Paul Asel, sócio e gerente da empresa NGP Capital, e investidor em tecnologia há mais de 25 anos nos EUA, Europa e Ásia, fala da natureza mutável das empresas de capital de risco e aponta cenários para o futuro.

Recentemente, duas empresas de capital de risco, a japonesa SoftBank, com escritórios em Londres, Silicon valley e Tóquio, e a norte-americana Andreesen Horowitz (a16z), anunciaram novos fundos que fortalecem a crescente escala do setor dos capitais de risco. A SoftBank anunciou a sua intenção de criar um segundo Fundo de Visão através de uma oferta pública – a primeira vez que algo semelhante acontece em qualquer empresa de capital de risco. Já a a16z anunciou dois novos fundos, um fundo inicial de 750 milhões de dólares (659 milhões de euros) e um fundo de 2 mil milhões de dólares (1,7 mil milhões de euros) em fase de crescimento.

No caso da a16z, esta é a mais recente empresa a lançar uma família de fundos, quatro nos últimos 18 meses, totalizando 3,5 mil milhões de dólares (3mil milhões de euros), incluindo os fundos Bio e Crypto anunciados anteriormente. A16z junta-se assim à GGV, Lightspeed e Sequoia como empresas que criaram famílias de fundos que cobrem setores, fases ou países específicos. Nos últimos 18 meses, a Sequoia criou nove fundos, com quase 9 mil milhões de dólares (7,9 mil milhões de euros) aplicados; a Lightspeed quatro fundos para quase 3 mil milhões de dólares (2,6 mil milhões de euros) ea  GGV quatro fundos com 1,8 mil milhões de dólares (1,5 mil milhões de euros).

Estes fundos e outros semelhantes estão a mudar a natureza das empresas de capital de risco. O capital de risco não é mais uma atividade restrita onde um pequeno grupo de financiadores se sentem à mesma mesa e decidem quais apoiar. As empresas de capital de risco estão crescer de pequenos escritórios para organizações em escala com uma equipa de especialistas em recursos humanos, marketing, finanças, engenharia, jurídico e de investidores para apoiar as atividades de investimento e captação de recursos.

Empresas como a SoftBank, a Sequoia e a GGV têm, hoje, equipas de centenas de pessoas a trabalhar para apoiar a captação contínua de fundos, criação e desenvolvimento de portfólio quer nos Estados Unidos quer no exterior.

Iniciativas de financiamento são um negócio inerentemente local
Segundo Paul Asel, sócio e gerente da NGP Capital e investidor em tecnologia há mais de 25 anos, “as empresas de investimento bancário e capital privado (private equity) podem dar pistas sobre a forma como as empresas de capital de risco podem evoluir. Os principais bancos de investimento e empresas de capital privado resultavam de parcerias mantidas por muitas décadas, até terem necessidade de aumentar a intensidade de capital exigido por mudança na estrutura corporativa. Um exemplo disso é a Merril Lynch. Fundada em 1914, esta corretora de valores mobiliários era considerada uma intrusa no mundo dos bancos. Porém, à medida que mais capital entrava nos mercados de títulos públicos, as corretoras de valores mobiliários, como a Merrill Lynch, entraram em bancos como Goldman Sachs, Morgan Stanley, Lehman e Kuhn Loeb, que então dominavam o banco de investimentos altamente lucrativo”.

Seguiu-se uma vaga de consolidação à medida que as parcerias deram lugar a bancos de investimento de serviço completo, financiados com capital para apoiar as fusões, aquisições e financiamento. Um outro exemplo foi o Lehman, fundado em 1854, que adquiriu o Kuhn Loeb em 1977, que por sua vez foi adquirido pelo American Express em 1984, juntando a experiência bancária do Lehman com o negócio de corretagem da Shearson.

As empresas de capital privado seguiram os mesmos passos. A génese foi semelhante à dos bancos e à medida que o apetite por capital cresceu para financiar aquisições cada vez maiores, o capital privado atraiu os mercados públicos para obter capital maior e mais estável. No caso das empresas de capital privado no mundo tecnológico, a inovação tecnológica tem sido historicamente eficiente em termos de capital, com os líderes da indústria como Microsoft e Oracle, a tornaram-se públicos após conseguir menos de 20 milhões de dólares (17,5 milhões de dólares) em financiamento privado.

Para Asel, “até agora o capital de risco foi protegido da intensidade de capital que impulsionou a consolidação dos sectores do investimento e capital privado. O capital de risco é um negócio difícil e volátil, em que os lucros oscilam substancialmente, a taxa de incumprimento é alta e os retornos são altamente cíclicos. Tal como os sectores de bancário de investimento e capital privado, o capital de risco está a tornar-se mais intensivo em capital. Isto porque, a inovação é mais dispendiosa à medida que os empreendedores e os investidores estimulam encontrar formas de disrupção em vez de agilizar as indústrias”.

Para o investidor, citado pelo TechCrunch, as start-ups exigem mais capital para atingir a velocidade de cruzeiro e estão a entrar em novas áreas de atividade, onde competem com empresas maiores e já estabelecidas. As start-ups que dependem mais dos serviços de construção de empresas oferecidos pelos investidores, não estão “otimizadas” para empresas de capital de risco que precisam desenvolver capacidade de serviço em aquisição de talentos, vendas, marketing de produtos e finanças para acelerar o crescimento de empreendimentos. Hoje, é comum ver nas empresas de venture capital, equipas dedicadas ao apoio ao desenvolvimento de start-ups maiores do que os profissionais ligados ao investimento.

O setor de capital de risco é altamente fragmentado, com mais de 200 empresas só em Silicon Valey. Centenas de empresas de capital de risco estão a começar a sua atividade em cidades e países que até agora eram considerados “desertos” para inovação tecnológica. “O setor de investimentos deverá consolidar-se na próxima década, uma vez que o financiamento confere superioridade aos grandes investidores de risco”, garante Asel.

Alguns pequenos bancos de investimento e firmas de private equity resistiram ao crescimento em escala. Da mesma forma, as empresas de capital de risco em fase inicial e de “seeds” poderão resistir à consolidação. As empresas de capital de risco com experiência em tecnologias específicas, setores industriais ou mercados geográficos poderão produzir maiores retornos. Porém, a intensidade de capital está a aumentar. O setor poderá, em última análise, ser dominado por algumas empresas globais de capital de risco, apoiadas por fundos independentes de sementes e em estágio inicial, com acesso exclusivo a start-ups de alto potencial, conclui o especialista.

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