“Desmitificar e mudar a forma como os portugueses olham para a sua saúde mental: não como algo acessório, com o qual só quem está mentalmente doente se deve preocupar, mas como parte essencial no bem-estar e vida de qualquer pessoa”. É esta a missão da plataforma PartilhadaMente lançada em abril deste ano, segundo o seu cofundador, José Bourbon.

Com formação em jornalismo, José Bourbon trabalhou no Expresso, Amnistia Internacional e AICEP, e ainda como freelancer para diversos sites. O PartilhadaMente nasce, em abril deste ano, da sua convicção de que é necessário “banalizar” (no bom sentido da palavra) a conversa sobre saúde mental em Portugal, envolvendo os diversos setores da sociedade.

O projeto, que conquistou o CIS Empreende, competição de empreendedorismo social do Centro de Inovação Social da Fundação Eugénio de Almeida e que está incubado na própria fundação, quer que se olhe para a saúde psicológica como se olha para a saúde física.

De que forma? Não só através de artigos escritos por profissionais dos mais diversos ramos da psicologia e de áreas complementares, mas também através de consultas nas especialidades de terapia de casal, gestão de carreira e psicoterapia, entre outras, ou de eventos como workshops e aulas de yoga. E de um blogue, onde qualquer pessoa pode partilhar a sua história e inspirar.

Como define o partilhadamente.pt? Em que consiste exatamente esta plataforma?
O PartilhadaMente é uma plataforma online que aborda, de forma aberta e descomplexada, a temática da saúde mental, focando não apenas nas consequências e sintomas das diversas doenças mentais na vida das pessoas mas, sobretudo, nas questões que, quando ignoradas, podem vir a ter um impacto na nossa saúde mental. Falamos de questões relacionadas com autoconhecimento (como o impacto da infância no nosso eu adulto), da importância de saber identificar e desenvolver competências emocionais, de desmitificar e educar em campos como o da sexualidade, ou o da saúde mental no trabalho e dos relacionamentos online.

O PartilhadaMente pretende, assim, tornar-se numa plataforma abrangente e acessível para o público, onde este pode não só consumir informação – lendo artigos ou ouvindo o nosso podcast (que pretendemos estrear em setembro) –, mas também participando em workshops, formações ou marcando uma consulta com um dos nossos psicólogos e ainda partilhando a sua própria história e desafios na área da saúde mental, no blog SinceraMente. Isto é algo muito importante para nós, visto que acreditamos que é cada vez mais necessário, que quem já sofreu de questões relacionadas com a saúde psicológica partilhe a sua experiência, de forma a “banalizar” este tema, para que quem sofre deixe de ser visto como um “coitadinho”, com “pena”, mas sim como alguém que é corajoso. Ao mesmo tempo é importante que as pessoas percebam que, sofrer de questões relacionadas com a saúde mental é algo natural, que pode acontecer a qualquer um e que, por isso, não deveria ser encarado como algo negativo, que é necessário esconder, antes pelo contrário, é algo que é muito importante ser falado sem tabus ou complexos.

Acreditamos que é, em parte, esta “ignorância”, no sentido literal da palavra, devido à falta de educação e de preparação que temos para estas questões, aliada a este estigma e tabu fazem com que, na nossa vida futura, venhamos a desenvolver, por exemplo, depressões e ansiedades, as doenças mentais mais recorrentes em Portugal. E é nestas questões de vida que o PartilhadaMente tem o seu maior foco.

“O problema da saúde mental em Portugal já existia muito antes desta pandemia – os estudos assim o demonstram – e a pandemia trouxe apenas uma maior consciência”.

Porquê esta aposta na saúde mental? Resultado da pandemia e dos seus danos nas pessoas a esse nível?
Deve-se a vários fatores, diria que a pandemia é o menor deles todos, devido ao conceito do PartilhadaMente e, também, à realidade da saúde mental no nosso país. O problema da saúde mental em Portugal já existia muito antes desta pandemia – os estudos assim o demonstram. A pandemia trouxe apenas uma maior consciência. Como o nosso foco não está não só na ação para a mitigação das consequências, mas também para a prevenção e educação, a pandemia não foi de todo central.

Já éramos o segundo pior país da Europa em termos de prevalência de doenças psiquiátricas antes da pandemia e, portanto, de certeza que não vai ser o fim da pandemia que vai resolver o problema. Poderá ter ajudado, no sentido em que trouxe uma maior consciencialização. Esperemos que traga uma maior ação por parte das pessoas, principalmente em áreas cruciais como é o caso do ensino e do próprio mercado de trabalho.

Este projeto é muito mais consequência, por um lado, inevitavelmente das minhas experiências pessoais: pelo interesse que tenho nestes temas relacionados com a psicologia, com aquilo que influencia a nossa saúde psicológica e assente numa enorme curiosidade em perceber como o ser humano funciona. E obviamente que este interesse tem vindo a crescer exponencialmente à medida que sei mais sobre estes temas e, à medida que também eu vou eliminando, ou pelo menos reduzindo, os estigmas que tenho minha cabeça sobre muitas destas questões de vida.

Mas atenção, este projeto é para todas as pessoas: um dos maiores erros que na minha opinião – realço que a minha opinião não é como psicólogo, mas como pessoa formada em jornalismo, como criador deste projeto e, sobretudo, como ser humano que inevitavelmente vive estas questões – as pessoas cometem é de acharem que só precisam pensar nestes temas, quando a sua saúde psicológica estiver afetada.

Da mesma forma que devemos fazer desporto regularmente para nos sentirmos bem, se não tivermos autoconsciência para estes temas e não a exercitámos, estamos a aumentar a probabilidade de cair nos erros ou ignorar questões importantes, que depois poderão afetar a nossa saúde mental. Aliás, não há razão nenhuma para separarmos a saúde física da saúde mental.

Quando foi lançado e qual a equipa que esteve na sua origem?
O projeto foi lançado a 10 de abril deste ano. A equipa que esteve na sua origem foi o Brian Shanahan, que já trabalhou como consultor em várias multinacionais, o Pedro Pinto da área das Finanças e Contabilidade e o Pedro Arsénio, da área de marketing. Estes três foram aqueles que se juntaram a mim – de uma forma oficial – ainda numa fase bastante inicial, durante o ano de 2020. E digo de uma forma oficial porque há muitas outras pessoas, algumas que continuam a fazê-lo que me ajudaram muito e permitiram que este projeto fosse para a frente e a quem estou mesmo muito agradecido. Sinceramente acho que isso também foi uma grande motivação, perceber que tinha pessoas que me queriam ajudar, só porque acreditavam no projeto e tinham paixão pelo tema.

Depois mais recentemente juntaram-se ainda a Carlota Portugal, que alia os conhecimentos de edição à parte de webdeveloping e Design, a Marta Simões – que nos apoia na parte de redes sociais e comunicação – e a Marta Abreu, que nos ajuda na parte de Recrutamento.

“O modelo de negócio central funciona através de comissionamento, ou seja, sempre que existe uma compra no nosso site, seja de um workshop, formação, aula de yoga, de uma consulta de psicologia (…)”.

Qual o modelo de negócio do projeto?
O modelo de negócio central funciona através de comissionamento, ou seja, sempre que existe uma compra no nosso site, seja de um workshop, formação, aula de yoga, de uma consulta de psicologia, de orientação vocacional, eneagrama, coaching e gestão de carreira (para mencionar algumas), a plataforma fica com uma comissão.

Claro que recompensamos aqueles terapeutas que querem ter um envolvimento mais regular, ao produzirem conteúdo, cobrando uma comissão mais reduzida e dando-lhes todo o apoio necessário na produção do mesmo. Para além disto, vamos também adotar em breve o modelo Patreon e iremos lançar uma campanha de crowdfunding.

Qual o objetivo da campanha de crowdfunding?
A campanha de crowdfunding terá como principais objetivos a implementação de um fundo social, em que queremos usar parte do dinheiro para ajudar quem não pode pagar os valores que temos atualmente no nosso site, para poderem usufruir de terapia a preços mais reduzidos ou mesmo gratuitamente.

Por outro lado, pretendemos também implementar melhorias técnicas no nosso site – por exemplo, integrar o Zoom corporativo -, de forma de forma a oferecermos um serviço cada vez mais completo, intuitivo e prático para o utilizador.

O projeto venceu o CIS Empreende, uma competição de empreendedorismo social do Centro de Inovação Social da Fundação Eugénio de Almeida, e está incubado na própria fundação. Como está a ser essa experiência?
Apesar de a incubação ser virtual devido à pandemia, a experiência está ser muito enriquecedora. Temos um grupo de WhatsApp, onde estão todos os empreendedores da fundação, que usamos para partilhar eventos, novas candidaturas a fundos, etc.

Para além disso, já recebemos consultoria na área do webdeveloping, estando também a receber consultoria na parte de desenvolvimento do modelo de negócios e marketing. Esse apoio tem sido essencial, porque como estamos numa fase inicial do negócio, é obviamente muito importante garantir que estamos no rumo certo e ter esta mentoria e consultoria torna-se muito importante para nós, para a validação dos próximos passos a dar.

Como funciona a partilhadamente.pt?
O PartilhadaMente funciona de forma muito simples. É um site totalmente aberto a qualquer pessoa interessada em saber mais sobre as grandes questões de vida que afetam a nossa saúde psicológica e através do qual podem estar informadas (lendo os nossos artigos e subscrevendo a nossa newsletter) e ainda participar ativamente, recorrendo a algum dos nossos serviços ou partilhando as suas próprias histórias.

Todas as compras são feitas online, em partilhadamente.pt, sendo que a maioria dos nossos serviços podem ser realizados online ou presencial (apenas alguns serviços, devido às características dos mesmos, realizam-se apenas em formato presencial).

O que é que as pessoas podem encontrar na plataforma em termos de serviços/produtos?
Neste momento podem encontrar aulas de yoga (tanto online, como presenciais, individuais e em grupo), consultas de aconselhamento psicológico, de psicoterapia, de terapia de casal, terapia familiar, hipnose, orientação vocacional, avaliação Psicológica, Gestão de Carreira e Coaching.

Podem encontrar ainda workshops e formações em diferentes áreas: desde “Como Comunicar de forma mais eficaz”, “Desafios do Processo de Educar”, “Cuidar de pessoas mais velhas” e “Resiliência no trabalho”. Estes são alguns dos workshops que já realizámos e que iremos retomar em setembro.

Já têm feedback dos utilizadores? Que áreas de apoio são mais procuradas?
Sim! O feedback até agora tem sido bastante positivo e as áreas mais procuradas são os workshops, aulas de yoga e consultas com psicólogos, principalmente o aconselhamento psicológico, psicoterapia e hipnose.

Quais são os objetivos dos fundadores para este projeto?  Expetativas de crescimento?
Os objetivos passam por ajudarmos a desmitificar e mudar a forma como os portugueses olham para a sua saúde mental: não como algo acessório, com o qual só quem está “mentalmente doente” se deve preocupar, mas como parte essencial no bem-estar e vida de qualquer pessoa e que portanto deve ser valorizada. E para se valorizar, primeiro é preciso educar para estas questões de forma a desmistificá-las e a torná-las mais simples e acessíveis ao público em geral, torná-las parte da vida e do nosso quotidiano de forma a que deixem de ser tabu.

Quanto às nossas expetativas de crescimento, passam obviamente por aumentar a variedade dos nossos serviços e a diferentes preços, aumentar o nosso número de psicólogos, fazer mais workshops que toquem noutros temas relevantes para a saúde psicológica dos portugueses e por aumentar o número de seguidores e clientes, porque obviamente sem eles não existe sustentabilidade.

“A maior parte das pessoas quando houve falar em saúde mental, pensa em “doença mental”, quando a saúde mental é exatamente o contrário”.

Acredita que os portugueses já estão mais sensibilizados para a importância da saúde mental?
Há uma maior sensibilização para o tema da saúde mental, mas é enganadora, porque é muito difícil sensibilizar para algo que as pessoas ainda encaram de forma errada. A própria conotação que a própria palavra saúde mental ainda tem demonstra isso. A maior parte das pessoas quando houve falar em saúde mental, pensa em “doença mental”, quando a saúde mental é exatamente o contrário. Segundo a Ordem dos Psicólogos Portugueses, é “o estado de bem-estar no qual o indivíduo tem consciência das suas capacidades, pode lidar com o stress habitual do dia a dia, trabalhar de forma produtiva e frutífera, e é capaz de contribuir para a comunidade em que se insere)”.

Ora, esta perceção errada do que é a saúde mental obviamente afasta as pessoas, porque os doentes mentais ainda são postos de parte ou “ignorados” pela sociedade, principalmente por setores que deviam ter um papel mais ativo, como o ensino e o setor empresarial.

O que é preciso fazer para existir uma verdadeira mudança?
Aqui é necessário dar os créditos “à pandemia” e aos media que começaram a falar com mais regularidade sobre estes temas. Ou seja, pelo menos as pessoas já reconhecem que a saúde mental é algo importante, já conhecem muitos dos sintomas e consequências, mas ainda a encaram de forma errada, como algo com que se têm de “preocupar” pontualmente. Para existir uma verdadeira mudança de paradigma, é necessário ir muito mais atrás para começar realmente a mitigar o problema, porque mais uma vez, não há nenhum problema social que se resolva através da mitigação das consequências, terá sempre de ser numa ótica de prevenção, olhando para as causas e razões que estão na origem do mesmo.

Daí nós no PartilhadaMente apostarmos muito numa comunicação mais informal, que se foca mais nas questões de vida, nas life issues, que têm enorme preponderância na nossa vida e que poderão vir a afetar a nossa saúde mental no futuro.

Como vê a plataforma daqui a um ano?
Acreditamos que o PartilhadaMente daqui a um ano será um projeto sustentado e reconhecido por uma grande parte do público mainstream português, onde este se revê por encontrar não apenas um “pronto-socorro” para quando a sua saúde mental está em baixo, mas uma plataforma onde pode estar constantemente a saber mais e evoluir ao nível mental, ganhando consciência sobre como lidar com as questões de vida que podem afetar a sua saúde mental. Acreditamos também que dentro de um ano já teremos o site em português – Inglês, o que nos irá permitir atingir outros mercados internacionais.

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