No início do romance de Lewis Carrol, Alice a protagonista persegue o Coelho Branco até a sua toca que se revela longa, profunda e cada vez mais estreita. Quando chega ao final, para conseguir entrar na pequena porta surge-lhe um bolo com um bilhete em que se lê: coma-me.

Recorro a esta descrição para ilustrar porque é aplicado o termo rabbit hole aos critérios como são sugeridos conteúdos, de forma associativa nas nossas perseguições online, aos coelhos brancos que pululam na internet.

A forma, dimensão e profundidade das tocas varia mediante o poder de gerar ou agregar conteúdos das plataformas a que acedemos. As principais redes sociais, serviços de streaming como HBO e Netflix, Amazon e claro está, Google e Youtube serão verdadeiras crateras onde caímos diariamente para nos informar, consumir, entreter e… opinar.

Pela primeira vez na história, Donald Trump, na convenção que formalmente o nomeou como candidato Republicano à Presidência dos E.U.A., não entregou o programa de governo para os quatro anos seguintes aos delegados do partido. O que um assunto tem a ver com o outro? A mim parece-me que tem tudo a ver. Trump gere com mestria a perceção do público e percebe – tal com o algoritmo do Google – qual é o seu público.

Define o seu público-alvo e é só para eles que comunica. Sabe melhor que ninguém que escrever um programa eleitoral seria apenas desviar o seu eleitorado das mensagens-chave que geram impacto e que se transformam em votos. Tratar com densidade temas como economia, política externa, indústria, educação e saúde não passam, para Trump, de desviar a atenção do essencial: fixar o seu eleitorado.

Nada é deixado ao acaso, o palco não poderia ser maior: nada menos que a Casa Branca. Se por um lado o programa é inexistente, o seu discurso de nomeação, segundo o American Presidency Project, foi o segundo maior da história, com 70 minutos. O primeiro? Trump em 2016… como não poderia deixar de ser.

O texto reflete e repete à exaustão palavras que incorporam uma matriz que pretende transmitir segurança (law and order), por oposição ao caos e ao medo (socialism, chaos, riots, destroyer of american jobs) e polvilhado de esperança (confidence in the bright future, effective, incredible service to our nation). Donald Tump e a sua equipa parecem usar as melhores práticas de SEO (Search Engine Optimization) nos seus conteúdos, estudando em detalhe o que os perfis-alvo da sua audiência querem ouvir e ler.

Em 2016 esta fórmula de sucesso, dirigida pelo chefe de campanha agora caído em desgraça Brad Parscale, escavou milhares de tocas nos recantos mais profundos e obscuros da internet que respondiam ao medo, ansiedade e revolta de uma classe média, com rendimento estagnado desde o início do século XXI.

Na era do micro-profiling não deixa de ser interessante que se utilizem os media tradicionais para veicular mensagens simples para milhões de pessoas. Roger Allies, fundador e CEO da Fox News, antecipou este fenómeno ao perceber que não é necessário criar um mainstream media com foco em toda a população de um país. Basta uma faixa da sociedade. Desde que seja uma faixa com largas dezenas de milhões. A internet é a pièce de résistance de todo este fenómeno: pega na informação amplificada e serve-a aos pedaços ao sabor do que cada nicho-alvo pretende consumir.

Sendo um profundo apologista da world wide web preocupa-me profundamente este universo onde vivemos e, sobretudo, onde os nossos filhos vivem. A realidade sugere-nos que os algoritmos do Google e Youtube têm muito mais facilidade em apresentar conteúdos radicalizados do que moderados.

Calculo que para a linguagem binária seja mais fácil reconhecer o preto e o branco. O cinzento, que representa o centro e o discurso moderado, não serão tão fáceis de catalogar e associar a perfis-alvo. São por isso, mais fáceis de empacotar e associar a produtos comerciais: o combustível que faz o motor destes gigantes trabalhar. Em contexto COVID-19 este fenómeno tem tendência a agravar pela natureza destrutiva do vírus, no que diz respeito a vidas humanas e às condições socioeconómicas que tenderão a extremar posições na praça pública.

O mundo não pode caber em apenas duas tocas – a dos que estão a favor e dos que estão contra. Devemo-nos lembrar, todos os dias, que o multilateralismo incorporado nas sociedades modernas do pós-guerra e o acesso a uma informação livre e plural é fundamental, para que vivamos em paz e prosperidade.


Ricardo Carvalho iniciou a sua carreira na área da publicidade, tendo sido convidado aos 23 anos para diretor executivo de uma start-up de new-media. Atualmente é CEO do Grupo Lisbon Project e Business Angel. É especializado em marcas de consumo e institucionais, tendo investido e fundado 10 outras empresas nos setores de publicidade, marketing e tecnologias de informação.

Ao longo da sua carreira trabalhou com clientes como a Presidência da República Portuguesa, Ministério dos Negócios Estrangeiros; Chicco, Citroën, DS Automobiles; Global Wines; Peugeot ou Kia Motors.

O seu percurso profissional levou-o a desenvolver projetos em diferentes geografias, começando por diversos países da União Europeia, EUA, Médio Oriente e África Austral (SADC). Ricardo Carvalho é finalista do curso de Comunicação, Publicidade e Marketing da Universidade Autónoma de Lisboa.

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