Opinião

IA e dispositivos médicos: como as start-ups podem reduzir custos e acelerar a inovação

Tiago Cunha Reis, docente universitário*

Empreender na área da saúde exige enfrentar barreiras como custos elevados, burocracia regulatória e longos tempos de desenvolvimento. No entanto, os modelos de linguagem de grande escala (LLMs), como o GPT-4, Gemini, etc., estão a transformar este cenário, permitindo que start-ups e inovadores reduzam custos e acelerem a criação de dispositivos médicos.

Com a capacidade de processar grandes volumes de informação técnica, analisar tendências e apoiar decisões estratégicas, a IA torna a inovação mais acessível, democratizando um setor tradicionalmente dominado por grandes empresas.

A primeira fase do desenvolvimento de um dispositivo médico envolve identificar uma necessidade clínica real e avaliar a sua viabilidade. Antigamente, isto exigia longas investigações, validação com especialistas e análise de mercado, consumindo tempo e recursos. Agora, LLMs conseguem rapidamente mapear tendências, examinar literatura científica e sugerir caminhos regulatórios, permitindo que empreendedores validem ideias de forma mais ágil e eficiente. Pequenas equipas podem operar com um nível de sofisticação comparável ao das grandes empresas, reduzindo a incerteza inicial do processo.

Outro fator crítico é a proteção da propriedade intelectual. Pesquisas de patentes são fundamentais para garantir exclusividade e atrair investidores, mas podem custar milhares de dólares em consultorias especializadas. Modelos de IA permitem realizar pesquisas preliminares, analisar patentes existentes e refinar a formulação de pedidos antes de consultar advogados especializados, reduzindo significativamente os custos iniciais. Em acréscimo, ao identificar padrões nas inovações existentes, os LLMs ajudam a diferenciar novos produtos, aumentando as probabilidades de sucesso no mercado.

A viabilidade financeira de um dispositivo médico depende também do modelo de reembolso. Sem um modelo de reembolso adequado, um dispositivo pode ter dificuldades na adoção por hospitais e seguradoras, e se não há quem compre então não há mercado. Tenho visto a utilização de LLMs na ajuda de como identificar modelos de reembolso apropriados, prevendo padrões de cobertura e fornecer insights para negociações com stakeholders.

O mercado global de dispositivos médicos está projetado para ultrapassar os 800 mil milhões de dólares até 2030, impulsionado pela digitalização da saúde e pela necessidade de soluções mais eficientes. A capacidade de integrar IA no desenvolvimento de dispositivos médicos representa uma vantagem competitiva significativa. Start-ups e empreendedores que utilizarem essas ferramentas poderão não apenas competir com grandes empresas, mas também transformar radicalmente o acesso à tecnologia médica.

Apesar do seu enorme potencial, a adoção de IA na inovação em dispositivos médicos exige cautela. A precisão dos dados, a segurança da informação e o risco de viés algorítmico devem ser geridos para garantir que a tecnologia seja um facilitador da inovação e não uma fonte de erros. A colaboração entre empresas tecnológicas, reguladores e profissionais de saúde será essencial para maximizar o impacto positivo destas ferramentas. Se é um empreendedor neste setor, comece já a criar a sua rede de contactos.


Tiago Cunha Reis, Ph.D., é doutorado em Sistemas de Bioengenharia pelo programa MIT-Portugal, tendo desenvolvido o seu doutoramento no Hammond Lab (MIT, EUA). Com foco nas necessidades de translação médica, o então engenheiro é agora aluno de Medicina. Reconhecido por sua paixão pela humanização da tecnologia em saúde e por melhorar ferramentas de diagnóstico e prognóstico, Tiago Cunha Reis possui um amplo histórico de prémios, publicações e nomeações internacionais em sociedades científicas europeias. Fomentador de conhecimento aplicado, fundou uma start-up focada em sensores e inteligência artificial, a qual expandiu internacionalmente antes de ser adquirida no final de 2022.

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