Se Arquimedes pensava que conseguia mover o mundo com uma alavanca, os aprendizes de gestor pensam que o conseguem fazer apenas com objetivos e incentivos. O entusiasmo é tão grande que o único critério para escolher um indicador parece ser a possibilidade de o medir. Quando uma proposta para avaliar o desempenho de médicos de família pelo número de utentes que decide interromper a gravidez só é travada depois de indignação generalizada, chegamos a um ponto em que é preciso parar para pensar.

Esta semana foi marcada pela notícia avançada em manchete pelo Público de que médicos de família poderiam passar a ser avaliados pelo número das suas pacientes que decidam fazer interrupções voluntárias da gravidez (IVG) ou que contraiam doenças sexualmente transmissíveis. Essa avaliação seria então utilizada para determinar o valor da remuneração variável dos médicos em Unidades de Saúde Familiar (USF) de tipo B. Se é verdade que esta ideia peregrina acabou por ser abandonada depois de ter sido exposta publicamente, não se pode desvalorizar o facto de ter passado pelo crivo de quem dirige a reforma dos cuidados de saúde primários, da Direção Geral da Saúde e do Grupo de Apoio às Políticas da Saúde.

Esta proposta era errada de muitos pontos de vista, mas vou concentrar-me no que revela sobre as ideias dominantes de como gerir pessoas. É só por isso que não dedico mais palavras à crítica das suas implicações sobre a igualdade de género, sobre a falta de respeito por uma decisão intimamente pessoal da mulher que está grávida ou sobre a forma como afetaria mais os setores mais frágeis e menos privilegiados da nossa sociedade.

Esta proposta foi apresentada como uma medida de gestão. João Rodrigues, o coordenador do grupo que apresentou a proposta, defendeu-a como a única forma de garantir que se evitam mais gravidezes indesejadas. Disse ele ao Público que “é preciso criar condições para que existam consultas de preconceção, consultas para quem quer iniciar a sua vida sexual. (…). Se não tiver este indicador [de ausência de IVG]nunca vou criar estímulos para isso”. Se o que importa é a prevenção, porquê adotar este indicador penalizador? Porque, segundo este médico, a ausência de prevenção leva a uma IVG e este era o único indicador que era possível medir. Deixem-me enfatizar: este indicador foi proposto por ser o único que se conseguia medir!

Este raciocínio revela uma ideia que se tornou predominante na gestão de pessoas: que a única forma de mudar comportamentos é medindo indicadores quantitativos, fixando objetivos e atribuindo incentivos e penalizações. Ou seja, seres humanos inteligentes e complexos são tratados como um sistema de feedback tão simples como o termostato que regula a temperatura do seu frigorífico. Esta forma de gerir confia cegamente na “cenoura” e no “chicote” para conduzir pessoas numa determinada direção. Quem pensa assim, confunde gerir com a simples monitorização de números, aparentemente fáceis de obter, agregar e mostrar. Com a agravante de que qualquer número, por muito manipulado que possa ter sido, parece sempre ser objetivo e verdadeiro…

Como instrumento de gestão, esta ideia tinha dois problema principais. O primeiro é que (felizmente) as motivações humanas são muito mais complexas do que a simples resposta a um estímulo material. Não é por acaso que no topo da famosa Pirâmide de Maslow estão as necessidade sociais, de autoestima e de autorrealização. Um incentivo financeiro, mesmo que seja relevante, não determina comportamentos por si só. Se prova fosse necessária, bastaria que nos lembrássemos da generosidade com que tantos profissionais de saúde deram tudo de si durante os piores momentos da recente pandemia. Não foi obviamente por causa de prémios financeiros. Pensar que um médico de família se vai esforçar mais para prevenir uma gravidez indesejada por causa de um critério para a sua remuneração variável chega a ser insultuoso.

Ainda que as motivações humanas sejam mais complexas, fixar um objetivo materializa uma intenção, coloca o foco de uma organização naquilo que decide medir. É esse o segundo problema desta confiança cega em objetivos e incentivos. A intenção estratégica que determinou a escolha de um indicador é facilmente esquecida por quem se decida concentrar apenas no que é objetivamente pedido: chegar a um determinado resultado num indicador definido, não importa como. É aí que a dimensão ética entra nesta questão.

Seria aceitável utilizar a evolução do número de IVG no país para medir a eficácia da ação da Ministra da Saúde ou dos responsáveis pela Direção Geral de Saúde. À escala nacional, o número de IVG pode ser uma boa estimativa da qualidade das iniciativas de prevenção e compete a esses responsáveis garantir os meios para essa prevenção, incluindo a existência de médicos de família em quantidade suficiente e com o tempo necessário para atender devidamente a sua lista de utentes.

Pelo contrário, utilizar o número de IVG para avaliar individualmente cada médico de família seria uma má medida de gestão e uma aberração ética. Uma má medida de gestão porque cada médico não controla muitos fatores económicos ou sociodemográficos, por exemplo, que contribuem para o número de IVG entre as suas utentes, pelo que tem um controlo limitado sobre esse indicador. Uma aberração ética porque, ao contrário dos responsáveis do Ministério da Saúde, cada médico de família tem contacto direto com as mulheres que podem ter a necessidade de decidir fazer uma IVG e tem a possibilidade de as aconselhar nessa decisão íntima e pessoal. Mesmo que nenhum médico tentasse influenciar qualquer utente por causa de um estupido incentivo financeiro, bastaria a suspeita para tornar a medida contraproducente.

Voltando às palavras iniciais de João Rodrigues, não basta a que tem a responsabilidade de gerir ter boas intenções, como melhorar o planeamento familiar ou o acompanhamento de quem inicia a sua vida sexual. Também não basta escolher um indicador só porque é o único que se consegue medir. É preciso olhar para as implicações éticas daquilo que se propõe, para a forma como esse gesto vai ser interpretado pelas pessoas que vão ser medidas por esse critério e para todas as formas como uma intenção inicial pode ser facilmente pervertida. Espero que este recuo abra espaço para que quem dirige o Ministério da Saúde se lembre que as pessoas que gere são seres humanos inteligentes. Às vezes basta ser claro na expressão do objetivo que se pretende, quando se é sério nos meios que se disponibilizam para o alcançar. Tenho a certeza que os médicos de família teriam percebido isso muito melhor do que esta trapalhada lamentável.

* O “Terror ao Pequeno-Almoço – A Gestão que Preferia não Conhecer”

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Rui Grilo é diretor do setor de educação da Microsoft para a Europa Ocidental. Ingressou na multinacional no final de 2009 para dirigir o negócio de educação na subsidiária portuguesa, tendo transitado três anos mais tarde para a estrutura europeia,... Ler Mais