No dia 8 de março, a demógrafa Maria João Valente Rosa disse no jornal Público, comentando os vários estudos fantásticos que a Fundação Francisco Manuel dos Santos tem feito sobre as mulheres, uma frase que me fez pensar muito: “A sociedade será igualitária quando tivermos mulheres incompetentes como CEO de empresas”.

Esta frase provocou-me dois tipos de pensamentos. O mais imediato foi, isto é uma terrível verdade, a igualdade só se consegue quando o extremo pior se equipara. Mulheres competentes sabemos que há em todos os setores de atividade. Aliás, em muitos setores, mais do que homens, como vários estudos comprovam, essencialmente devido a que já há mais mulheres escolarizadas licenciadas do que homens. Contudo, só as muito competentes com provas dadas, muito bem relacionadas e com muita vontade é que conseguem chegar às posições de topo nas empresas. Uma percentagem pequeníssima. Há uma exceção ao nível das dificuldades para chegar ao topo, o empreendedorismo.

Para uma mulher competente, com perfil de empreendedora e com um projeto interessante do ponto de vista de atração de investimento ou de tração de clientes, a criação da sua própria empresa pode ser uma forma mais fácil de chegar ao topo e demonstrar as suas capacidades de liderança, a sua visão estratégica e a sua habilidade para fazer acontecer. Temos vários exemplos em Portugal nesta categoria, de pequenas e grandes empresas, mais do que exemplos de mulheres CEO.
Como já disse no âmbito de outro artigo no Link to Leaders, é mais difícil ser empreendedora do que CEO numa empresa multinacional, mas a verdade é que este é um caminho, que embora não sirva para todas, pode colocar as mulheres em posições onde podem ter outras oportunidades que o mercado de trabalho por conta de outrém não lhes dá.

Para as que têm um perfil mais avesso ao risco e que procuram posições de liderança, ainda há muito caminho para fazer. Como mães e pais, temos um papel fundamental neste caminho através da educação dos nossos filhos e filhas na igualdade de oportunidades profissionais. Todas as coisas importantes começam em casa, é em casa onde se plantam as sementes essenciais para a vida.

O outro pensamento que me surgiu quando li a frase, foi a revolta por termos CEOs incompetentes – homens e mulheres – e não fazermos nada ou muito pouco para chamar a atenção sobre a sua falta de capacidade ou de conhecimento. Se nós, homens e mulheres, desejamos uma cultura de competência, temos que ser consistentes nas opções profissionais que fazemos e no feedback que damos às nossas equipas e aos nossos pares.

Sou consciente de que o que estou a dizer é difícil de pôr na prática. Porque existem redes de interesses criados, porque não há outras opções, porque corre-se o risco de se ser afastado. Mas se não fizermos uma mudança a este nível, continuaremos igual, a queixar-nos de tudo e a dizer que não temos poder para mudar nada e usando essa frase tão portuguesa “É mesmo assim”.

Se deixarmos de lado o grupo de cidadãos que de facto não tem outras opções profissionais, por limitação de competências, ainda existe um conjunto grande que pode escolher. Para estes que têm mais opções, exerçam-nas. Mostrem que escolhem a competência ao salário. Mostrem que elegem a competência à entrada em redes de favores e interesses obscuros. Mostrem discordância quando as opções tomadas não são as mais corretas. Mostrem que defendem a meritrocacia e pratiquem. Mostrem que ser competente no exercício de funções de Direcção é absolutamente essencial para evoluirmos como pessoas, como empresas e como país.

É duro, sim, mas é a única forma de sair “dos mundos” liderados por incompetentes, sejam de homens ou de mulheres.

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Belén de Vicente é fundadora e diretora geral da Medical Port, a porta de entrada para cuidados médicos em Portugal, para quem vem de outros países. Foi diretora do MBA Lisbon, contando com mais de 20 anos de experiência em... Ler Mais