No passado dia 22 de janeiro estive presente na audição pública sobre o Pacto Global para as Migrações Ordenadas, Seguras e Regulares, na Assembleia da República, que organizou o evento juntamente com a Cáritas Portuguesa, e onde tive a oportunidade de ouvir realidades com que muitos dos que escolheram o nosso país para viver se defrontam.

Fui em representação da ANESPO, Associação das Escolas Profissionais. E depois do que ouvi, dei por mim a procurar respostas para alguns dos desafios ali colocados. Sou um homem das empresas e, chocantemente, num país que se diz como muito integrador e pouco racista (ou nada mesmo!) verifico que não se cumprindo ainda de uma forma satisfatória a igualdade de género plasmada na lei e nos princípios básicos civilizacionais, muito menos se cumprem as restantes e legítimas igualdades. A este respeito, também contra mim falo.

Devemos começar pela base da pirâmide. É necessário fazer estudos ou censos, ou o que lhe queiram chamar, para identificar as desigualdades nas empresas, nas associações, nas autarquias, em todos os níveis organizacionais, no que respeita às diferenças étnico-raciais (NB: as expressões nunca são felizes, pois raça é uma, a Humana).

No passado mês de setembro surgiu um inquérito em algumas escolas, devidamente autorizado pela Direção Geral de Educação (mas que depois corrigiu dizendo que tinha aceite com indicação de alterações), onde se perguntava aos alunos as suas origens. De facto, a crer no que surgiu na comunicação social, questões como qual a origem do pai ou da mãe do aluno em questão e se a mesma é “portuguesa, cigana, chinesa, africana, Europa de Leste, indiana, brasileira ou outra”, são manifestamente infelizes na sua construção (até porque portugueses são todos os que têm nacionalidade e importa não esquecer que o nosso território foi sucessivamente povoado por povos que vinham de todos os lados). Mas isto não invalida que seja necessário ultrapassar as alegadas limitações constitucionais, que alegadamente proíbem qualquer tipo de discriminação.

No entanto, a exemplo do que se passa com a igualdade de género (que tem de ser necessariamente adaptada a realidades que hoje não se sustentam num sistema de género binário) torna-se necessário fazer o tratamento da informação fundamental para fazer cumprir o desígnio da igualdade plena. Por exemplo leia-se um artigo da Harvard Business Review que diz tudo no seu título: “Como as organizações estão a falhar aos trabalhadores negros – e como fazer melhor[1].
Assim, no caso das empresas e restantes organizações, é preciso um pacto social que avalie e crie os mecanismos necessários para que consiga promover uma efetiva participação de todos os que vivem em Portugal e de todos os que ambicionam viver. E acredito que isso fará de Portugal um País mais rico, na aceção que hoje importa – cumprindo os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável. Sem mais.

[1] https://hbr.org/2019/01/how-organizations-are-failing-black-workers-and-how-to-do-better


* Professor convidado do ISG – Instituto Superior de Gestão, em cursos de licenciatura e mestrado, Carlos Vieira é  licenciado em Administração e Gestão de Empresas, pela Universidade Católica Portuguesa (1996) e doutorando em Business Administration no ISCTE – IUL. Fez uma pós-graduação em Gestão e Organização Industrial, na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (2000), e frequentou o mestrado em Gestão, no ISG – Instituto Superior de Gestão (2009), só com conclusão da parte curricular.

Profissionalmente, pertenceu aos quadros Price Waterhouse e de uma associada; integrou os quadros da Vodafone Telecel, tendo desempenhado as funções de Manager no departamento de Planeamento e Controlo Financeiro; desempenhou atividade docente no ISCAD-Instituto Superior de Ciências da Administração e na ULHT-Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias; pertenceu aos quadros da Media Capital, como diretor de Contabilidade e diretor de Tesouraria do Grupo; foi administrador do Grupo Unisla; e ainda administrador do Grupo Ensinus.

A este percurso junta-se, ainda, entre março 2013 e junho 2018, os cargos de vice-presidente do Sporting Clube de Portugal, com o pelouro financeiro (e desde março de 2017 também com o pelouro do património), e de administrador da Sporting Clube de Portugal-Futebol, SAD. Além disso, é vice-presidente da ANESPO -Associação Nacional de Escolas Profissionais e membro da direção da CNEF- Confederação Nacional da Educação e Formação. Assume também a presidência do Conselho de Fundadores da FLAV-Fundação Luís António Verney e é membro da Ordem dos Economistas e da Ordem dos Contabilistas Certificados.

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