Entrevista/ “O principal bloqueio à adoção da IA já não é técnico, é humano e cultural”
A adoção da Inteligência Artificial nas organizações já não é apenas uma questão tecnológica. A afirmação é de Inês de Castro Almeida, AI & Transformation Executive Director na Beta-i, que defende que o maior desafio continua a ser humano. O medo, a falta de literacia digital e a ausência de regras claras são, na sua perspetiva, os principais obstáculos mesmo quando a tecnologia está disponível.
Numa conversa sobre a integração da inteligência artificial nas organizações, Inês de Castro Almeida, AI & Transformation Executive Director na Beta-i, partilha como as barreiras culturais e humanas — mais do que as técnicas — condicionam a adoção das ferramentas digitais.
Desde a necessidade de envolver as equipas no desenho de soluções, passando por práticas de cocriação, literacia digital e IA Responsável, até à liderança como catalisador cultural, Inês de Castro Almeida explica como é possível construir confiança, reduzir a resistência e transformar a IA num motor de inovação e valor coletivo.
Porque considera que o maior bloqueio à implementação da IA continua a ser humano e não técnico?
Sem dúvida. O principal bloqueio à adoção da IA já não é técnico, é humano e cultural. Não é por falta de tecnologia, mas sim porque muitas organizações ainda não criaram as condições certas para as pessoas experimentarem e aprenderem em segurança. Há três obstáculos principais: o medo do impacto nos empregos, a falta de literacia digital e a ausência de regras claras sobre o que é permitido e quem supervisiona o uso da IA. Quando não há uma narrativa clara nem orientação, as pessoas sentem-se inseguras e retraem-se ou acabam por recorrer a ferramentas externas sem controlo. Tudo isto é, no fundo, uma questão de confiança: sem alinhamento e clareza, as pessoas travam, o que bloqueia o progresso coletivo da organização.
“O erro clássico é impor soluções de IA às pessoas, em vez de as envolver no desenho e aplicação dessas soluções”.
Na sua experiência, quais são os erros mais comuns que as organizações cometem ao tentar integrar a IA sem envolver ativamente as equipas?
O erro clássico é impor soluções de IA às pessoas, em vez de as envolver no desenho e aplicação dessas soluções. Compra-se tecnologia, comunica-se um grande lançamento, mas esquece-se de redesenhar processos, abrir espaço para feedback e medir impacto real. Resultado? Pilotos bonitos no slide, frágeis na vida real. Outro erro é vender apenas eficiência e corte de custos. Quando a mensagem é “IA para substituir”, gera-se medo, resistência e as pessoas dizem que aderem, mas na prática não se envolvem nem trazem críticas ou sugestões, apenas cumprem o mínimo, sem compromisso real.
Qual é o papel da liderança na criação de uma cultura que aceite e tire partido da IA?
A liderança é o barómetro cultural. Cabe-lhe definir propósito “para quê IA?”, dar o exemplo, experimentar e admitir o que ainda não sabe. Líderes eficazes ligam IA a objetivos concretos de negócio, criam segurança psicológica e integram IA Responsável de raiz: não como travão, mas como parte do design das soluções. Onde há coragem e clareza, a adoção flui.
Como é que a literacia tecnológica influencia a confiança das equipas na utilização de ferramentas de IA?
A literacia digital é o catalisador da confiança crítica. Não é preciso transformar todos em engenheiros, mas sim garantir que todos saibam pedir, interpretar, validar e desafiar resultados, reconhecendo limites e pedindo revisão humana quando necessário. Sem esta base, as equipas ou desconfiam de tudo, ou confiam cegamente. O que queremos é confiança informada, onde as pessoas sentem controlo e não substituição.
“A formação só é transformadora quando é prática, ancorada nos desafios reais do trabalho”.
Que tipos de formação aplicada têm maior impacto na adoção de IA dentro de uma organização?
A formação só é transformadora quando é prática, ancorada nos desafios reais do trabalho. Workshops de cocriação, laboratórios de casos concretos, e integração dos guardrails de IA Responsável desde o início. Na Beta-i combinamos literacia de base, redesign colaborativo de processos e uma abordagem de responsabilidade incorporada desde a fase de desenho. Assim, ética e segurança não são burocracia, mas são uma base para a inovação.
Existe um perfil ideal de colaborador ou equipa para acelerar a adoção da IA, ou acredita que qualquer profissional pode evoluir com a formação certa?
Não existe um “perfil de futuro”. Existe, isso sim, um conjunto de atitudes que fazem a diferença: curiosidade, disponibilidade para aprender, capacidade de questionar resultados e sentido de responsabilidade sobre o impacto das decisões. Qualquer profissional pode evoluir nestas dimensões com o apoio certo. A tecnologia democratizou-se, o que distingue as equipas não é a sua base técnica, mas a capacidade de integrar a IA com discernimento, criatividade e propósito.
A Beta-i tem acompanhado várias organizações na integração da IA. Que aprendizagens destacaria sobre como as empresas podem envolver efetivamente as suas equipas e transformar receio em confiança?
Primeiro, começar pequeno, com disciplina, focando em problemas concretos e com métricas claras. Depois, mais do que entregar soluções, é criar verdadeiros ciclos de aprendizagem, onde as equipas participam na definição dos problemas, na avaliação dos resultados e na melhoria contínua. Por fim, trazer sempre a IA Responsável para o centro da conversa desde o início, com ferramentas acessíveis como o nosso RAI Toolkit, para garantir que ética e governação são tratadas de forma prática e concreta, e não ficam só no papel.
“Quando damos autonomia para experimentar e partilhar, a criatividade floresce, multiplicam-se as pequenas inovações e toda a organização cresce”.
Que práticas concretas recomendaria para envolver colaboradores na construção de soluções de IA?
Workshops de cocriação, desafios de inovação focados em problemas reais e, sobretudo, ferramentas internas que permitem às pessoas criar as suas próprias soluções, resolver problemas do dia a dia e partilhar essas soluções com outros colegas. Quando damos autonomia para experimentar e partilhar, a criatividade floresce, multiplicam-se as pequenas inovações e toda a organização cresce. O reconhecimento público dos resultados tangíveis e a partilha de histórias de impacto são o melhor combustível para inspirar e arrastar o resto da equipa.
Como pode a participação humana contribuir para reduzir o risco de resistência à mudança?
Participação ativa é o antídoto para resistência. Quando a IA é imposta, a reação é recuo, adiamento, ou fuga para ferramentas paralelas. Quando há envolvimento—escolha de processos, definição de critérios, supervisão humana clara—a IA passa a ser um aliado co-criado. Além disso, quem está no terreno identifica melhor riscos e falhas, ajudando a transformar preocupações em requisitos de design claros e acionáveis.
“(…) o que faz a diferença é ver as equipas a aprenderem depressa: detetam um erro, corrigem e já não repetem no ciclo seguinte”.
Que indicadores ou sinais mostram que uma organização está a adotar IA com sucesso, do ponto de vista humano e tecnológico?
Do lado humano, vejo sinais como as pessoas começarem realmente a usar as ferramentas oficiais (em vez de recorrer a atalhos externos), sugerirem melhorias com base no que aprenderam e mostrarem sentido crítico sobre o impacto da IA no trabalho do dia a dia. No fundo, o que interessa é ver mais soluções que realmente entregam valor: seja a poupar tempo, a melhorar decisões ou a simplificar processos. Exemplos simples: menos retrabalho, respostas mais rápidas ao cliente, processos de vendas mais ágeis. Para além dos resultados de negócio como vendas ou eficiência, o que faz a diferença é ver as equipas a aprenderem depressa: detetam um erro, corrigem e já não repetem no ciclo seguinte.
Olhando para os próximos 5 a 10 anos, como imagina a evolução da integração entre pessoas e IA nas organizações?
Nos próximos anos, a IA vai tornar-se invisível no dia a dia das organizações: vai ser infraestrutura, não projeto especial. O que vai diferenciar quem avança é a capacidade de orquestrar dados, conhecimento e processos para criar valor real, não apenas automatizar tarefas. O papel das equipas será orquestrar a criação de valor com IA, definindo o que é qualidade, identificando e desenvolvendo novas áreas de maior valor, focando-se nos intangíveis como criatividade, e liderando a estratégia para orientar o impacto da IA para os objetivos da organização. O futuro pertence às organizações que usam a IA para amplificar a inteligência coletiva, abrir espaço para inovação e dar mais significado ao trabalho das pessoas.








