A agricultura e pescas é um dos setores com maior vitalidade no pós-troika. Há hoje mais empresas, mais lucros e mais exportações. Entre 2013 e 2017, o número de sociedades criadas no setor cresceu 31% (de 4200 para 17 613).

Este acréscimo refletiu-se nos lucros acumulados, que se fixaram em 414,3 milhões de euros em 2017. Isto quando, em 2013, se registaram prejuízos de 35,6 milhões de euros. A recuperação económica do setor explica-se pela subida das vendas em quase 40% (de 3,7 mil milhões em 2013 para mais de 5,1 mil milhões de euros em 2017) e pelo aumento do valor gerado em exportações (de 411 milhões para 633 milhões de euros).

É certo que muitos negócios deste setor, sobretudo na fileira agrícola, foram motivados pela necessidade de fugir ao desemprego, durante o período de ajustamento. Mas também é verdade que a agricultura se tornou aliciante por gerar bens transacionáveis e potencialmente exportáveis, numa altura em que o mercado doméstico estava em recessão. Por outro lado, foram disponibilizados importantes incentivos europeus ao empreendedorismo na agricultura, dirigidos particularmente a jovens qualificados.

A valorização, diversificação e internacionalização da agricultura portuguesa deve muito ao impulso empreendedor verificado nos últimos anos, como provam os números relativos à criação de empresas. E têm vindo a público bons exemplos de empreendedorismo e inovação no setor, que indiciam uma especialização inteligente dos projetos agrícolas. Podemos mesmo dizer que existe uma nova geração a revolucionar a agricultura no nosso país, introduzindo no setor estratégias empresariais, conhecimento científico, tecnologias sofisticadas, técnicas modernas e novos produtos.

Mas há ainda margem para um maior e mais sustentado crescimento da agricultura portuguesa. Recordo que a nossa balança comercial de produtos agrícolas e agroalimentares ainda é negativa. Ora, sendo o setor cada vez mais intensivo em inovação e tecnologia, é importante que os negócios mais tradicionais se especializem e que, ao mesmo tempo, surjam start-ups com potencial de crescimento. Tudo isto para que a agricultura reforce a competitividade, aumente a produtividade, reduza os custos, melhore os produtos e crie mais valor.

Os desafios da Agricultura 4.0 em Portugal são grandes e complexos. A estrutura produtiva precisa de ser modernizada e otimizada, os modelos de negócio digitalizados, as atividades agrícolas carecem de maior sustentabilidade ambiental e há que adaptar a produção às novas tendências alimentares. Importa, por isso, trazer para a agricultura capital humano e conhecimento científico em áreas críticas como a produção vegetal, as tecnologias agrárias, a biotecnologia, a sequenciação genómica ou as culturas protegidas.

Apesar dos desafios, a Agricultura 4.0 encerra boas oportunidades de negócio e beneficia de incentivos públicos significativos. Mas há que reforçar a interface entre os centros de conhecimento e os produtores agrícolas, gerando redes de competências que abarquem toda a cadeia de valor do setor. Isto de forma a oferecer alternativas às produções tradicionais e a generalizar a aplicação de técnicas e tecnologias que favoreçam a produtividade, a diferenciação e a qualidade.

Com este propósito, parece-me pertinente a criação de hubs empreendedores vocacionados para projetos no setor agrícola. Num ambiente protegido, próximo dos centros de conhecimento e dinamizador de sinergias empresariais será mais fácil escalar start-ups capazes de fornecer produtos, serviços ou soluções para potenciar a produtividade e competitividade das explorações agrícolas.

*Associação Nacional de Jovens Empresários

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José Pedro Freitas foi presidente da ANJE-Associação Nacional de Jovens Empresários de abril de 2019 a fevereiro de 2020, tendo sido também vice-presidente desde janeiro de 2017 e integrado os órgãos sociais da Associação, mais concretamente o Conselho Fiscal, nos... Ler Mais