A Bira dos Namorados reabriu com novas medidas, mas os hambúrgueres de sempre. Depois de quase dois meses a trabalhar em regime de delivery e take-away, Diogo Carvalho, proprietário do restaurante, explica os desafios que enfrentaram e como estão a atrair os clientes para os seus espaços físicos.

A Bira dos Namorados, com restaurantes no centro do Porto e de Braga, reabriu ao serviço presencial, depois de quase dois meses a trabalhar apenas em regime de delivery e take-away. Para este regresso, foram tomadas um conjunto de medidas de segurança e higiene que vão além das anunciadas pela Direção-Geral da Saúde.

Grande parte das medidas implementadas recorrem ao uso da tecnologia. De forma a evitar congestionamentos a reserva poderá, por exemplo, ser feita via online. Mas mesmo que chegue ao local sem reserva e não consiga lugar de imediato poderá utilizar a aplicação de gestão de filas QRQueue.

Além disso, os clientes têm também à sua disposição um menu digital, disponível no site ou através de um QR code acessível de maneira autónoma com um smartphone, revelou Diogo Carvalho, proprietário do Bira dos Namorados, ao Link To Leaders.

Até que ponto o Bira dos Namorados teve de se reinventar perante o cenário de pandemia dos últimos meses?
O início da pandemia exigiu uma rápida resposta, de forma a que salvaguardássemos os nossos dois estabelecimentos, do Porto e Braga, bem como todos os postos de trabalho. O nosso objetivo passou por continuar a trabalhar da maneira possível e permitida pelo Governo, sendo que durante quase dois meses funcionámos apenas em regime de take-away e home delivery, através da UberEats. Para isso, adotámos medidas especificas e rigorosas de segurança e higiene, o que também exigiu um maior esforço financeiro e uma mudança de todo o processo, principalmente na cozinha.

A recetividade, mesmo neste período, foi positiva, pelo que continuámos a ter bastantes pedidos, sobretudo quando lançámos algumas novidades e promoções, iniciativas que se revelaram fulcrais para diminuir o prejuízo e para que pudéssemos manter as portas abertas, mesmo que não presencialmente. Percebemos que é nestes momentos, em que se vivem situações que exigem medidas drásticas, que o mais importante é reinventar-nos e adaptarmo-nos, de forma a levar, através dos melhores produtos, bons momentos às pessoas, indo ao encontro das suas necessidades.

A tudo isto, somou-se uma maior aposta no digital, ao trabalharmos numa restruturação do nosso website, de forma a conseguirmos potenciar ainda mais a vertente de take away e home delivery, não estando 100% dependentes da UberEats. Esta frente de trabalho manteve-se mesmo após a abertura física dos dois espaços e consideramos que é para continuar.

“Quando voltámos a servir refeições presencialmente, quisemos ir além das medidas impostas pela DGS para o setor da restauração, de forma a salvaguardarmos a saúde dos que nos visitam e dos nossos trabalhadores”.

Que medidas práticas adotaram para voltar ao ativo?
Os esforços começaram logo no período do confinamento, com medidas de prevenção e higiene como a criação do selo de qualidade Bira dos Namorados, que nos permitiu salvaguardar ao máximo a segurança dos nossos produtos durante o processo de entrega. Quando voltámos a servir refeições presencialmente, quisemos ir além das medidas impostas pela DGS para o setor da restauração, de forma a salvaguardarmos a saúde dos que nos visitam e dos nossos trabalhadores.

Para isso, planeámos, mesmo no curto período que tivemos desde o anúncio das medidas do Governo, um conjunto de ações que considerámos irem ao encontro das necessidades atuais e que cobrem os diversos momentos da experiência dos que visitam os nossos espaços: desde a reserva ao momento da refeição. Primeiramente, privilegiámos o sistema de reservas prévias, não sendo este exclusivo, para que se desse o mínimo contacto possível no momento de chegada aos nossos restaurantes.

A organização das duas salas sofreu uma restruturação total, sendo que além de reduzir em 50% a nossa capacidade, privilegiámos uma distância de dois metros entre as mesas. Criámos também um menu digital, disponível online e através de um código QR, para que fosse possível que os nossos visitantes tivessem acesso, de forma autónoma, através do seu telemóvel, aos diferentes pratos que disponibilizamos. Com esta tecnologia é possível fazer os pedidos sem o contacto ou diálogo com o funcionário presente no restaurante, sendo que disponibilizamos um tablet a quem não tenha um dispositivo indicado para esse efeito.

Apostámos em alterações como a eliminação dos nossos habituais materiais didáticos para as crianças, que costumavam estar sobre as mesas, oferecendo agora uma caixa com os materiais às crianças e os seus pais, espalhámos, disponibilizamos dispensadores à base de álcool e impusemos a utilização obrigatória de máscara pelos nossos funcionários. Além disso, alterámos ainda as torneiras existentes nos lavatórios das casas de banho, passando a ser automáticas, de forma a impedir que os clientes toquem nos mesmos dispositivos.

Por fim, reforçámos a nossa oferta a nível de home delivery, criando um serviço de entregas próprio, em que gerimos e controlamos todo o processo, o que nos permite levar agora os nossos pratos a mais zonas da cidade do Porto e de Braga, que vão além do raio de entrega da UberEats.

“Assim, com o aparecimento de mais empresas de delivery, as taxas que nos são cobradas, que rondam os 25% a 30%, irão sofrer ajustes a nosso favor, tornando o mercado mais justo”.

Como é que um negócio de restauração mais tradicional como o vosso, encara a concorrência de start-ups do setor que criaram projetos de home delivery?
No nosso caso, consideramos este género de start-ups como parceiros e uma extensão dos nossos restaurantes. O Bira dos Namorados já trabalhou com alguns destes operadores, sendo, neste momento, um restaurante exclusivo da UberEats. Achamos benéfico o aparecimento de novos operadores, pois acreditamos no mercado e no seu ajuste. Assim, com o aparecimento de mais empresas de delivery, as taxas que nos são cobradas, que rondam os 25% a 30%, irão sofrer ajustes a nosso favor, tornando o mercado mais justo. Por outro lado, consideramos que ao trabalharmos com estes operadores, chegamos a mais potenciais clientes, ou seja, é como se aumentássemos a capacidade dos restaurantes.

Na sua opinião, estamos perante uma tendência de home delivery pontual ou algo a que os portugueses já se renderam e que veio para ficar?
Claramente, veio para ficar. Já mesmo antes da pandemia esta era uma opção com cada vez mais importância para o setor da restauração, sendo já valorizado o facto de se poder usufruir de uma refeição no conforto de casa. Agora, com toda a preocupação a nível de higiene e segurança, consideramos que o home delivery será cada vez uma maior fonte de rendimento para os estabelecimentos, ganhando mais força e importância. No nosso caso, que penso que seja semelhante ao restante setor, cerca de 50% do nosso volume de negócio atual parte do serviço de home delivery, através da UberEats, enquanto que antes correspondia entre apenas 5% a 10%.

Esta vai ser mesmo uma nova realidade a que todo o setor terá de se adaptar e que exige um maior esforço de inovação, de comunicação, marketing e de outras frentes, devido à elevada oferta e concorrência que existe nestas plataformas.

“A palavra-chave que a restauração deve ter em conta é a inovação e adaptação, nomeadamente ao digital. Nesse sentido, já não conseguimos desassociar a restauração do online, sendo este é um setor que já não passa somente pelo espaço físico”.

E como é que a restauração tradicional pode concorrer com esta crescente mudança do setor para o digital?
A palavra-chave que a restauração deve ter em conta é a inovação e adaptação, nomeadamente ao digital. Nesse sentido, já não conseguimos desassociar a restauração do online, sendo este é um setor que já não passa somente pelo espaço físico. Os estabelecimentos têm de criar produtos e campanhas, de forma a que haja sempre novidades que cheguem às pessoas e aos canais onde elas estão. Isto, através de estratégias de comunicação que aliem redes sociais, site, entre outras plataformas, para que a experiência do nosso visitante passe também pelo online.

No caso do Bira dos Namorados e de outros estabelecimentos, a tecnologia está ainda a ser usada como alavanca para garantir a segurança em todo o processo da experiência do cliente, desde a reserva até ao momento da refeição, escolhendo os pratos através de um menu digital disponível através de um código QR, que evita qualquer contacto com o funcionário.

Neste sentido, consideramos ainda fulcral que o setor passe a ver o home delivery como uma opção viável e que ganhará cada vez mais importância no futuro, sendo, por isso, essencial manter uma presença cuidada nas plataformas digitais de entrega ao domicílio. A restauração vai mudar, sendo que nós, como proprietários, temos de nos adaptar a esta nova realidade e reinventarmo-nos.

Como é que encaram o negócio nos próximos meses?
Os próximos meses serão um período de adaptação, de forma a que as pessoas possam voltar a sentir vontade de ir ao restaurante e a terem momentos de convívio. Para isso, será necessário um grande esforço do nosso lado para voltar a ganhar a confiança das pessoas e a fazer com que queiram retornar aos estabelecimentos, sendo também importante o reforço do home delivery e takeaway, que neste momento serão tão importantes como o serviço presencial.

Consideramos que nos espera um processo progressivo, sendo necessário que todo o setor vá reavaliando a situação e percebendo se estamos no caminho certo, também tendo em conta a evolução da pandemia e esperando que não haja retrocesso. Por tudo isto, sabemos que estaremos muito longe do nosso trabalho habitual, mas só depende de nós contrariar esta tendência.

“Já o estamos a fazer com a nossa plataforma de home delivery própria, disponível no nosso site. Agora, com esta nova funcionalidade, já conseguimos entregar os nossos produtos às pessoas que preferem usufruir das refeições em casa ou num jardim”.

Equacionam-se aventurar-se também na área do delivery ou outras modalidades que ajudem a potenciar o negócio?
Já o estamos a fazer com a nossa plataforma de home delivery própria, disponível no nosso site. Agora, com esta nova funcionalidade, já conseguimos entregar os nossos produtos às pessoas que preferem usufruir das refeições em casa ou num jardim. Localidades como Matosinhos e Maia, no Porto, Vila de Prado, Aveleda e Adaúfe, em Braga, entre outras, que estão a uma distância de até 12 km dos dois restaurantes, estão abrangidas por este serviço, que nos permite controlar todo o processo de entrega e garantir uma maior qualidade e segurança dos produtos, assegurando a que chegam à temperatura e estado ideal.

Para escolher esta opção, basta dirigir-se ao site e selecionar “takeaway e delivery”, onde estão presentes todas as localidades abrangidas. A taxa de entrega varia consoante a distância do local ao restaurante.

Quantos espaços têm atualmente e em que localizações?
O Bira dos Namorados é constituído por dois estabelecimentos: um no centro do Porto e outro em Braga. Abrimos o primeiro espaço em 2014, em Braga, sendo que o segundo nasceu em 2018, ano em que quisemos levar os sabores, ingredientes e cultura minhota à invicta.

Como surgiu o projeto Bira dos Namorados? Quem são os seus fundadores?
O Bira dos Namorados foi criado em 2014, em Braga, por mim e pela Mariana Marques, com o objetivo de partilharmos, através da cozinha, a nossa paixão pela cultura do Minho, região onde ambos estudámos e crescemos. Nesse sentido, tivemos como objetivo central com o nascimento do projeto e, que ainda se mantém, divulgar a cultura da região sem ter de a visitar, através da cozinha. Queremos ser o ponto de referência para aqueles que vivem em Braga, e, mais tarde, no Porto. Além disso, também para todos os que passam por estas cidades e querem conhecer mais sobre a cultura minhota.

Para criar o projeto baseámo-nos na tradicional moda dos lenços dos namorados e no cancioneiro regional, oferecendo essencialmente pratos e iguarias inspirados na gastronomia minhota, acompanhados de uma decoração singular e que nos remeta à tradição.

Respostas rápidas:
O maior risco: o impacto da pandemia no Turismo.
O maior erro: depender de um chef.
A maior lição: gestão de recursos humanos, aprender a lidar com muitas pessoas e repartir as responsabilidades.
A maior conquista: abrir um segundo restaurante.

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