Raymond Noorda – antigo presidente-executivo da Novell e, para muitos, o criador da computação em rede – desenvolveu o conceito de “coopetição”, que, como o nome indica, descreve uma relação simultaneamente de cooperação e competição entre empresas.

Na altura, anos 80 do século XX, a colaboração entre empresas de hardware e de software foi decisiva para o crescimento da indústria informática. Mais tarde, o sucesso de Silicon Valley veio reforçar a importância dos clusters – concentrações geográficas de empresas do mesmo setor com vista à criação de sinergias entre si.

As vantagens da cooperação entre empresas são inegáveis, sobretudo num momento histórico marcado pela vertigem da mudança e pela alteração de paradigmas a vários níveis. As empresas têm hoje de atuar num contexto global de extrema volatilidade, incerteza e complexidade, o que aconselha a uma maior partilha de recursos de forma a serem ultrapassados os desafios da contemporaneidade. Ora, um desses desafios é a transição digital, processo que dá às empresas a possibilidade de aumentarem a produtividade, reforçarem a competitividade, entrarem em novos mercados, otimizarem a análise de dados e melhorarem a relação com os clientes.

As medidas de contenção da pandemia de Covid-19, em particular o confinamento social, aceleraram a transição digital das empresas portuguesas. O nosso tecido empresarial desenvolveu um extraordinário esforço para comercializar bens, prestar serviços, organizar processos, gerir tarefas e interagir com clientes remotamente, recorrendo às tecnologias digitais. Agora, há que otimizar e consolidar os avanços alcançados na digitalização das empresas, sem deixar de fora da transição digital as PME dos setores tradicionais.

Neste sentido, importa criar um contexto favorável ao estabelecimento de parcerias tecnológicas entre PME e start-ups da economia digital. É uma win-win situation, considerando, por um lado, a urgência de transpor atividades e processos das empresas tradicionais para o ambiente digital e, por outro, a necessidade de evitar o fim precoce de start-ups de base tecnológica, com a consequente perda de boas ideias de negócio e projetos disruptivos.

Através destas parcerias tecnológicas, as PME podem beneficiar das competências científicas, técnicas e criativas das start-ups, aplicando esse know-how no desenvolvimento digital de novos produtos, novos processos, novos métodos de venda ou novos modelos de negócio. Já para as start-ups, a colaboração com empresas dos sectores tradicionais tende a ser uma base de sustentação importante numa altura em que ainda estão a consolidar o seu modelo de negócio. As parcerias com PME dão às start-ups a possibilidade de conhecerem potenciais clientes, entrarem em novos mercados, ganharem experiência de gestão, prepararem a internacionalização e até obterem financiamento junto das empresas parceiras.

Acontece que, em Portugal, não há grande tradição de cooperação entre empresas, mesmo entre não concorrentes. Mas os efeitos devastadores da crise pandémica na economia e uma maior consciência da importância da transição digital podem fazer acelerar as parcerias tecnológicas, assim haja massa crítica, pensamento estratégico e recursos partilháveis tanto nas PME como nas start-ups. Neste cenário, parece-me que as associações empresariais poderão desempenhar com sucesso o papel de mediadoras, promovendo o match entre empresas com potencial sinérgico.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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Alexandre Meireles, 38 anos, foi eleito (no final de fevereiro 2020) presidente da Direção Nacional da ANJE- Associação Nacional de Jovens Empresários, para o triénio 2020-22. Natural de Amarante, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica, no ISEP, e tem o Curso... Ler Mais