Opinião

Lições do surf aplicadas às tecnologias

André Marquet, cofundador da Productized

“Se um especialista lhe disser que não é possível, arranje outro especialista.” — David Ben-Gurion, político israelita.

Previsões falhadas
Em 1993, o pioneiro da internet Bob Metcalfe, que é considerado um dos pais da Internet por ter sido o inventor do protocolo Ethernet no início da década de 1970, e que ainda hoje é usado nas redes de computadores, escrevia na revista Info World um artigo de opinião intitulado “a computação móvel irá falhar de forma permanentemente”, em que explicava porque considerava que as comunicações por “fios” iriam continuar a dominar o panorama das telecomunicações, e que a mobilidade sem fios não passava de uma moda passageira, chegando a dizer que “cortar todos estes fios e cabos é excitante, mas não é inevitável. A verdade sobre a computação móvel é que não se vai desenvolver”.

Se procurarmos um pouco, encontramos dezenas de predições falhadas, ditas por alguns dos maiores especialistas das suas épocas, que hoje nos parecem absurdas, “o mundo não precisa de mais do que 5 computadores”, “128Kb de RAM são um loucura” ou a minha favorita, do diretor de patentes do EUA que no final do século XIX recomendou que se fechasse o gabinete de patentes, porque já se tinha inventado tudo o que valia a pena ser inventado…

Em retrospetiva é fácil sermos condescendentes com estas previsões, mas, no caso do artigo de Bob Metcalfe, parece-me importante fazer uma reflexão, porque, na altura em que escreveu o artigo, há 30 anos, a maioria dos conceitos tecnológicos de telecomunicações que viriam a permitir a omnipresença do “sem fios” ainda não eram sequer alvo de investigação académica.

Ondas tecnológicas e mudanças de paradigma
Este padrão está presente em muitas destas previsões, feitas numa altura que antecede as mudanças de paradigma, em que as tecnologias dominantes estão maduras e as entrantes são ainda demasiado incipientes para serem levadas a sério. Por isso, gostava de revisitar alguns dos desenvolvimentos dos últimos anos que nos têm permitido ter uma panóplia de dispositivos móveis que só se tornaram possíveis porque foi feita investigação fundamental que nos permitiu “cortar os fios”.

Metcalfe partia de um princípio físico sólido, de que o espectro disponível, sendo limitado, iria ficar cada vez com mais ruído eletromagnético, à medida que mais dispositivos “sem fios” fossem usados, transformando-se numa verdadeira torre de Babel hertziana onde seria muito difícil os dispositivos comunicarem entre si – aquela sensação de se tentar manter uma conversa numa discoteca com muita gente.

Há 30 anos era perfeitamente razoável assumir que mesmo com melhorias incrementais, o espectro eletromagnético ficaria rapidamente saturado, caso o número de dispositivos móveis aumentasse significativamente. Para não dizer que em 1993 a cifragem forte estava reservada para a utilização exclusiva dos governos nacionais, pelo que também existiam considerações relativamente à segurança deste tipo de comunicação.

Os avanços radicais das telecomunicações
Esta disrupção nas telecomunicações sem fios tornou-se possível devido ao advento de avanços fundamentais, dos quais destaco três, a saber:

Em primeiro lugar, as modulações digitais mais complexas, que permitem comunicar uma maior quantidade de bits por largura de banda disponível, isto é, na parte de espectro radioelétrico que podemos usar. Tal foi consequência direta de melhores chips especializados no processamento de sinais, com muito maior poder de computação, graças à lei de Moore da qual as telecomunicações são tributárias.

Em segundo lugar, a tecnologia Multiple Input Multiple Output (MIMO) que permitiu a introdução da diversidade espacial nas comunicações, ou seja, a possibilidade de emissor e recetor usarem várias antenas em simultâneo para conseguirem melhorar a relação sinal ruído, e com isso aumentar a “velocidade” das ligações sem fios.

Por fim, a teoria da informação, através do teorema da codificação de canal ruidoso de Shannon, diz-nos que é possível comunicar através de um canal ruidoso com uma probabilidade de erro arbitrariamente pequena quando a taxa de comunicação é mantida abaixo de um determinado máximo para esse canal, o que se traduz num limite teórico da velocidade de comunicação. Ora, os códigos de canal servem precisamente para codificar o sinal no emissor e o descodificar no recetor de forma a eliminar os erros causados pelo ruído do canal, com o “custo” de acrescentarmos alguma informação redundante, um pouco como quando repetimos as palavras para garantir que nos percebem à primeira.

Portanto, em terceiro lugar destacava os chamados códigos polares para a codificação de canal, inventados pelo investigador turco Erdal Arikan, publicados num artigo científico de 2009, e que estão na base das redes 5G, e que nos permitem atingir os limites da “velocidade máxima” do canal, sendo hoje possível taxas de transmissão em dispositivos móveis 5G que apenas há alguns anos seriam consideradas ficção científica, tendo-se em ambientes controlados chegado perto dos 10Gpbs – quando entrei no curso de telecomunicações em 1998, as velocidades de 1Mbps eram o estado da arte, ainda nas primeiras versões do 3G – em 25 anos, a velocidade aumentou 10.000 vezes!

A importância de se chegar ao mercado na altura certa

Quem já experimentou fazer surf sabe que apanhar a onda nem sempre é fácil. É preciso alguma experiência para se perceber se a onda vale a pena e quando começar a remar. Por ocasião do Web Summit de 2022 esteve em Portugal o engenheiro Tony Fadell, que era membro da equipa fundadora da General Magic, uma empresa de Silicon Valley que desenvolveu o primeiro smartphone – este foi um exemplo de um produto que tentou surfar a onda da tecnologia da computação móvel demasiado cedo, em 1993, quando, como explicava, a tecnologia simplesmente não estava lá, ainda não existiam redes móveis suficientemente rápidas – apesar de terem a visão certa – quando a onda finalmente chegou, a start-up já tinha ido à falência.

 

Em 2018, tive a oportunidade de fazer a estreia em Portugal do filme General Magic, por ocasião da Productized Conference, com a presença da produtora.

Mas, quando tentamos surfar a onda demasiado tarde também corremos o risco de já não a conseguirmos apanhar, porque nesta situação já é necessário gastar muita energia para se ganhar a velocidade necessária, que tem de ser igual à velocidade da onda, para a conseguirmos surfar. Nesse caso também perdemos a onda. Foi o que aconteceu com a Blackberry que fabricava os icónicos telemóveis, que eram os favoritos de presidentes, celebridades e executivos pelas suas capacidades de email móvel – ignoraram a onda das capacidades acrescidas das redes móveis 3G com tudo o que as novas aplicações permitiam, desde as redes sociais aos clipes de vídeo, e quando tentaram apanhar a onda já era tarde demais. Outros “surfistas” já a estavam a surfar como era o caso do iPhone e dos smartphones Android.

Blackberry – o filme estreou este ano na Bienal de Berlim, e é baseado no livro “Loosing the Signal” do autor Sean Silcoff, que tive o prazer de convidar para a Productized Conference em 2020.

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