“O que é que as cidades brasileiras de Araraquara e São Paulo, as cidades norte-americanas de Boston e Orlando, o bairro lisboeta de Chelas ou um dos resorts mais luxuosos em Portugal, têm em comum? Absolutamente nada, mas foi a partir de experiências que vivi nesses lugares que aprendi que, mais do que pensarmos no futuro, precisamos, isso sim, de viver o presente.”

Há alguns anos estive presente no casamento de um casal de brasileiros, ambos nos seus sessenta anos de idade, a convite de um dos seus membros, à data colega da minha esposa na Universidade de São Paulo. O casamento decorreu em Araraquara, pequena cidade do interior do Estado de São Paulo, no Brasil, cerca de 300 quilómetros a norte da capital paulista.

Face à longa deslocação que nos esperava, aceitámos o simpático convite de um outro colega da minha esposa para passar o fim de semana na sua fazenda, antigo cafezal, na remota localidade de Bocaína, numa casa senhorial que me fez viajar no tempo, como se estivesse no início do século passado.

Mas alguma vez eu poderia ter pensado, ou sequer imaginado, que, sendo português, um dia na minha vida iria passar por tão improváveis lugares, por ocasião da festa de casamento de um casal de brasileiros, mais ainda daquela idade? Com certeza que não.

Uns anos antes deste episódio, tive a oportunidade de participar num programa académico em Boston, nos Estados Unidos, onde conheci várias pessoas de diversos pontos do mundo, sendo dois dos meus colegas brasileiros e residentes em São Paulo.

Cerca de dois anos volvidos, aquando da minha mudança de residência para esta cidade, contatei um deles com o objetivo de obter algumas dicas sobre o modo de vida nessa grande metrópole, de mais de 20 milhões de habitantes e uma vasta e impressionante malha urbana – uma verdadeira “selva de pedra”, como aliás é apelidada.

Pois qual não foi o meu espanto, quando esse meu ex-colega partilhou comigo o endereço do seu apartamento, onde nos iríamos encontrar, precisamente no prédio ao lado àquele em que eu arrendara um apartamento. Isto numa cidade com milhares de prédios!

Uns anos mais tarde tive o grato privilégio de poder viajar com a minha família até à Flórida, nos Estados Unidos, para visitar os famosos parques da Disney e afins.

Certa noite saímos para jantar num restaurante em Orlando e o garçon levou-nos, de forma aleatória, até uma mesa vaga…precisamente ao lado da mesa onde jantavam uns amigos nossos de São Paulo – sem que soubéssemos, sequer, que eles por lá andavam!

Num dos dias seguintes fomos até à base da NASA, no Cabo Canaveral, para um programa mais educativo…onde nos cruzamos, por mero acaso, com uns amigos de Lisboa que há anos não víamos!

Mas alguma vez eu poderia ter pensado, ou sequer imaginado, em todas estas improváveis e inacreditáveis coincidências? Certamente que não.

Quando tinha 15 anos de idade, os meus pais decidiram mudar-se de Santarém para Lisboa. Fruto da condição de militar do meu pai, optaram os meus pais, e muito bem, por usufruir da oportunidade de arrendar um apartamento dos serviços sociais das forças armadas, situado no bairro de Chelas (hoje pomposamente chamado de Marvila).

Após anos de vida na pacata e histórica cidade de Santarém, lá fui eu morar para esse famigerado bairro, pejado de habitação social, mas onde, diga-se, nunca tive qualquer problema e, para ser sincero, até gostei de viver e onde fiz alguns amigos para a vida.

Longe estava eu de imaginar que, quase três décadas depois, viria a trabalhar e viver num dos mais idílicos e luxuosos resorts do país e da Europa, junto à praia e no meio de maravilhosas paisagens de golfe.

Mas alguma vez eu poderia ter pensado, ou sequer imaginado, que iria viver em lugares ou contextos tão antagónicos e contrastantes? Naturalmente que não.

Quando volto atrás no tempo e recordo estes vários e diferentes momentos e experiências da minha vida, duas ideias surgem-me de imediato:

  • Que, afinal, talvez não valha a pena planearmos ou pensarmos demasiado no nosso futuro, porque este acabará, invariavelmente, como aliás se percebe pelos exemplos deste texto, por nos trazer um sem número de situações inesperadas, mais ou menos improváveis, que jamais conseguiríamos antecipar ou sequer imaginar;

mas, também, e não menos importante,

  • Que o futuro de cada pessoa não deixará de depender, em boa medida, da ambição, coragem, atitude e determinação que a mesma decida imprimir na sua vida perante as diversas oportunidades e desafios que esta lhe vai colocando pelo caminho (apesar da influência de forças exógenas que não conseguimos controlar).

Moral desta história: deixemos o tempo fluir de forma natural, desfrutando do presente na sua plenitude e não pensando excessivamente no futuro (ainda que nos possamos – e devamos, digo eu – entreter-nos a imaginá-lo), porque este é imprevisível e, em certa medida, inimaginável, podendo muito bem passar-se (em sentido figurado) numa qualquer cidade de Araraquara ou noutro remoto e improvável sítio algures por esse mundo fora!

Comentários

Sobre o autor

Avatar

Tiago Rodrigues conta com mais de dez anos em funções de gestão e administração em empresas de energia, infraestrutura, turismo e imobiliário e oito anos como consultor, tendo experiência de vida, profissional e académica em Portugal, Brasil, Reino Unido e... Ler Mais