Dar voz a portugueses que estão à frente de empresas e projetos pelo mundo fora é o objetivo do projeto do Link To Leaders e da Plataforma Portugal Agora. Frederico Grases Rauter já trabalhou em diversas empresas e projetos em Espanha, França e Alemanha, e é o sexto convidado desta iniciativa. 

Confesso ser um apaixonado pelo hidrogénio verde. A razão que fundamenta esta declaração de interesses é simples: trata-se da única solução para a crise climática que não implica a negação dos princípios de desenvolvimento em que assenta a nossa sociedade.

Pensando em Portugal, entendo que o hidrogénio verde afigura-se como a oportunidade de relançar a sua capacidade industrial, alavancando e potenciando os investimentos já realizados quer nas energias renováveis, quer nas infraestruturas energéticas e de transportes.

Indo por partes:

1 – Hidrogénio: O grande desconhecido

O hidrogénio, que até hoje tem estado ausente da discussão pública, é uma peça fundamental do mundo industrializado e desenvolvido. Sem hidrogénio não seria possível produzir fertilizantes, polímeros, aço ou mesmo combustíveis. É produzido em larga escala, numa média de 70 milhões de toneladas por ano no seu estado puro, sendo utilizado em cerca de 55% para a síntese de amoníaco, 25% pela indústria petroquímica e cerca de 10% para a produção de metanol.

Atualmente o hidrogénio é produzido a partir do gás natural, num processo altamente poluente já que um dos subprodutos é o dióxido de carbono, gerado num rácio de 8 a 10 quilogramas por cada quilograma de hidrogénio. Apesar de ter sido desenvolvida uma variante do referido processo, em que se realiza a captura de grande parte do dióxido de carbono produzido, os elevados custos associados têm limitado uma expressão relevante do mesmo.

Contudo, é também possível produzir hidrogénio a partir da água, a partir de um processo denominado de eletrólise. Desde que a energia utilizada neste processo tenha sido gerada a partir de fontes renováveis, é possível sintetizar hidrogénio sem qualquer produção de dióxido de carbono. É deste “hidrogénio verde” que tanto se fala.

2 – Hidrogénio verde: A única solução viável para a crise climática

Nas últimas décadas assistimos a um investimento maciço na produção de energia renovável, atingindo uma média de 22% da capacidade global de geração. Contudo, o impacto nas emissões de carbono é à partida limitado, dado que cerca de 60% das mesmas são geradas noutros setores – como o de transportes, industrial e de construção – nos quais os esforços de descarbonização têm sido pouco expressivos. De facto, as emissões de gases de estufa têm aumentado ano após ano, atingindo um valor recorde de 1,8% em 2018.

O hidrogénio verde ganha relevância no referido contexto, já que se afigura como a única resposta cabal em termos de tempo e de custos de investimento para eletrificar os referidos setores de atividade com base em energias renováveis – realizando o chamado sector coupling.

Não sendo o único, o setor dos transportes é disso um bom exemplo: 50% das emissões poluentes nesse setor são devidas ao transporte de pesados de mercadorias, ao transporte marítimo de longo curso e à aviação. Ora, não sendo possível utilizar baterias para eletrificar as referidas áreas de atividade, quer por razões económicas ou tecnológicas, o hidrogénio verde afigura-se como a solução ideal, quer diretamente, como combustível de fuel-cells, no caso do transporte terrestre e marítimo, quer como matéria prima para a produção de fuels sintéticos, no caso da aviação.

A síntese dos referidos fuels não poluentes apresenta uma vantagem adicional, já que a sua produção implica a utilização de dióxido de carbono, que pode ser capturado de processos industriais, biológicos ou mesmo diretamente da atmosfera. Tendo em conta o duplo efeito, estima-se que a substituição dos combustíveis fósseis por estes green fuels possa levar à redução em 90% das emissões de carbono associadas ao seu poder energético.

Segundo a Agência Internacional de Energia o impacto do sector coupling, poderá levar à redução em 50% da procura de energia primária com origem fóssil. Tal significa, considerando os valores de 2018, que o mercado do hidrogénio verde tem o potencial de evitar o consumo equivalente a 7.000 milhões de toneladas de crude por ano.

Assim sendo, não é de admirar que várias potências, entre as quais o Chile, a China, a Austrália, a União Europeia e, muito recentemente, os EUA, têm apontado a produção de hidrogénio verde como uma aposta estratégica. No caso da União Europeia, o hidrogénio verde assume mesmo um papel central no Green Deal, dado o ambicioso plano de apoio para lograr um crescimento exponencial da capacidade de produção a curto prazo, apontando para a instalação de uma capacidade de 6 GW até 2024 e de 40 GW até 2030.

3 – Portugal: potencial motor de exportação de hidrogénio e de tecnologia

É neste contexto que o governo português, reconhecendo também as vantagens estratégicas que o nosso país tem face a muitos outros – por ora – mais industrializados, publicou a estratégia nacional para o hidrogénio, tendo levado a um aceso debate no espaço público. Entre variadíssimos argumentos de índole técnica, económica e financeira, penso poder agrupar as várias posições em dois partidos: quem entende ser um imperativo nacional investir na sua produção o quanto antes e quem entende ser um imperativo nacional investir na sua produção o quanto depois. Ou seja, a divergência está no timing em que se deve realizar os investimentos necessários.

Dado o meu disclaimer inicial, não será certamente surpreendente definir-me como partidário do grupo que quer tomar a dianteira. Dito isto, revejo-me totalmente em alguns dos princípios que norteiam muitos dos que aconselham prudência nos timings, em particular a preocupação em assegurar que os investimentos sejam suportados por um business case positivo, evitando que sejam chamados os contribuintes “a pagar a fatura”.

Contudo, vejo o caso do hidrogénio verde significativamente distinto do investimento – visto como prematuro – que se realizou no setor das energias renováveis em Portugal e que tem sido usado como exemplo dos erros que se devem evitar:

  • É para Portugal uma oportunidade da criação de uma indústria exportadora, dado que os países que mais dele necessitam e dos seus “derivados” não têm capacidade de o produzir a valores competitivos;
  • Existe a oportunidade de atrair empresas capazes de desenvolver tecnologia e processos industriais que permitam reduzir os custos associados à produção, armazenagem e transporte de hidrogénio verde, localizando em Portugal não só centros de investigação, mas também a produção de equipamentos.

Note-se que se pelo lado da produção de hidrogénio, a capacidade de exportação está naturalmente limitada à dimensão do país, já o potencial associado à exportação de tecnologia e conhecimento não tem limite. Por fim, é importante não esquecer que, para além de hidrogénio, é também sintetizado oxigénio no processo de eletrólise e que representa, também ele, um mercado industrial muito interessante.

Ou seja, a atual imaturidade tecnológica não tem de ser uma ameaça, mas sim uma oportunidade para que Portugal se posicione de forma diferencial em toda a futura cadeia de valor do hidrogénio verde.

Em conclusão, não devemos evitar o futuro com medo dos erros do passado. Podemos sim aplicar todas as lições aprendidas para maximizar os resultados de uma visão que põe Portugal, novamente, no centro do mundo. Desta feita, verde.


Eterno entusiasta por desafios e movido pela geração de impacto, Frederico Grases Rauter tem baseado a sua carreira na procura de conhecimento, na criação de soluções disruptivas e no desenvolvimento de pessoas e equipas.

Com 20 anos de experiência multi-setorial – consultoria, mobilidade, energia e IoT – apresenta um percurso  caraterizado pela criação, crescimento e recuperação de projetos empresariais, em diferentes mercados e geografias. Tem exercido funções executivas na Siemens e assumido a responsabilidade de liderar vários projetos estratégicos, como sendo o desenvolvimento e o roll-out global de uma nova linha de negócio digital na área de Inteligência Artificial e Internet of Things e a criação do Sales Head-Quarter LATAM da unidade de negócio focada em projetos EPC de transporte de energia.

Como empreendedor trouxe para Portugal o conceito de empreendedorismo social, tendo criado uma business school para o terceiro sector juntamente com o INSEAD. É doutorado em Engenharia Mecânica pelo Instituto Superior Técnico e membro sénior da Ordem dos Engenheiros.

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