Tive o privilégio de conhecer e conviver com três dos meus avós. Na minha carreira profissional, tenho beneficiado e aprendido com pessoas que apelido de meus “avós” profissionais…e como eles são importantes nas nossas carreiras e na vida das organizações.

«Sabedoria: sapiência, sagacidade, termo que equivale ao saber; qualidade que dá sensatez, prudência, moderação à pessoa; capacidade associada a atributos como juízo sem viés, compaixão, autoconhecimento, não apego, ou a virtudes como ética e benevolência»

Tive o grato privilégio pessoal de conhecer as minhas duas avós e o meu avô materno, tendo convivido com dois deles até à minha adolescência e com a minha avó materna até quase aos meus quarenta anos. Guardarei, para sempre, boas memórias dos momentos que passei com os meus avós, especialmente com os maternos, com quem mantive uma relação mais próxima por força das próprias circunstâncias da vida.

Os meus filhos, por sua vez, ambos já na sua adolescência, para além do contato, por alguns anos, com duas bisavós, têm o enorme privilégio de conviver de forma muito próxima e regular com os seus quatro avós (exceção feita aos cinco anos vividos no Brasil, durante os quais o contato foi muito reduzido, por força da distância física que os separava), com quem mantêm uma forte relação de cumplicidade, carinho e respeito.

Existe algo de especial, mágico até, na relação entre netos e avós, assumindo estes, regra geral, um papel relevante na vida dos primeiros, pelo carinho e amor genuíno que nutrem por eles, essencial na construção e no fortalecimento do basilar sentimento de pertença, pela mera partilha de histórias, conhecimentos e experiências potencialmente úteis à sua vida, ou pela transmissão de valores e princípios de vida, tão importantes no seu processo de formação moral e ética. Diria, caricaturando, que os avós são pais com (muito) mais sabedoria.

Este não é, todavia, um texto sobre os avós da minha família, passe esta prévia introdução, mas antes uma analogia com o papel que as pessoas profissionalmente mais experientes, com três ou quatro décadas de carreira, podem ter no desenvolvimento pessoal e profissional dos seus colegas mais jovens, assim como na maturidade, equilíbrio e savoir-faire das organizações em que se inserem. Chamo-lhes, em sentido figurado, naturalmente, os “avós” profissionais.

Ao longo da minha carreira, tenho-me cruzado com algumas pessoas (colegas e chefias) que se enquadram nesse mesmo conceito. Pessoas naturalmente experientes, no seu percurso de vida e de trabalho, conhecedoras das, por vezes complexas, dinâmicas das relações humanas e culturas organizacionais, tendencialmente mais conservadoras, moderadas e tolerantes, com uma por vezes limitada, mas suficiente, habilidade tecnológica e com um ritmo próprio de trabalho, privilegiando a prudência e a segurança nos seus processos decisórios em detrimento da rapidez, demonstrando, não raras vezes, que nem sempre o melhor caminho é aquele que parece ser o mais fácil ou o mais curto.

É sabida a dificuldade que muitas pessoas em faixas etárias mais avançadas têm em encontrar o seu espaço em termos profissionais, como se fossem consideradas obsoletas com o simples passar da idade. Generalizando, pensar-se que uma eventual menor aptidão para as novas e modernas ferramentas tecnológicas, uma eventual menor velocidade de execução de determinadas tarefas ou atividades, uma eventual maior aversão ao desconhecido (ou ao risco), consubstanciada na procura do conhecido (segurança) nos seus processos decisórios, uma eventual menor sofisticação técnica face à vertiginosa evolução da ciência e do conhecimento, um eventual menor domínio de outras línguas, ou os eventuais vícios, rotinas ou ineficiências acumuladas nas suas longas carreiras, se sobrepõem à sabedoria lato sensu que tais pessoas habitualmente têm, representa, a meu ver, uma visão limitada, eventualmente preconceituosa e potencialmente destruidora de valor para as próprias organizações.

Com efeito, e generalizando uma vez mais, acredito que uma conjugação equilibrada entre uma previsível maior agilidade, sofisticação tecnológica, aptidão linguística, irreverência no pensamento, abertura para entender e aceitar aquilo que é diferente ou fora do padrão, aspetos normalmente associados aos mais jovens, e a sabedoria dos profissionais mais experientes, em toda a sua amplitude, pode transformar-se num catalisador de valor para as organizações que entendam a importância e o valor que esse equilíbrio lhes pode trazer.

Comentários

Sobre o autor

Avatar

Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções executivas e de gestão em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais