Entrevista/ “No Dubai, não se olha a nacionalidades, olha-se para empresas, projetos e pessoas com qualidade e pensamento estratégico”

Paulo Paiva dos Santos, presidente do Portuguese Business Council no Dubai

“O mercado do Dubai é extremamente exigente. O sucesso depende menos da nacionalidade e mais da preparação, profissionalismo, visão de longo prazo e capacidade de execução. Quando bem preparados, os empresários portugueses competem ao mais alto nível”, afirma Paulo Paiva dos Santos, que assumiu a presidência do Portuguese Business Council no Dubai.

Paulo Paiva dos Santos assumiu recentemente a presidência do Portuguese Business Council (PBC), no Dubai, com o objetivo de liderar uma equipa que promove a excelência nacional e o reforço da presença portuguesa nos Emirados Árabes Unidos (EAU). O PBC funciona sob a égide da Dubai Chambers, o motor do desenvolvimento económico e do crescimento empresarial do Dubai.

Com formação em Liderança e Estratégia em Produtos Farmacêuticos e Biotecnologia, pela Universidade de Harvard, e em Liderança Estratégica, pela Universidade de Oxford, o empresário tem mais de três décadas de experiência. Fundou a Generis Farmacêutica, em 2002, referência nacional e internacional em medicamentos genéricos, e esteve na origem da Equalmed – Associação Portuguesa de Medicamentos pela Equidade em Saúde. É o fundador e presidente da INVENTIS, um grupo diversificado que atua nas áreas da saúde, biotecnologia e comércio internacional.

Assumiu recentemente a presidência do Portuguese Business Council no Dubai. Quais são as suas principais prioridades para este mandato e que marca gostaria de deixar?

Assumo este cargo com todo o orgulho e faço-o depois de vários anos e projetos empresariais nacionais e internacionais de sucesso. Tenho agora a possibilidade formal de partilhar com outros empresários tudo o que aprendi em mais de trinta anos de atividade, os últimos dos quais passados no Dubai, onde me adaptei sozinho e sem ajuda de uma organização semelhante à que agora lidero e que penso que será muito útil para as empresas portuguesas.

A visão para este mandato é bastante clara: menos quantidade, mais qualidade; menos improviso, mais estratégia. As prioridades passam por reforçar o posicionamento institucional do Portuguese Business Council no Dubai; criar valor prático, com foco em resultados concretos e não apenas em eventos sociais; atrair empresas portuguesas com ambição internacional, bem preparadas e com propostas de valor diferenciadas; fortalecer parcerias locais, institucionais e privadas, nos EAU e promover uma imagem moderna, inovadora e credível de Portugal, alinhada com qualidade, know-how e confiança.

“O Dubai representa, para mim, um ecossistema único. Está aberto à inovação, é altamente regulado, mas extremamente orientado para resultados, escala e excelência”.

Num contexto de instabilidade geopolítica global, como a atual guerra, que impactos vê para o ambiente de negócios nos Emirados Árabes Unidos e que estratégias recomenda às empresas portuguesas para manterem resiliência e segurança nos seus investimentos?

Há alguma apreensão, o que é natural, mas o clima geral é de confiança no governo local e na capacidade das autoridades do emirado para lidar com situações de instabilidade regional. O Dubai tem um historial sólido de gestão de crises. As pessoas conhecem esse historial e sabem que o sheik rapidamente repõe a normalidade. Este conhecimento e confiança ajudam à ausência de reações precipitadas por parte da comunidade estrangeira residente.

Além do governo local, destaco o papel exemplar da Embaixada e do Embaixador Fernando Figueirinhas. Do nosso lado, continuamos a trabalhar como normalmente e esta semana até fechamos a membership de duas empresas portuguesas, uma das quais um grande grupo.

Tem-se registado um aumento do interesse das empresas portuguesas pelos Emirados Árabes Unidos. O que está a tornar este mercado particularmente atrativo neste momento?

O Dubai representa, para mim, um ecossistema único. Está aberto à inovação, é altamente regulado, mas extremamente orientado para resultados, escala e excelência. Em termos económicos, é o centro do mundo, onde tudo pode acontecer a quem apostar em projetos sólidos e se conseguir adaptar. E as empresas portuguesas têm capacidade para estar no centro do mundo.

Na sua experiência, quais são os erros mais comuns cometidos pelas empresas portuguesas quando tentam entrar no mercado do Dubai?

Diria que não são tanto erros, mas a perceção errada de que o sucesso no Dubai é fácil e rápido. O Dubai é um mercado para o médio e longo prazo e é preciso investir tempo, recursos e capital. Quando se fala num mercado tão exigente, há espaço para novas empresas, mas todas têm de estar sempre no seu melhor, para se enquadrarem. Há espaço para os melhores, não para todos.

Até que ponto a adaptação cultural e a escolha dos parceiros certos são determinantes para o sucesso nos EAU?

Como em todos os mercados, é vital entendermos em pleno onde estamos e como tudo funciona. Todos os mercados têm regras escritas (ambiente regulatório, estruturação legal e operacional) e não escritas (adaptação do produto ou serviço ao mercado local e compreensão do ambiente cultural) e só é possível ter sucesso dominando estas regras.

“O apoio não passa apenas pela presença em eventos sociais ou apresentação de players locais. Vai desde a estratégia de entrada no mercado até ao desenvolvimento comercial  (…)”.

Como pode o Portuguese Business Council apoiar, de forma prática, as empresas portuguesas que querem iniciar ou consolidar a sua presença no Dubai?

Ao longo do meu percurso profissional no Dubai, estive direta ou indiretamente envolvido no apoio à entrada e crescimento de dezenas de empresas, desde start-ups a empresas já consolidadas, sobretudo, europeias e especificamente portuguesas. O apoio não passa apenas pela presença em eventos sociais ou apresentação de players locais. Vai desde a estratégia de entrada no mercado até ao desenvolvimento comercial e procura de parcerias. O foco está em casos de sucesso sustentáveis que reforcem a reputação das empresas portuguesas na região.

Que setores considera terem maior potencial de crescimento para as empresas portuguesas nos Emirados Árabes Unidos nos próximos anos?

Neste momento e, acredito, num futuro próximo, as empresas portuguesas com presença relevante estão em setores como construção e engenharia; arquitetura e design; tecnologia e IT; hotelaria e restauração; FMCG premium e produtos alimentares; moda, calçado e lifestyle e saúde e bem-estar. Mais do que grandes grupos, destaca-se cada vez mais a presença de empresas especializadas, ágeis e com forte proposta de valor, que encontram no Dubai um mercado ideal para escalar.

“(…) os portugueses são, em geral, bem vistos no Dubai e associados a qualidade e fiabilidade; boa engenharia e capacidade técnica; criatividade, design e inovação (…)”.

Como é que o Dubai e os investidores da região veem Portugal enquanto parceiro económico e destino de investimento?

No Dubai, não se olha a nacionalidades, olha-se para empresas, projetos e pessoas com qualidade e pensamento estratégico. Mas posso afirmar que os portugueses são, em geral, bem vistos no Dubai e associados a qualidade e fiabilidade; boa engenharia e capacidade técnica; criatividade, design e inovação e flexibilidade e capacidade de adaptação.

De que forma o seu percurso internacional e a experiência nos setores da saúde, biotecnologia e comércio internacional influenciam a forma como encara esta liderança?

A minha liderança no Portuguese Business Council (PBC) no Dubai estará baseada na minha experiência como empresário em diversas áreas e  geografias. Acredito que tenho muito para ensinar ou, pelo menos, que a partilha das minhas experiências possa ser útil para outros empresários. É diferente ouvir recomendações de uma pessoa como eu, que tem sucesso comprovado, desde a criação da Generis, em 2002, até aos meus negócios dos últimos anos, sedeados no Dubai. De qualquer forma, não estou sozinho no Portuguese Business Council, havendo outras pessoas com valor para ajudar os empresários portugueses, além dos contactos e encontros que poderemos facilitar.

Que ambição tem para o Portuguese Business Council a médio e longo prazo enquanto plataforma de representação da comunidade empresarial portuguesa?

Queremos fazer um trabalho sério e estratégico, ajudando as empresas portuguesas a terem sucesso no Dubai. A medida do sucesso será o número de projetos sustentáveis que ajudamos a estabelecerem-se. Resultado disso será o prestígio institucional do Portuguese Business Council. Mas o foco está nas empresas.

Que conselho deixaria às empresas portuguesas que estão a ponderar dar o primeiro passo para o mercado dos Emirados Árabes Unidos?

O mercado do Dubai é extremamente exigente. O sucesso depende menos da nacionalidade e mais da preparação, profissionalismo, visão de longo prazo e capacidade de execução. Quando bem preparados, os empresários portugueses competem ao mais alto nível. O conselho é apostar em projetos sólidos e bem estruturados, tendo conhecimento da realidade que vão enfrentar. Parte do nosso papel será também esse, apoiar na estratégia de entrada no mercado a estruturação legal e operacional, a adaptação do produto ou serviço ao mercado local, o desenvolvimento comercial e as parcerias e a compreensão do ambiente regulatório e cultural.

 

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