Opinião

Na instabilidade, a consistência lidera!

José Crespo de Carvalho, presidente do Iscte Executive Education

Consistência é a capacidade de manter direção, critério, comportamento e qualidade ao longo do tempo, mesmo quando tudo muda. E se tudo muda mesmo.

Um líder consistente não muda de princípios, de direção e de orientação apenas porque o vento muda e o contexto se torna turbulento.
Exige-se consistência para além do contexto. Ou apesar do contexto.
Pode mudar-se o método, o ritmo ou as prioridades, mas não deve perder-se o foco, a orientação.
Isso dá segurança às equipas. E equipas seguras executam melhor.
Consistência cria confiança.
Sem confiança não há liderança, apenas hierarquia.
Consistência cria reputação.
Pela positiva, consistência traz previsibilidade.
Reduz a espuma dos dias.
Contém o medo.
Elimina o desgaste.
Ajuda as equipas a perceber o que conta, o que não conta e para onde se vai.
Pela negativa, a inconsistência destrói.
Torna a direção impercetível.
Avança-se para se recuar.
Exige-se foco para logo após se deixar entrar a dispersão.
Todos percebem o ziguezaguear. E isso baixa a convicção.
Se o contexto é imprevisível, mutável, com rearranjos geopolíticos, guerras, inflação e volatilidade, a consistência torna-se ainda mais importante.
Quando o exterior é instável, o interior da organização não pode ser caótico.
É também nestes contextos que a consistência deixa de ser uma virtude simpática.
Se já o era, passa ainda mais a ser condição de liderança.
Há, por isso, traços de liderança que surgem de forma mais natural: firmeza, presença, capacidade de contenção do pânico, serenidade sob pressão.
Isso dá trabalho.
Requer treino. Disciplina. Autocontrolo. Método.
É aqui que a formação de executivos tem um papel decisivo.
A boa formação não serve para acumular conceitos.
Cria consistência de pensamento, de decisão, de linguagem e de ação.
E torna-se o substrato, a sustentação do critério em presença de pressão.
Evita oscilações e decisões titubeantes perante cada crise.
Ensina a distinguir convicção de teimosia e adaptação de desnorte.
Um executivo bem formado, um líder com boa formação, decide melhor porque pensa melhor.
E pensa melhor porque ganhou instrumentos, modelos, exposição a casos, contraditório e treino.
A formação ajuda a repetir a qualidade.
E repetir qualidade é uma das formas mais exigentes de consistência.
Consistência é estabilidade no essencial e flexibilidade no acessório.
No final, as organizações não precisam de líderes que dancem ao ritmo do barulho dos dias.Precisam de líderes que permitam foco, sustentação e continuidade.
E isso está com a pessoa. Parte é biológico, sim. Mas uma boa parte trabalha-se. E muito.

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José Crespo de Carvalho

José Crespo de Carvalho

Licenciado em Engenharia (Instituto Superior Técnico), MBA e PhD em Gestão (ISCTE-IUL), José Crespo de Carvalho tem formação em gestão, complementar, no INSEAD (França), no MIT (USA), na Stanford University (USA), na Cranfield University (UK), na RSM (HOL), na AIF (HOL) e no IE (SP). É professor catedrático do ISCTE-IUL, presidente da Comissão Executiva do ISCTE Executive Education e administrador da NEXPONOR. Foi diretor e administrador da formação de executivos da Nova SBE e professor catedrático da Nova SBE (Operations... Ler Mais..

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