Sim, tive já a oportunidade de ler a “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica e Social de Portugal 2020–2030”, da autoria de António Costa Silva. Um documento abrangente no diagnóstico e nas estratégias e inteligente na argumentação das opções.

Tal não surpreende, dado ter sido escrito por uma das mentes mais brilhantes do nosso universo de gestores nacionais, com experiência fortíssima na área da energia e uma mundividência ímpar. Concordei com quase tudo, discordo de algumas coisas e acrescentaria alguns ingredientes que Costa Silva preferiu ignorar ou menosprezar. Enfim, direto ao assunto!

Gostei da parte mais fácil e consensual, do diagnóstico do mundo atual, seus drivers de mudança (ameaças globais, geopolítica, tecnologias, acesso aos recursos-chave). Identifico-me com os seus “ futuros possíveis para Portugal” (que menciona, entre outros, um Portugal conectado globalmente, uma economia atlântica e uma plataforma tecnológica e logística integrada). Não são novidades absolutas, mas é sempre bom vir alguém estruturar pensamento. Concordo, em particular, que Portugal pode e deve ampliar todo o seu “soft-power”: na diplomacia inteligente, com foco na Lusofonia, nas pontes com a América ou com a Ásia  – faz sentido, está no nosso ADN como “cultura” e “marca” global, desde há séculos. Faz (e bem) uma apologia forte da inovação, com foco na energia/ ambiente, no mar e na saúde  – áreas-chave para o futuro, nas quais elenca propostas concretas.

Na agenda “mais material” de desenvolvimento, Costa Silva mostra a sua “matriz de engenheiro” com foco em investimentos “hard”, em tudo o que toca a indústria, energia e setores extrativos (nomeadamente, a exploração mineira, com propostas ousadas para exploração off-shore, na nossa Zona Económica Exclusiva). O seu foco na reindustrialização e reconversão industrial (que ocupam o maior espaço do documento) sinaliza bem a sua paixão e prioridade. Já os investimentos “soft”, em áreas como serviços, cultura ou turismo, são despachados em breves páginas, com alguns lugares comuns e sem grande rasgo.Convição pessoal: as economias globais não se tornaram “economias de serviços” por mero acidente histórico, mas porque é essa a evolução natural das cadeias de valor – que valorizam o que é diferenciador e único, sobre o que é massificado ou “comodotizável”.

Devemos voltar a investir (mais) em indústria, transição energética e logística? Sem dúvida. Mas não perder de vista as nossas enormes vantagens competitivas em áreas como o turismo (que vai voltar, diferente, mas não menos rentável), educação e formação ao longo da vida (com o nosso ensino superior virado para o mundo), centros de competências e serviços partilhados, cultura, design e indústrias criativas (levemente mencionadas). Ou o imperativo de reforçar Portugal como um hub de atração de talento, tecnológico, empreendedor e inovador, que nos traga o capital humano necessário para alavancar todas estas ambições. E o nosso ecossistema de inovação social, praticamente ignorado no documento, que pode construir soluções práticas (e escaláveis) em áreas como educação, combate à exclusão social, saúde e envelhecimento ativo, entre outras.

De resto, o que seria de esperar no que concerne a Administração Pública (que, como o documento aponta, tem de reforçar os seus níveis de competências, técnicas e de liderança, para ser eficaz) e das modalidades de investimento / financiamento (gostei da ideia de um fundo soberano, como existe na Irlanda).

Em suma: um documento rico, que merece ser lido e levado a sério. Com necessidade, na minha ótica, de ser mais equilibrado nas áreas que mencionei, com prioridades estratégicas mais alinhadas com as atuais vantagens competitivas de Portugal. Dito isto, o problema dos planos em Portugal é simples: opinamos e fazemos inúmeros diagnósticos, mas depois não gostamos muito de planos concretos e temos o (péssimo) hábito de navegar à vista. Somos mais powerpoint (visão global) e menos excel (execução e detalhe). Conseguiremos, nesta ocasião, ser diferentes?

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Carlos Sezões é, deste 2010, Partner em Portugal da Stanton Chase, uma das 10 maiores multinacionais de Executive Search – também dedicada às áreas de Talent Management e Executive Coaching. Começou a sua carreira no Banco BPI em 1999. Assumiu... Ler Mais