Como é ser mulher empreendedora nos dias de hoje? Como assumir a liderança de uma empresa de alta performance quando se é mãe? São tudo perguntas consideradas até politicamente incorretas atualmente.

Ao olhar para trás, para o caminho que já percorremos, posso dizer com segurança que o papel das mulheres no ecossistema empreendedor é cada vez mais relevante. Não porque sejamos melhores que os homens, mas porque existimos e trabalhamos. Vencemos e falhamos e as nossas histórias merecem ser contadas por nós, com tanto palco como o que têm todas as outras.

É um facto que ao longo da história da Humanidade as mulheres assumiram sempre papéis múltiplos na sociedade: não só de educadora, mãe, filha, amiga ou cuidadora, mas também de líder, cientista, criadora. São as histórias destas últimas que, poucas vezes, se repetiram até chegarem até nós. As janelas de oportunidade eram fechadas por decreto e as histórias das role models definidas e perpetuadas por homens.

Margaret Keane, pintora americana, foi durante anos reprimida pelo nome do seu marido até se assumir como autora das suas obras, já com 20 anos de carreira. Katherine Johnson, que faleceu no final de fevereiro deste ano, foi uma mente brilhante da NASA que trabalhou numa sociedade segregada, sem poder assumir as suas vitórias.

Felizmente a história começa a mudar e hoje o problema chega-nos de forma subliminar: através de construtos sociais com muitos anos. Ideias pré-concebidas que nos colocam expetativas sobre aquele que deve ser o papel da mulher na família, na sociedade e na empresa. Atualmente, travamos batalhas mais pequenas, mas não menos importantes: passámos da legislação aos costumes, da sala do tribunal à sala de reuniões, onde diariamente provamos os nossos papéis.

Cabe a cada uma de nós, sinalizar sempre que estas pré conceções se atravessam no nosso caminho, impedindo-nos de chegar onde um homem, na mesma exata situação chegaria. Esse é um trabalho não só nosso, mas que também devemos esperar dos que estão à nossa volta – e comunicar essa expetativa é tão importante como sinalizarmos nós as injustiças, caso existam. Adicionalmente, enquanto o nosso foco for a concretização acredito que os objetivos se concretizem de forma mais simples, mais natural e facilitada.

Ser mulher empreendedora não é diferente de ser homem empreendedor. Mas há que não esconder as nossas histórias e as nossas vitórias. Falar abertamente das nossas falhas, sem lhes imputar uma espécie de predestino por estarmos a assumir um papel que supostamente não é nosso. Como se construir uma empresa seja um feito miraculoso para uma mulher “como é que ela consegue?”

A escolha de ser empreendedora significa ter uma visão clara e objetiva daquilo que quero fazer, trabalhar muito e ser resiliente, especialmente nos momentos em que todos à nossa volta me dizem que não sou capaz. Sobre o nosso papel na sociedade: foi-nos deixado um legado – a multiplicidade de papéis que assumimos – que pode ser hoje olhada como uma vantagem por termos experiência e história em tantos lugares relevantes da sociedade. Há que resgatar essas histórias, contá-las e fazer com que não voltem a ser esquecidas. E mais do que isso, é urgente criarmos líderes que sirvam de exemplo e de inspiração para outras mulheres mais jovens ou em igual posição para que também estas possam assumir o seu papel enquanto mulher.

Mais do que nunca, temos a oportunidade de educar para a igualdade e ter um papel ativo na criação de uma sociedade mais aberta e preparada para dar às mulheres o espaço que conquistam todos os dias por direito. E a meu ver, isso é possível. Mas que para seja consistente precisamos de mais tempo, mais palco e mais educação.


Licenciada na área de saúde, Romana Ibrahim entrou cedo no mundo do empreendedorismo, nomeadamente com a sua ligação a projetos das áreas de trading, business intelligence e imobiliário em Portugal, Angola, entre outros países. Em 2017 envolveu-se na criação de várias soluções digitais, transformando-as em negócios, criando a Keep Warranty.

Em 2018 foi distinguida com o prémio de Founder do Ano no “Portuguese Women in Tech Awards”, uma comunidade que distingue mulheres que se destacam no setor indústria tecnológica em Portugal.

Paralelamente tem sido convidada para participar em vários fóruns europeus de tecnologia como o Paris Fintech Forum e o Viva Technology Forum. Na vertente mais pessoal, é madrinha da GMA, uma associação filantrópica que apoia a educação de crianças e mulheres em Angola, representa a organização “The Next Woman” de origem Holandesa em Portugal, e é Embaixadora da ‘’Women in Tech’’ em Angola

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