Como ponto prévio a este texto, deixo já bem claro uma coisa: não quero falar sobre o Covid-19!

Aliás, depois de quase dois meses de confinamento/isolamento profilático/reclusão sedentária em prol da defesa da comunidade em geral, rodeado da ameaça externa do pululante demónio invisível que transformou familiares, amigos e a generalidade das pessoas em potenciais ameaças, penso que todos nós o que mais desejamos será escapar um pouco do léxico comum das últimas semanas, evitar falar de estatísticas diárias, emergências e calamidades, deslocações entre concelhos, apoios estatais à economia, escola virtual, webinars, Zoom e Microsoft Teams, feriados nacionais, Fátima, festa do Avante e futebol!

Prefiro pensar que o Mundo está em reestruturação profunda e que nesta fase todos nós acabamos por passar exatamente pelo mesmo fenómeno, quer queiramos quer não, obrigando a espécie humana a evoluir por um caminho que, de uma forma ou de outra, já se adivinhava há muito tempo (e aqui aqueles rapazes lá de Hollywood são mesmo visionários quando escrevem alguns guiões que acabam por ter uma acuidade e atualidade que é deveras impressionante).

Nestes dias de tempestade, quantos já se aperceberam dos pássaros que se fazem ruidosamente ouvir nas ruas, que se aventuram e nos visitam em beirais de janelas, que parecem pouco a pouco retomar o seu espaço nestas selvas de cimento em que vivemos, inundando-nos com a sua melodia prazenteira? Saímos à rua, desconfiados e atentos, mas cada pessoa por que passamos olha para nós com um ar de comunidade distinto, diferente daquele que tinha há apenas dois meses, como se connosco partilhasse o orgulho de sermos sobreviventes, tecido num rasgado cumprimento que antes nem teria lugar, salvo em cidades, vilas ou aldeias mais pequenas. O sorriso de quem nos recebe no comércio do bairro, recém-aberto, da vida que lentamente volta a bulir na pedra calcária das ruas da cidade.

E o som? Aquele que já não tem o constante zunir dos motores dos aviões, do ruído das rodas nas calçadas, o toque incessante dos comboios a rasgarem furiosamente os carris? Ouvem-se os pensamentos de outra forma, de entre o smog que se levantou temporariamente nestes dias e deu lugar a uma palete de cores pouco comum, que permite ver as flores e plantas que desabrocharam nos últimos meses, longe da intervenção humana, tendo como pano de fundo um bucólico barco que atravessa o rio.

Em casa somos diferentes, ou deveríamos ser. Centramo-nos no nosso reduto familiar, naqueles que nestes momentos precisam de nós, dando graças sempre que a saúde nos continua a bafejar mesmo quando outros aspetos possam não parecer tão positivos. Criamos rotinas diferentes, valorizamos o ar puro e livre em detrimento da reclusão do lar, progredimos nas tecnologias e aprendemos com os nossos filhos a recentrar prioridades. Alguns descobrem talentos únicos para artes manuais, reinventam atividades de infância e matam o saudosismo típico das crises de meia-idade.

Perdoem-me assim o tom excessivamente lamechas e introspetivo do texto. Não quero mesmo falar do Covid-19! Pelo menos não quero falar de tudo aquilo que temos visto de negativo à volta desta praga que assolou a Terra. Quero falar daquilo que estamos a ganhar, mesmo que o preço seja elevado. Num momento de crise, só assim conseguiremos ver o amanhã com alguma esperança!

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Nuno Madeira Rodrigues é atualmente Chairman da Lusitano SAD e da BDJ S.A. Anteriormente, foi Administrador do Grupo HBD e Presidente do Conselho de Administração da Lusitano, SAD, e do Conselho Fiscal da Associação Lusófona para as Energias Renováveis. É... Ler Mais