Opinião

“O nosso objetivo é tornar a mudança para um novo país tão fácil quanto reservar um voo”

Karoli Hindriks, cofundadora e CEO da Jobbatical

“Acredito sinceramente que Portugal pode ser o Silicon Valley da Europa. Mas ainda há muito trabalho a ser feito para chegar lá!”. A afirmação é de Karoli Hindriks, cofundadora e CEO da Jobbatical, profissional que aos 16 anos foi considerada a mais jovem empreendedora da Estónia. Agora lidera a plataforma internacional que ajuda as empresas e os profissionais nos processos burocráticos associados à transferência de talentos entre países.

Presente no mercado nacional há cerca de oito meses, a Jobbatical está confiante de que Portugal continuará a ser um concorrente forte na corrida global pelo talento e, por isso, os seus planos incluem a expansão da equipa local e do portefólio de negócios. Até agora a start-up da Estónia já geriu mais de 300 casos de imigração, atingiu o atingiu o break-even em mês e meio e alcançou um crescimento de receita de seis vezes em três meses. Além disto, a equipa portuguesa mostrou que os rumores sobre os portugueses serem humildes e trabalhadores são muito verdadeiros, assegurou Karoli Hindriks, cofundadora e CEO da Jobbatical, em entrevista ao Link To Leaders. Apesar disso, lembrou o desafio da burocracia que enfrenta no mercado nacional.

No último ano, a start-up iniciou cerca de 6 mil casos de imigração de pessoas de 118 nacionalidades, deslocando-as para 18 países. Mas não deixa de alertar para o facto de que “globalmente, entrámos no período de maior escassez de talento da história da humanidade”.  “Atualmente, orgulhamo-nos de poder dizer que a Jobbatical é o parceiro de imigração tanto para start-ups de tecnologia como para empresas tradicionais”, afirma Karoli Hindriks. Nos próximos dois anos quer expandir a operação para 30 novos países e tornar a movimentação internacional paperless.

Como surgiu a Jobbatical e como funciona?
Fundei a Jobbatical em 2014, depois da ideia me ter surgido na Singularity University, em Mountain View, na Califórnia. Durante as minhas corridas matinais pelo campus da Google, comecei a questionar-me: por que razão estão aqui as Googles do mundo? Percebi que essas empresas incríveis são construídas graças ao talento estrangeiro que circula pelo mundo para se relocalizar para Silicon Valley. Então comecei a pensar em como poderíamos distribuir esse conhecimento para as cidades mais distantes do mundo como Tallinn, Estocolmo ou Lisboa e a conectar pessoas com empregos inspiradores nessas cidades. Depois de alguns anos, já tínhamos movido pessoas de 53 países para 37 destinos e percebemos que, em muitos casos, havia um “monstro debaixo da cama”: a imigração.

Porquê?
A papelada confusa e, muitas vezes, aparentemente impossível está, até hoje, a impedir contratações perfeitas de acontecerem, por isso, começámos a trabalhar no tema e especializámo-nos bastante. Atualmente, orgulhamo-nos de poder dizer que a Jobbatical é o parceiro de imigração tanto para start-ups de tecnologia como para empresas tradicionais.

Em termos de processo, usamos tecnologia e automação para o tornar mais rápido, económico e melhorarmos a experiência geral. Todos os documentos (cópias de passaportes, certidões, etc.) são carregados no nosso sistema, que depois prepara toda a documentação digitalmente, graças à automação que temos implementada. Os nossos especialistas em imigração orientam as pessoas ao longo do processo, para que tenham uma experiência de realocação agradável.

“(…) acredito sinceramente que Portugal pode ser o Silicon Valley da Europa”.

Quais os planos da Jobbatical para Portugal?
No contexto europeu, Portugal apresentou-se como um local muito atrativo para muitos profissionais pelo que, em termos de negócio, foi uma decisão lógica. Fatores promissores como a forte ética de trabalho e bons níveis de educação fazem-nos acreditar que Portugal continuará a ser um concorrente forte na corrida global pelo talento, pelo que os nossos planos incluem a expansão da nossa equipa local e do portefólio de negócios. Voltando a Silicon Valley, acredito sinceramente que Portugal pode ser o Silicon Valley da Europa. Mas ainda há muito trabalho a ser feito para chegar lá!

Que balanço faz destes cerca de oito meses no mercado português?
Iniciámos a nossa operação portuguesa na primavera passada e, desde fevereiro, já gerimos mais de 300 casos de imigração. Foi um lançamento super bem-sucedido: atingimos o break-even em mês e meio e alcançamos um crescimento de receita de seis vezes em três meses, o que nos dá muito boas perspetivas! Além disto, a nossa equipa portuguesa mostrou que os rumores sobre os portugueses serem humildes e trabalhadores são muito verdadeiros!

“Os maiores desafios que temos enfrentado em Portugal prendem-se com a burocracia – uma questão não específica apenas deste país, mas que abre algumas oportunidades de melhoria”.

Quais têm sido os grandes desafios do mercado português?
Os maiores desafios que temos enfrentado em Portugal prendem-se com a burocracia – uma questão não específica apenas deste país, mas que abre algumas oportunidades de melhoria. Para começar, existem alguns formulários de imigração que devem ser preenchidos à mão. Isto faz algum sentido em 2022? À medida que automatizamos aspetos, como o preenchimento de formulários, para aumentar a velocidade e a precisão, como podemos consegui-lo se um requisito é que seja preenchido manualmente? E também temos de perguntar: quem beneficia com esse trabalho manual? A meu ver ninguém, pois gera ineficiência e sobrecarga a todos os envolvidos: o profissional, o empregador e o setor público.

Em geral, os processos de imigração são iniciados de forma ineficiente, sempre no país de cidadania ou residência legal do profissional, o que limita o processo à capacidade de trabalho do consulado.

Outros desafios que se colocam incluem: os atrasos para a realização de entrevistas, por falta de vagas disponíveis, sendo que a maioria dos atrasos acontece com países com procura elevada – Brasil, Índia, Rússia, Bielorrússia e Estados Unidos da América; processo muito burocrático em termos de documentos necessários para solicitar o visto; nem sempre os prazos legais de processamento são respeitados – 30 dias por lei para um trabalhador altamente qualificado, porém, é comum levar de 45 a 90 dias apenas para a emissão do visto; requisitos legais com muitas “áreas cinzentas”, que às vezes levam a entendimentos diferentes dentro dos consulados – requisitos e especificações de documentos geralmente variam de consulado para consulado, criando obstáculos para um movimento rápido do talento; requisitos legais muito exigentes para todos os profissionais que não se enquadram no Regime Altamente Qualificado; cotas de contratação internacional em vigor, o que aumenta ainda mais o tempo total necessário para embarcar um recurso em Portugal.

E aspetos positivos?
Ainda assim, o lançamento da lei 18/2022, de 25 de agosto, trouxe algumas melhorias, como o fim das quotas de contratação internacional, tornando mais simples o processo de atração para Portugal de trabalhadores que tenham sido identificados por empresas portuguesas e que tenham recebido promessa de contrato de trabalho; uma nova categoria de visto para candidatos a emprego, permitindo ao talento estrangeiro beneficiar de uma janela temporal de 120 dias, extensível a 180, para viajar e permanecer em Portugal para encontrar um emprego e assinar contrato. Se estiverem reunidas todas as condições, este visto será, então, convertido em autorização de residência; uma nova categoria de visto para cidadãos de países de língua portuguesa (CPLP); uma nova categoria de visto para trabalhadores remotos (nómadas digitais) que exerçam atividade para empresas localizadas fora de Portugal; a possibilidade de os membros da família solicitarem o visto de família ao mesmo tempo que o profissional, o que lhes permite viajar para Portugal ao mesmo tempo; os números temporários de Identificação Fiscal, Segurança Social e de Utente do Serviço Nacional de Saúde são atribuídos automaticamente ao profissional aquando da recolha do visto no consulado, o que irá agilizar todo o processo de integração na empresa portuguesa.

Com o novo decreto regulamentar 4/2022, de 30 de setembro, que entrará em vigor a partir de 30 de outubro, prevê-se que os profissionais candidatos a vistos de procura de emprego ou vistos da CPLP beneficiem de condições de qualificação mais simples e também tenham os seus vistos concedidos de imediato, o que irá reduzir significativamente os tempos de espera para embarcar talento internacional em Portugal. Esta é uma melhoria significativa no processo e que, esperamos, ajude as empresas portuguesas na competição global por talento.

“A Jobbatical liberta tempo para os empregadores fazerem mais e melhores contratações”.

De que forma têm ajudado as empresas portuguesas a combater a escassez de recursos e a encontrar talento?
Evitar que as pessoas tenham de fazer viagens desnecessárias para resolverem questões burocráticas facilita tudo a toda a gente. E ao fornecer às empresas de todo o mundo uma ferramenta para lidarem com a escassez de talento, a nossa solução torna as realocações económicas. A Jobbatical liberta tempo para os empregadores fazerem mais e melhores contratações. E ao fazê-lo de forma digital, criamos um grande impacto na rapidez e agilidade dos processos de imigração.

Quantas pessoas já usam a plataforma Jobbatical a nível global?
Em termos globais, no último ano, a Jobbatical iniciou cerca de 6 mil casos de imigração de pessoas, de 118 nacionalidades, deslocando-as para 18 países.

Quais os países onde a procura por trabalho é maior?
As três principais nacionalidades que escolhem Portugal para se mudar são a Rússia, o Brasil e a Bielorrússia.

Quem é o típico empregador que podemos encontrar na Jobbatical?
Praticamente todas as empresas de crescimento elevado são possíveis clientes da Jobbatical. As empresas de tecnologia são, obviamente, muito importantes para nós, pois têm algumas das maiores necessidades de realocação para competirem no mercado global. Também trabalhamos em conjunto com os governos, para tornar os processos de imigração mais fáceis e rápidos.

“Assistimos a uma procura enorme do mercado alemão, pois a escassez de talento já está a prejudicá-lo”.

Neste momento quais os melhores países para requisitar talentos e porquê?
Uma vez que, globalmente, entrámos no período de maior escassez de talento da história da humanidade, muitos países (inteligentes) estão a tornar-se particularmente atrativos para a candidatura dos profissionais. Segundo o Korn Ferry Institute, até 2030 a escassez de talento custará às empresas e governos 8,5 triliões de dólares – o que é muito dinheiro! Portanto, estão todos a começar a lutar pelos mesmos recursos.

Assistimos a uma procura enorme do mercado alemão, pois a escassez de talento já está a prejudicá-lo. Mais e mais países estão a procurar modernizar e melhorar os seus processos de imigração. Por exemplo, a Finlândia tornou-o quase totalmente digital e a permissão de residência pode agora ficar pronta em apenas duas semanas! Isto representa uma grande vantagem para os empregadores locais, em comparação com os 2 a 5 meses na maioria dos outros países.

Que histórias inspiradoras tem a Jobbatical para partilhar e que podem influenciar outras pessoas?
De todas as minhas experiências empreendedoras, a jornada da Jobbatical foi a que me ensinou mais. Há três anos mudámos completamente a empresa, o que significou perder o que construímos durante mais de quatro anos. Foi uma decisão difícil, mas, em retrospetiva, podemos dizer que foi a certa. Baseámo-nos em dados sobre as necessidades dos nossos clientes, a partir dos quais iniciámos o “side-business” de realocação, inicialmente com recurso a uma folha do Excel.

Esse “negócio paralelo” cresceu muito mais depressa do que o negócio principal (que era o recrutamento transfronteiriço) e isso disse-nos que o nosso ajuste ao mercado de produtos não estava onde começámos, mas onde estava a dor real da contratação internacional. Essa decisão crucial também significou reestruturar e deixar de lado ⅓ da empresa. Falei com cada pessoa que tivemos de deixar ir naquela altura e expliquei muito detalhadamente por que razão a empresa estava a tomar aquela decisão, ouvi as suas preocupações e perguntas… Eles estavam apenas a fazer o seu trabalho e não saíram por causa do seu desempenho, mas por causa de uma mudança estratégica.

Graças a esta abertura, muitos deles juntaram-se às nossas reuniões gerais mesmo após a decisão e torceram pelo novo caminho a seguir pela empresa. Fiquei muito orgulhosa de como executámos essa grande mudança. É claro que as dificuldades não terminaram aí, já que sete meses após esta transformação, deu-se a pandemia global e todos os bloqueios associados. Mas, como um dos nossos membros do conselho referiu em 2020, o facto de os bloqueios não derrubarem a Jobbatical é um reflexo do quão grande é essa tendência e mercado!

“(…) não é preciso ter um doutoramento ou muito dinheiro para criar algo que mude a vida das pessoas para melhor”.

A Karoli tornou-se aos 16 anos na mais jovem empreendedora da Estónia com uma patente registada na área da educação. De que forma esta experiência a moldou? O que aprendeu?
Essa experiência mostrou-me que as minhas ideias podem fazer a diferença. Na verdade, deixou-me viciada em fazer a diferença! Mostrou-me que não é preciso ter um doutoramento ou muito dinheiro para criar algo que mude a vida das pessoas para melhor. O encorajamento do meu falecido pai também me mostrou que toda a mente jovem tem o potencial necessário para mudar o mundo. É nossa responsabilidade garantir que eles sabem disso e é isso que tento ter em mente ao ouvir a minha filha de nove anos.

Lisboa terá sempre um lugar muito especial no meu coração, pois foi lá que soube do falecimento do meu pai. Lisboa esteve comigo no momento mais difícil da minha vida e, por isso, serei eternamente grata!

Que outras experiências profissionais a marcaram?
Tenho tido uma jornada e tanto! Provavelmente, uma das experiências mais memoráveis foi ter-me tornado CEO da MTV Estónia aos 23 anos. Na altura disseram-me que era a CEO da MTV mais jovem do mundo. Essa foi provavelmente a empresa mais cool para liderar naquela idade. Conseguimos fazer muito com muito pouco. Foi uma experiência que me ensinou muito sobre vendas, marketing e formação de equipas. Nessa altura até conseguimos ajudar a criar uma banda de garagem estoniana que foi a primeira, em toda a Europa Oriental, a estar no palco principal dos MTV European Music Awards! Essa foi provavelmente a maior ação de marketing de guerrilha na qual já participei.

Projetos para o futuro da Karoli e da Jobbatical?
Até agora, construímos de longe o produto mais escalável e tecnologicamente avançado da nossa indústria. O nosso objetivo é tornar a mudança para um novo país tão fácil quanto reservar um voo. Nos próximos dois anos queremos expandir a nossa operação para 30 novos países e executar a construção do nosso roteiro de produtos, para tornar a movimentação internacional paperless.

Respostas rápidas:
O maior risco: a transformação do negócio, em 2019.
O maior erro: ter começado a construir a Jobbatical tech 1.0 em 2014, a partir da minha ideia, ao invés de testar se o modelo funcionava na vida real.
A maior lição: aprender, graças ao feedback anónimo da minha equipa em 2018, que é difícil trabalhar comigo – costumava micro gerir toda a gente. Transformei completamente a minha liderança e comecei a construir uma organização baseada na confiança, feedback e transparência, e agradeço a isso o facto da Jobbatical ser hoje uma empresa ótima para se trabalhar. Sou muito grata à equipa pelo seu feedback ousado e honesto naquela época e todos os dias desde então!
A maior conquista: ter a coragem de transformar a empresa e, em seguida, a resiliência para, contra todas as probabilidades, conseguir fazer a empresa ultrapassar a pandemia global e os bloqueios (de fronteiras), levando-a ao crescimento louco que temos hoje. Enquanto líder, esta foi a minha maior conquista de todos os tempos.

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