a tua empatia e os teus elementos diferenciadores são os elementos estudados e apadrinhados como bons por quem se tem dedicado a esta questão de saber porque deves liderar outros? O ChatGPT levanta-te igualmente questões centrais: Objetividade, Conhecimento, Consistência, Velocidade e Disponibilidade.

Parece simples. Voltando a Goffee e Jones dir-se-ia que é tudo menos simples porquanto a tua humanidade só vale se não for plástica, o teu sensor só funciona se estiveres disposto a ouvir muito e investir nesse “ouvir e sentir”, a tua empatia tem mesmo de funcionar ao saberes-te colocar no lugar dos outros, oferecendo-lhes as condições de que precisam e, o seres tu, tem de ser mesmo isso: seres tu, único e irrepetível. Se souberes misturar tudo isto nas doses apropriadas podes saber porque poderás liderar outros. Ainda assim, não chega. Precisas de mais que da mistura. Precisas de a tornar indelével. Tua. Própria. E sendo própria, absolutamente natural.

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José Crespo de Carvalho

José Crespo de Carvalho

Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF (HOL) e no IE (SP). É professor catedrático do ISCTE-IUL, presidente da Comissão Executiva do ISCTE Executive Education e administrador da NEXPONOR. Foi diretor e administrador da formação de executivos da Nova SBE e professor catedrático da Nova SBE (Operations... Ler Mais..

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