Opinião

Mediação imobiliária, profissionalização e maturidade precisa-se

Massimo Forte, Real Estate Influencer
Foto: Massimo Forte

Nos últimos anos, muito se tem falado sobre a habitação em Portugal. Fala-se de preços, de acesso ao crédito, de construção, de investimento e de políticas públicas.

No meio deste debate, existe um interveniente que raramente ocupa o centro da discussão, mas que influencia e intervém diretamente todos os dias: a mediação imobiliária. Não é por acaso que, enquanto o mercado imobiliário português atravessava um dos períodos de maior crescimento da sua história, também a atividade de mediação imobiliária registava uma evolução significativa em número de pessoas e faturação.

Os dados disponíveis e possíveis para estatística da atividade, mostram que o número de licenças AMI cresceu mais de 200% desde 2013. Embora não existam números oficiais sobre a quantidade de profissionais em atividade por não haver hoje o registo individual de profissionais, mas sim apenas das agências a que se associam, podemos observar a evolução do número de agentes através das principais redes imobiliárias e pelo aumento dá para perceber que o setor acompanhou a dinâmica do mercado.

Mas será que este crescimento quantitativo foi acompanhado por uma evolução equivalente ao nível qualitativo da competência, da especialização e da qualidade do serviço prestado ao consumidor?

Esta é uma pergunta que merece reflexão.

E a minha é muito simples, crescimento não foi necessariamente sinónimo de evolução.

Apesar de haver excelentes profissionais nesta área, há também quem venha à procura de ganhar dinheiro rápido focando apenas no resultado, e não no cliente ou no fulcro deste negócio, a relação. E o que acontece é muito simples, o nível de confiança desce e generaliza uma ideia injusta para quem está nesta atividade para construir um negócio e não um meio para ganhar dinheiro rápido.

Ao procurar compreender melhor a perceção dos consumidores sobre a atividade, analisei as reclamações atualmente disponíveis em plataformas públicas de referência.

Os motivos mais frequentes continuam a estar relacionados com falta de transparência nos processos de negociação, falhas de comunicação, incumprimento de expectativas, gestão contratual e acompanhamento ao cliente.

Independentemente da dimensão real destas ocorrências, existe uma conclusão difícil de ignorar: muitos dos desafios apontados pelos consumidores não estão relacionados com tecnologia, legislação ou conjuntura de mercado, estão sim relacionados com pessoas, processos e competência profissional.

E é precisamente aqui que reside o maior desafio para quem quer fazer mediação imobiliária profissional em Portugal.

Precisamos de criar legislação que garanta competência profissional para pessoas que lidam com um tema sensível e estruturante, a habitação.

A legislação tem acompanhado os diferentes ciclos do mercado, tornando-se mais exigente ou mais permissiva consoante o contexto económico, no entanto, a história mostra-nos que nenhuma alteração legislativa consegue, por si só, criar profissionais melhores.

A legislação pode definir regras. A profissionalização depende da forma como cada profissional decide exercer a sua atividade.

Naturalmente, o enquadramento legal e a fiscalização desempenham um papel importante, contudo, a transformação mais relevante não virá apenas da legislação. Virá sobretudo da capacidade que o próprio setor tiver para elevar os seus padrões, investir em formação contínua, valorizar a especialização e assumir uma cultura de responsabilidade perante os clientes e não de massificação.

Os próximos anos serão particularmente exigentes.

A consolidação do mercado, a redução das margens, a evolução tecnológica e o aumento das expectativas dos consumidores, irão distinguir claramente os profissionais preparados daqueles que entraram na atividade apenas por oportunidade.

Talvez a grande questão já não seja quantos profissionais existem na atividade, mas sim quantos estão verdadeiramente preparados para se profissionalizar e responder às exigências do consumidor atual.

O futuro da mediação imobiliária não será decidido pelo número de licenças emitidas, será determinado pela confiança que os profissionais conseguirem conquistar.

Talvez este seja o momento certo para a mediação imobiliária portuguesa deixar de discutir crescimento e começar a discutir maturidade, porque crescer é importante, mas evoluir é indispensável.

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Massimo Forte

Massimo Forte

A viver em Lisboa e a trabalhar em Portugal, Espanha e Itália, Massimo Forte é um italiano de Milão apaixonado pela área do imobiliário, um negócio que considera ser de pessoas para pessoas. Licenciado em Gestão Imobiliária e pós-graduado em Branding e Gestão de Imagem, procurou expandir o seu conhecimento sobre pessoas e tornou-se Practitioner em PNL. Em mais de 25 anos de experiência passou pelas maiores empresas de mediação imobiliária em Portugal e por todas as fases do negócio... Ler Mais..

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