Dar voz a portugueses que estão à frente de empresas e projetos pelo mundo fora é o objetivo do projeto do Link To Leaders e da Plataforma Portugal Agora. Miguel Teixeira, CEO da everis-NTT DATA no Chile, é o sétimo convidado desta iniciativa.

Não há nada mais forte que um ser humano educado, com bons princípios, mas enquadrado no ambiente certo. Hoje venho escrever sobre o “milagre” liberal chileno.

Em abril de 2020 foi-me atribuída a missão de gerir o negócio da everis/NTT Data no Chile. Desde aí tenho-me debruçado sobre este país para tentar entender o que tem o Chile e o modelo de gestão que em 30 anos conseguiu multiplicar 6x o seu PIB per capita tornando-se uma das economias mais fortes da América Latina.

Sem entrar em questões ideológicas, sabendo que não há sistemas perfeitos, gostava de abordar três pontos comparativos entre o Chile e Portugal, que creio que como português me fazem refletir sobre o enorme potencial que Portugal tem, e me deixam com esperança de que com os devidos ajustes, o melhor está por chegar:

1 – O nível de educação do Chile é o mais elevado da América Latina.

Se alguma dúvida existe sobre este indicador e o nível de desenvolvimento de um país basta abrir o ranking da OCDE da Educação e ver a “feliz” coincidência de nível de educação e desenvolvimento de um país. O desenvolvimento de Portugal nesta área foi impressionante nos últimos anos, e creio mesmo que em termos da criação de talento tem das melhores universidades europeias e as pessoas mais bem preparadas;

2 – O talento e a iniciativa juntos são uma alavanca exponencial de desenvolvimento, mas apenas colocados no ambiente certo.

Um país educado é um país de gente com conhecimento. Mas este fator torna-se insuficiente se não criarmos um ambiente de princípios éticos e de liberdade, para que essas pessoas possam inovar e aportar, e sentirem-se compensadas por isso. Não é muito diferente de uma empresa, sendo que as empresas que têm menos regras, permitem a livre iniciativa das suas pessoas, e cuidam delas, são as que hoje dominam o mundo da inovação e do valor para o seu acionista. O Chile tem ainda um longo caminho a percorrer dentro das suas empresas… mas o seu liberalismo, e a sua regulação de princípios e menos regras, trouxe este desenvolvimento acelerado. Falta-lhe tornar este modelo mais solidário. Portugal tem de entender que sem perder a parte humana e solidária que tem no seu sistema, deve facilitar a iniciativa, e não sobre regulamentar, para poder aproveitar todo o valor que estas pessoas trazem. Steve Jobs dizia, “…. se temos pessoas com enorme talento para lhes dizer exatamente o que têm de fazer, estou a perder o seu maior valor…”;

3 – Um país atrasado por vezes é uma enorme oportunidade para o futuro, quando não pensa fazer igual aos outros hoje, mas desenvolve-se para estar à frente daqui a 20 anos.

Um país recupera e desenvolve-se com um projeto estratégico de médio/longo prazo, atrevendo-se a ir por um caminho distinto, ainda que com custos de curto prazo. O Chile não pensou em aproveitar as suas riquezas naturais como os outros o faziam, nem ter o Hospital, nem as estradas, nem as infraestruturas dos outos, mas nas que os outros gostariam de ter em 20 anos… É um processo em desenvolvimento, mas penso sempre em dois pequenos exemplos que encontrei… um único numero identificador para todos os sistemas, cidadão, saúde, fiscal, etc … E, um sistema de compensação e transferências em tempo-real que se atreveu a não copiar o sistema americano ou europeu, que tinham uma enorme maturidade, mas que trabalhavam de forma assíncrona…, criou o seu em tempo real. Nós temos um excelente exemplo, o nosso MBWay. Portugal deveria estar já a pensar no que pode fazer para estar daqui a 20 anos à frente dos seus pares da UE, e não apenas em seguir evoluindo. Mesmo para quem defende que o turismo é a nossa base de crescimento…, não adianta pensar num turismo para atrair hoje, mas sim como será o turismo de 2040, e arriscar caminhar nesse sentido.

Insisto que o meu Portugal tem gente educada, trabalhadora, de bons princípios, mas temos de melhorar o ambiente onde colocamos estas pessoas e a liberdade que lhes damos, definindo de uma vez por todas como vamos ser melhores… não amanhã, mas daqui a 20/30 anos.

Não tenho dúvidas que esta é a fórmula para que consigamos oferecer aos nossos filhos um futuro melhor.

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Miguel Teixeira é licenciado em Engenharia Informática e Computadores pelo Instituto Superior Técnico, com Pós-Graduação em empreendedorismo e Inovação pela Universidade Católica Portuguesa.

Tem mais de 25 anos de experiência nacional e internacional em tecnologias de informação e consultoria tendo passado por empresas como a Eurociber (uma empresa local de consultoria dos anos 90), a Dalera Ciberguia (StartUp de E-commerce), a TietoEnator (a maior empresa de IT dos países Nórdicos), e a everis – na NTT Data Company, onde exerceu as funções de manager e sócio em setores como Banca, Utilities, Indústria e Setor Público. De 2014 a 2019 foi CEO da everis-NTT DATA em Portugal. Há alguns meses que é o CEO da everis-NTT DATA no Chile. É triatleta e maratonista nos tempos livres dedicando-se a competições internacionais de longa distância.

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